O raio gourmetizador


“É de quê o sanduíche?”, perguntou a moça, parecendo faminta após o debate no Largo de São Francisco da Prainha.

“Pão com linguiça”, respondeu o Raphael Vidal, na dupla missão de organizador do evento e vendedor da barraquinha.

“O que leva?”, prosseguiu ela.

“Pão. E linguiça.”

Simples e direto, Vidal se recusara a lançar mão do raio gourmetizador que transforma os pratos numa versão falseada de si mesmos. À moça, restou sorrir.

O tal raio não virou meme à toa. E talvez o melhor caminho seja este mesmo: explicitar, com humor, o patético de se entrar no restaurante e ver a velha e boa lasanha à bolonhesa transformada em “ragu entremeado por lâminas de massa artesanal e chantilly de queijo”.

Dia desses um conhecido chef francês falava na TV sobre sua nova criação. O nome do sanduíche — que tentei sem sucesso decorar, tamanha a complicação — sugeria tudo, exceto o que a câmera por fim revelara. Uma trivial baguete recheada de carne assada.

Em outra ocasião, já há mais tempo, ao ler o cardápio de certo restaurante em Botafogo me deparei com a “torta de maçã desconstruída”. Cheguei a pensar que se tratasse de homenagem ao filósofo Jacques Derrida, mas não. O que o garçom nos trouxe foi um pequeno copo de plástico transparente. Dentro, a tal torta, absolutamente macerada, como se alguém tivesse fuxicado o doce antes de ser servido. Na verdade, fuxicaram mesmo e esse, parece, era o charme da sobremesa.

Nada contra a sofisticação, muito menos contra a criatividade na cozinha, mais que bem-vinda. Combinar ingredientes é uma arte. Graças ao talento de tantos chefs, podemos expandir nossos paladares, experimentar sabores completamente novos. A questão é o beletrismo gastronômico, a histriônica tentativa de tornar cada prato, para usar uma palavra igualmente caricata, “diferenciado”. O que, claro, quase sempre redunda em aumento do preço.

De raio em raio, assim vamos nós: “purê rústico”, “quinoa biodinâmica”, “nuvem de salsinha”, “caviar de tapioca”, “leito de rúcula”. Até o tradicional trailer de comida de rua foi rebatizado, virou “food truck”. O ridículo não tem limites.


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