READING

Elas, as ruas, ainda

Elas, as ruas, ainda


A crônica da semana passada teve como tema as ruas da cidade, buscando espelhamentos entre seus nomes e a forma como se mostram à vera, no amálgama de asfalto, arquitetura e existências humanas. Assim que terminou de ler, meu amigo Henrique Rodrigues comentou que as ruas às vezes são também proféticas. Referia-se ao período, curto mas intenso, em que morou na Rua do Escritor. Hoje autor de oito livros, ele naquele tempo ainda não exercia o ofício.

Nem sabia que no Rio há uma Rua do Escritor. Fica na Taquara, próximo à Estrada do Tindiba. É uma via pequena e típica do subúrbio carioca, com casas de dois andares, muros baixos, quintal. Começa na Avenida do Industriário e termina na Rua do Novelista. Segundo os moradores, os nomes que referenciam profissões — há ainda a Rua do Comerciário, a Rua do Radialista, a Rua do Locutor, estas formando esquina — foram criados pelos portugueses que viviam na região.

É de fato uma tradição portuguesa batizar as ruas com alusões literais a características de quem ali morou, ou a marcos locais. A Rua do Jogo da Bola, que mencionei na crônica anterior, é filha direta disso e mostra como o Morro da Conceição, no Centro do Rio, ainda guarda forte herança lusa, tanto nas construções quanto nos costumes.

O Morro tem um de seus acessos no Largo de São Francisco da Prainha, onde o bloco Escravos da Mauá se concentra antes do desfile e estão situados o Angu do Gomes, a Academia de Boxe Santa Rosa, a Casa Porto. Ali havia realmente uma praia, que permanece apenas na placa, como se sugerisse que nomes são igualmente a lembrança do que foi, ossos da memória.

Também próximo, basta percorrer a Rua Acre, fica o Largo de Santa Rita, que testemunhou episódio curiosíssimo no século 18. Um comerciante português foi posto para correr pelos moradores porque tentara, em conluio com o sacristão e o sineiro, enterrar no sagrado chão da igreja seu macaco de estimação, de quem cuidava como filho. A igreja em questão era a de Santa Rita de Cássia e ninguém – nem o historiador Brasil Gérson, que registrou o caso – sabe que fim levou o corpo do símio.

Fechado o parêntese, é possível voltar pela própria Acre para a Rua do Jogo da Bola. Como o próprio nome sugere, no começo do século passado muitas pessoas costumavam se reunir lá para brincar de um jogo que ainda não o futebol, embora envolvesse uma pelota. Dizem alguns moradores mais antigos do Morro da Conceição que os jogadores eram os escravos, a experimentar um pouco de lazer no intervalo da pesadíssima rotina de trabalho. Outros especulam que a bola, na verdade, respondia pelas esferas de metal presas às pernas dos negros aprisionados.

Se restasse confirmada a lenda de que na Rua do Jogo da Bola havia um tesouro enterrado, o nome da via hoje talvez fosse outro. Esse tesouro, relatam os pesquisadores, teria sido descoberto pelo capitão do Regimento de Pardos, Alexandre Dias de Resende, o que explicaria a súbita fortuna arregimentada pelo militar. Histórias que se contam, e se cruzam.

E não me surpreenderia se a Rua do Jogo da Bola estivesse não no Rio, mas em Lisboa, onde numa caminhada podemos nos deparar com o Beco do Pocinho, o Pátio dos Albergues das Crianças Abandonadas, a Vila do Penteado. Ou, ainda, com a Rua da Triste e Feia, que deve o nome à senhora que ao crepúsculo do dia sentava-se à beira da calçada para flagrar, no movimento dos passantes, o contraste de sua aguda solidão.

Da Taquara ao Porto do Rio, do Porto do Rio à Lisboa, entre imigrantes, capitães, escravos, escritores, lutadores, fiéis, foliões e jogadores de bola, há mesmo (e sempre) alguém que espera. E também aqueles que, por oposto, preferem transitar pelas ruas, desbravá-las como a um mapa de desenho embaçado, quase ilegível. Ainda que, como o cronista no presente texto, corram o risco de se perder nelas.


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *