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Flores de inverno

Flores de inverno


… e então você, ao me ver aqui, sentado sobre a poltrona, nesta sala onde apenas uma luminária faz contraponto à escuridão, repetindo que enfim descobri que embora não tenhamos consciência há uma queda por detrás de todo horizonte, vem e me fala que existem flores que só dão no inverno, e nesses dias que andam um pouco mais frios do que o habitual na indefinição de estações do Rio não é sinal de que também estou invernando, sob a luz esguia da tarde que vem do leste, sob o vento que sopra do mar em direção à terra, vento estranho ao litoral, fazendo a cidade renegar a vocação mais óbvia e nos deixando meio sem saber o que fazer, se abre aquela garrafa de vinho que ganhou no aniversário e dorme há tanto tempo no armário, se espanta o mofo dos casacos de lã guardados no gavetão, se simplesmente resolve ficar em casa, sob o cobertor, sem coragem para enfrentar a brisa gélida que bate no rosto de quem se atreve a passear à beira-mar, com medo de sem querer respingar uma gota que seja da água do mar em nosso rosto, ou nas costas, sobra de uma onda revolta, desenhando espinha abaixo um caminho de geada, ou ainda penetrando corpo adentro, a lembrar que somos esponjas, absorvendo e eliminando sentimentos situações sujeiras, imundícies como a que enche os sacos dispostos pelo corredor quando começo a escutar a vizinha do 204 reclamando “quem é o porco que deixou estes sacos aqui”, “só tem animal nesse prédio”, “síndico de merda”, e longe, muito longe de saber, ou de querer saber que os sacos azuis espalhados pelo hall significam tão pouco se ignoramos quem será capaz de lacrar o saco de lixo do mundo, eu a debruçar minha atenção sobre dilemas como esse, tentando despertar os lobos que se espreitam na matilha do meu corpo de homem subindo os degraus da velhice, mas de alguma forma preso a uma tábua de valores e ideias e ruminações que, estabelecida em algum momento, não parece ter mudado, tornando-me um náufrago de saudades, um insistente pedinte de que o feio se transfigure em beleza, ainda que por momento breve, para sustentar alguma leveza nesta sala que traz em si o peso do excesso, para tentar tramar planos infalíveis, impraticáveis, chamar com urgência à fala os acenos e as sombras que prometem de novo o que se foi, procurando antes efeitos que causas concretas, e contudo a palavra se negando a pronunciar, e somente as mãos sugerindo o que no lábio ainda é segredo na minha boca repleta de amarras costuradas pelo tempo com suas agulhas traiçoeiras (você não ouve mais o som rascante das cigarras que como trovoadas anunciam a chuva), pois saiba que no sótão do navio incerto da afeição quem invoca sentimentos vis nem por isso estará enterrado para sempre na cova rasa da vilania, que todo dia é um dia roubado da morte, já dizia Clarice, e é melhor, pois, manter a janela entreaberta, a fim de que pelo espaço dado, assustado, eu possa assistir a tudo como o menino que vê o sol se afogar no oceano, voyeur de meus pares, desse globo ensandecido e imenso, nem que seja para tentar encontrar em algum canto, sob um monte de papel, um saco de lixo qualquer, um jornal velho, uma colmeia, um arbusto, escondidas, espremidas, esquecidas, as tais flores que dão no inverno, pois ainda não as vi, mas sei que existem.


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