“Pega o Zico! Pega o Zico!”, berrava o Bith, nosso meia de ligação.
Pegar, no caso, significava marcar. Gíria de peladeiro. Zico era ele mesmo, Arthur Antunes Coimbra.
Estávamos — eu, Bith e Zico — num dos campos do CFZ, o clube que o Galinho de Quintino mantém desde que encerrou a carreira de jogador. Nós, de um lado; ele, de outro, na partida que um combinado do Pindorama, a seleção brasileira de escritores, disputou contra o time de amigos do craque no sábado passado.
“Pega o Zico!”, insistia outro companheiro de equipe. E eu corria para cercar o camisa 10, que dessa vez vestiu a 4. Cercar é mesmo o termo. Se fosse de primeira na jogada, possivelmente levaria o drible, ou ele giraria com a bola e me deixaria na saudade antes de partir em direção ao gol. Nem pensar. Dentro das quatro linhas, adversário é adversário, seja craque ou perna de pau. Regra de ouro da pelada, que sigo com rigor.
E digo a vocês: aos 61 anos, o jogador de Flamengo, Udinese e Seleção Brasileira ainda se movimenta bem em campo. Está magrinho, ágil. A categoria? Intacta.
Para dificultar ainda mais a missão do Pindorama, entre os Amigos do Zico estava Júnior, outro virtuose. Em suma, não tinha bobo no time deles, que se reúne toda quarta-feira para brincar de bola. São veteranos, é verdade, mas sabem o jogo.
“Pega o Zico!”, e era eu alertando Amilcar, nosso volante, enquanto corria para tentar marcar o Júnior, que atuava mais recuado. Nós corríamos, eles tocavam a bola, sem pressa. Os dez anos de juventude a nosso favor derretiam diante da experiência dos ex-jogadores profissionais.
“É o Zico, rapaz”, o rubro-negro Amilcar justificava sem falar nada. A expressão do rosto, extasiada diante do ídolo, desenhava as palavras. Mas em segundos o sangue de boleiro fazia sobressaltar a veia. Cerca, dá o bote, fecha o chute, tira o espaço, não deixa ele respirar. Jogo que segue, com suor e sem refresco para ninguém.
Nos dois tempos, que Zico jogou inteirinhos, até que atacamos bastante, mas o goleiro deles não era fácil. Resultado: levamos um saco de gols, e marcamos dois. Um deles feito pelo Flávio, nosso centroavante e artilheiro, outro por mim. Algo a contar ao filho que vem aí.
Partida encerrada, quase todos os jogadores-escritores do Pindorama cercaram Zico para tirar fotos, pegar autógrafos, agradecer. Refez-se, então, a dimensão do herói, do homem além do homem. Ele mesmo que por pouco mais de 70 minutos, dividindo bolas, arriscando dribles, tentando arremates, despiu-se da roupa de mito e foi só mais um peladeiro, como nós.
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