Long plays


O primeiro disco que ganhei na vida foi a trilha-sonora de Vila Sésamo. Não me refiro ao seriado recente, mas à versão brasileira do Sesame Street, que passou na TV Globo entre 1972 e 1977. O programa ia ao ar pela manhã, e eu assistia antes de partir para a escola onde cumpria o Jardim da Infância. Na curta viagem entre Madureira a Marechal Hermes, as histórias de Vila Sésamo dividiam espaço com o rádio do carro do pai e as conversas com André, meu primo, que estudava no mesmo colégio.

Cada personagem tinha uma música na trilha que, viria a descobrir muitos anos depois, contava com a assinatura de Marcos Valle. Meus preferidos eram Garibaldo e Gugu. O primeiro, um pássaro gigante e desengonçado, cheio de curiosidade sobre as coisas da vida. O perfeito oposto de Gugu, que vivia entocado em seu barril, ofertando mau humor a quem com ele dialogasse.

Guardei o LP da Vila Sésamo até me tornar adulto. Não sei onde foi parar. Talvez tenha sido despachado junto com os outros vinis quando os CDs dominaram o mercado e aquelas bolachas negras começaram a parecer peças inevitavelmente fadadas ao desaparecimento.

E minha coleção não era exatamente pequena. Incluía LPs do Chico Buarque, do Gilberto Gil, do Beto Guedes, da Maria Bethânia, e quase todos os álbuns do Caetano — entre eles, Araçá Azul, disco insuportável mas uma raridade na época, o que valia como distinção entre os amigos. Também tinhas discos do BRock: Ultraje a rigor, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana.

Meu favorito era Cinema transcendental, do Caetano. Menos pelas canções, e mais pelo fato de ter sido o primeiro LP “adulto”. Sim, com os vinis mantínhamos essa relação meio fetichista, o objeto certas vezes transcendia o conteúdo. Eram os casos de Cinema transcendental, pela precedência, e de Araçá Azul, que estava lá na estante, embora eu nunca ouvisse.

Há cerca de um ano, comprei uma vitrola. Um modelo contemporâneo, portátil, que roda discos de 33 e 78 rotações. Quando a encomenda chegou, bateu o arrependimento por ter passado para frente meus LPs. Não tinha sequer como testar o aparelho. Rodei por alguns sebos que vendem vinis até descobrir os sites especializados, nos quais você pesquisa rapidamente e encontra cada disco cuja existência nunca poderia imaginar.

Hoje tenho uma discoteca razoável, mas bastante concentrada. A maior parte é de LPs antigos, bem antigos. Alaide Costa, Elizeth Cardoso, Ari Barroso, Marília Barbosa, Silvio Caldas. Artistas pré-bossa nova. Ou da “seresta”, como dizia meu pai. Dia desses consegui um 78 rotações de Carmen Miranda. Ela canta Adeus batucada, do Sinval Silva.

Ao reviver a experiência, percebi que escutar um LP na vitrola não tem nada a ver com ouvir um CD. Não falo da nostalgia do chiado que arranha (e humaniza) o som pré digital, da variação de timbres. É uma questão de tempo mesmo. Há o ritual de se tirar o LP da capa, do plástico que o recobre, colocá-lo no aparelho, trazer com cuidado a paleta da agulha até o ponto certo, para que a música enfim comece.

O vinil não aceita ser mero pano de fundo. Pede atenção, inclusive para trocar o lado. E silêncio, esse artigo cada vez mais insólito.


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