Em 1863, o fotógrafo Félix Tournachon decolou com seu balão do Champ de Mars, em Paris. Dezessete horas depois, devido aos fortes ventos, foi obrigado a fazer um pouso de emergência. O coronel Fred Burnaby, membro do Council of the Aeronautical Society, partiu da Fábrica de Gás de Dover, em 1882, e conseguiu descer com tranquilidade num ponto entre as cidades de Dieppe e Neufchâtel. Antes disso, em 1870, a atriz Sarah Bernhardt havia experimentado um agradável passeio no Doña Sol, balão que homenageava a personagem interpretada por ela na Comédie Française. Estava ao lado de seu amante, George Clairin, e de um aeronauta profissional.
Os três episódios, descritos por Julian Barnes logo nas primeiras linhas de Altos voos e quedas livres, podem dar a impressão de que se trata de um livro sobre balonismo. Bem, é também um livro sobre balonismo. Mas o relato das pioneiras tentativas de se lançar aos céus, que ocupam os dois capítulos iniciais, funciona muito mais como a pavimentação da estrada na qual Barnes vai caminhar na parte final da obra.
“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes; e às vezes funciona, às vezes não”, observa Barnes. Balões nos conduzem às alturas mas também podem cair. Assim como nas histórias de amor, o desastre está sempre à espreita.
“Você junta duas coisas que nunca foram juntadas antes”, a frase se repete, insistente, no princípio do derradeiro capítulo. A sequência, contudo, modifica-se. “Então, em algum momento, por um motivo ou outro, uma delas é levada embora. E o que é levado embora é maior do que a soma do que havia”. Enfim chegamos ao sumo do livro: o luto.
Em 2008, a agente literária Pat Kavanagh, com quem Barnes viveu por três décadas, teve diagnosticado um tumor cerebral. Trinta e sete dias depois, sucumbiu. A perda da esposa é abordada com amargura profunda, mas sem autocomiseração. Mesmo o suicídio, aventado em determinada passagem, surge como possibilidade natural diante dos fatos. Opção descartada quando Barnes percebe que isso significaria matar Pat novamente, já que ele é, hoje, o depositório da memória de sua mulher.
Como explica o antropólogo José Carlos Rodrigues em Tabu da morte, notável estudo sobre o tema, a consciência não consegue pensar o morto como morto, e assim não pode se furtar a lhe atribuir uma certa ‘vida’. “O fato de alguém estar morto pode significar que a pessoa não está viva, mas não significa que ela não exista”, afirma Barnes, estabelecendo uma espécie de paradoxo do luto: a ausência de Pat só é suportada pela presença de Pat, ainda que no âmbito da lembrança.
Um ano antes da morte da esposa, Barnes publicara um estudo sobre a finitude. Em Nada a temer, o escritor se questiona sobre como as pessoas lidam com a ideia da extinção total, se haveria uma forma melhor de morrer. Recorre a casos familiares e a outros autores que meditaram sobre o tema, como Montaigne e Flaubert. A impressão é que todas essas reflexões empalideceram diante da partida de Pat. A experiência não deu conta; a literatura, tampouco.
“Uma morte pode explicar a si mesma, mas não lança nenhuma luz sobre outra morte”, escreve Barnes, citando o poeta E. M. Foster. A perda de Pat “reorganiza e reordena” aqueles que o rodeiam, seus amigos, que ganham nova perspectiva: são agora “comprovadores”, testemunhas de como foi a vida que já não há. “Que felicidade existe só na lembrança da felicidade?”, indaga.
A tristeza de Barnes ecoa nossas próprias tristezas, as perdas que progressivamente preenchem com pontos vazios cada história particular. Até que reste pouco, ou nada. Tudo o mais que o livro aborda — o balonismo, as aventuras, o sobe e desce das paixões — é tão-só uma introdução, o delicado prelúdio do mergulho na dor.
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