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Nomes de rua

Nomes de rua


A Rua dos Inválidos, na Lapa carioca, foi aberta em 1791 por ordem do Vice-Rei D. José Luís de Castro, mais conhecido como Conde de Resende. Em seus anos iniciais, era chamada de Rua Nova de S. Lourenço. O nome vinha de um oratório em louvor ao santo de origem italiana que funcionava por ali. O politicamente incorreto “dos Inválidos”, cuja origem é um asilo para soldados idosos ou doentes, só chegou alguns anos depois. E permaneceu porque não resultaram bem sucedidas duas tentativas de mudança: primeiro, para Rua Tomás Coelho; em seguida, para Rua Meneses Viana. Quem informa tudo isso é o historiador Brasil Gérson.

Morei nas ruas Carvalho de Souza, Faro e Almirante Salgado. Também nas avenidas Sernambetiba e São Sebastião (esta, o primeiro logradouro do Rio). Quando fui para a Lapa, adicionei a Rua do Riachuelo à lista – gosto de chamá-la de Mata-Cavalos, como na época de Machado de Assis. Moro na Mata-Cavalos, mas meu apartamento fica virado para a tal Inválidos.

Acredito piamente que nomes são capazes de legar personalidade às ruas. Claro que as palavras carregam significados para além de si mesmas, carreando a história que se fez naquele lugar, mas o nome é parte desse mosaico simbólico. “Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue”, escreveu João do Rio, que garimpava nelas, as ruas, sua literatura.

A Inválidos, eu diria, é uma rua soturna. Como se o nome vazasse para a topografia, em retroalimentação. Essa simbiose às vezes se dá de forma explícita. Está lá, por exemplo, a antiga sede do Instituto Médico Legal, onde os defuntos eram encharcados de produtos químicos na preparação para o velório. Em outros trechos, a conexão é menos óbvia. Pequenos comércios de acrílico ou de móveis usados que parecem fora do tempo, lojas com as portas cerradas e placas anunciando mudança de endereço. Na esquina com a Rua do Senado, a Igreja de Santo Antônio dos Pobres, cuja imagem se reflete na fachada pós-moderna e espelhada do edifício em frente. Um curioso contraponto.

Ficam na Inválidos também o prédio do jornal O Dia e um pé-sujo onde, jura de joelhos meu amigo Caio Barbosa, come-se hoje a melhor rabada com agrião da cidade. Ainda não provei, mas vou conferir.

“A rua faz o indivíduo, nós bem o sentimos”. João do Rio, mais uma vez. Penso se não somos, todos, a mescla das ruas em que habitamos. Uma porção da alma suburbana da Carvalho de Souza, outra da Sernambetiba de águas limpas, vento leste, cheiro de maresia. A história que sobe e desce a ladeira São Sebastião, a paz verde da Faro. Os paralelepípedos silenciosos da Almirante Salgado a esconder os segredos de Laranjeiras, tantos. Na Mata-Cavalos, e no soslaio da Inválidos, a síntese que mistura o cimento, dando a liga para o que virá. Quem sabe?

Mas a via de nome mais bonito nesta cidade fica mesmo é no Morro da Conceição, entre a Sacadura Cabral e a Ladeira João Homem. Desconfio que, se eu morasse na Rua do Jogo da Bola, seria um pouco mais criança.


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