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O Chato de Cinema

O Chato de Cinema


Na tela, o mocinho com voz galante diz à mocinha que a ama e quer passar o resto da vida com ela. Corte seco. Em poucos segundos surge fora do plano uma voz. É a senhora na poltrona a meu lado, que fala à amiga, com ares de Sherlock: “Você viu? Eles se amam e vão passar a vida juntos”.

A explicação redundante daquilo que todo o cinema pôde perfeitamente perceber me tira do sério. Mando um ‘shhhhhhhhhhh”. Ela não gosta. A amiga pede com jeitinho que conversem mais baixo, como se cinema fosse lugar para conversa. Ao fim, a leve reprimenda se revela inútil. Durante as duas horas de projeção, serei obrigado a ouvir longos comentários sobre cada sequência.

O Chato de Cinema é assim. Não suporta apenas assistir ao que se desenrola no filme. Precisa reiterar em palavras as imagens, dividir com os outros espectadores as tentativas de adivinhar o que vai se suceder, apontamentos pessoais sobre cenário, figurino, diálogos, suas sacadas pretensamente geniais.

Lembro que, na sessão de Somos tão jovens no Cine Odeon, um tipo desses, sentado na fileira atrás de mim, passou quase meia hora explicando à namorada que o Aborto Elétrico foi a banda predecessora da Legião Urbana. A menina, maravilhada com a ilustração do rapaz, perdeu boa parte do filme. Eu, amofinado pela falação, também.

Nos últimos anos, com a disseminação dos smartphones, o Chato de Cinema ganhou uma nova arma. Não satisfeito em palestrar sobre o filme, checa os emails, dá uma olhada no Twitter, comenta posts no Facebook, troca mensagens no WhatsApp. Danem-se os outros, que querem ver o filme no aconchego do escuro, sem ter a atenção desviada pela luz do telefone vizinho.

E se o telefone, que está ligado, tocar? Ora, o Chato de Cinema atende a ligação e entabula uma conversa com o interlocutor. Trata do chope pós sessão, da conta que não foi paga, das compras para o aniversário da Maricota, da crise conjugal.

A característica mais marcante do Chato de Cinema é justamente essa incapacidade de compreender que a sala de projeção não é sua sala de estar. Que a experiência de ver um filme no cinema é compartilhada, imprescinde de respeito mútuo e, fundamentalmente, de silêncio.

“Quando um chato diz: Eu vou embora… Que presença de espírito”, escreveu certa vez Millôr Fernandes. O Chato de Cinema só vai embora quando já era, o filme acabou, perdeu, playboy. Suponho que, como os chatos em geral, ele não tem a menor ideia de seu predicado. E no fundo acha que chatos mesmo somos nós.


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