Paraty Mirim


Houve um tempo em que eu tinha realmente intimidade com Paraty. No fim da década de 1990, começo dos anos zero zero, meu irmão morava por lá, de modo que a cidade virou quase o segundo lar da família. Feriado, carnaval, festival da cachaça, temporada de camarão, qualquer motivo era pretexto para “subirmos”. Enfrentávamos o trajeto de três horas e meia, e as curvas angulosas da Estrada Rio-Santos, como se o ponto final estivesse logo ali.

Meu irmão se mudou, e as viagens a Paraty passaram a se limitar à Flip. Fui a onze, das doze edições. Só que, na Flip, Paraty é outra. A cidade do dia a dia se retira por uma semana, restando o cenário. O deslumbrante casario, as ruas de piso pé-de-moleque, as lojas com pequenos balões flutuando no ar, tudo isso está lá, enfeitando a festa da literatura. Mas há algo da alma de Paraty que se mantém escondido até que todos enfim se vão.

Este ano, decidi ficar alguns dias após a Flip justamente para reencontrar essa Paraty que, vaidosa, só se deixa ver quando a atração principal é ela mesmo, a cidade. Uma Paraty que não se restringe ao centro histórico, estendendo seus limites até a praia de São Gonçalo, a estrada para Cunha, as areias de Trindade, as reservas indígenas de Paraty Mirim.

Fazia pelo menos dez anos que eu não pisava em Paraty Mirim. No carro, tentando driblar os buracos da estradinha de terra que desemboca na praia, comentava com Juliana sobre a incrível combinação de rio, mar, aldeia e igreja que ela iria vislumbrar em alguns minutos.

No desenho da lembrança, havia a capela de Nossa Senhora da Conceição e algumas ruínas dos casarões da época colonial. Adiante, o rio, que atravessávamos com águas pela cintura caso a maré estivesse baixa, ou de barco, para então aportar na praia: 760 metros de areia e mar muito azul cercados pela mata atlântica.

Ao chegarmos, a imagem no entanto era outra. As ruínas permaneciam; a igreja construída em 1746, também. Mas já não há faixa de rio a cruzar. Contam os moradores que uma enchente, ocorrida há alguns anos, mudou a topografia.

“O rio ficava aqui onde estamos pisando?”, perguntou Juliana, com olhos de primeira vez. Percebi que sim, e o conflito entre memória e paisagem me atordoou por um segundo, como se o aço do espelho não refletisse o objeto à sua frente.

A umidade na sola dos pés contava histórias do passado, mentia sobre o solo seco. O rio agora é um rastro de mato na imensidão da areia.


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