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E lá se foram dez anos

E lá se foram dez anos


O Flávio Izhaki, que havia colocado o ponto final em um conto ambientado no Catete, me veio com a proposta de fazermos, a quatro mãos, uma edição especial do Paralelos sobre bairros do Rio de Janeiro. O Paralelos foi um site referencial, nos anos 00, para a geração que então começava a escrever. Volta e meia criava números especiais, com textos ficcionais, resenhas e entrevistas sobre um mesmo tema.

Gostei da ideia. Já em casa, pensei que o projeto poderia ser mais ousado: um livro. Que trouxesse histórias passadas em diferentes cantos da cidade, de acordo com a concepção original, mas servisse também como mapeamento dos autores que começavam a se destacar naquele momento. Autores nascidos ou radicados no Rio.

Foi essa a sugestão que nós dois levamos à Casa da Palavra, e a editora Martha Ribas prontamente aceitou. A antologia Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio nasceria poucos meses depois, em lançamento na Livraria da Travessa de Ipanema que completa exatos dez anos na próxima segunda-feira, dia 15 de setembro.

Na noite de autógrafos, boa parte dos 17 autores rabiscava sua primeira dedicatória. Talvez seja difícil imaginar hoje, quando as possibilidades de publicação são tão maiores, o feito que significava para nós conseguir lançar aquele livro.

“O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”, diz a epígrafe da antologia. A frase, de Marques Rebello, foi escolhida após duas ou três cervejas e vários telefonemas trocados entre mim e Flávio. Sintetizava precisamente o livro. Queríamos falar dos bairros com seus universos próprios, dos muitos Rios de Janeiro que moram dentro do Rio de Janeiro. Todas as cidades, a cidade, como escreveu Cortázar.

Ao olhar as fotos de divulgação do Prosas cariocas, todos mais magros, mais jovens, bate a saudade de um tempo na qual as escaramuças da vida literária ainda não haviam fincado suas bases sobre nós. Paralelamente, viceja uma alegria. Perceber que a maioria dos autores que integram a antologia levou à frente seus trabalhos.

Flávio, que nessa década me ajudou a compreender tantas vezes os significados da palavra amigo, investe em seu terceiro livro. À época já mais conhecidos, Adriana Lisboa e João Paulo Cuenca consolidaram-se como nomes importantes da ficção brasileira contemporânea. Henrique Rodrigues publicou seus poemas, enveredou pela literatura infantil e prepara o primeiro romance. Juva Batella, Mariel Reis e Vinicius Jatobá também continuam dando tratos à bola, com narrativas longas e contos. Assim como Cecilia Giannetti, Antonia Pelegrino, Mara Coradello e Ana Beatriz Guerra.

Outros autores, embora não tenham insistido na ficção, permanecem próximos ao mundo do livro. Nesses dez anos, Miguel Conde foi repórter de cultura e curador da Flip. Hoje, a exemplo do Sidney Silveira, é editor. Bianca Ramoneda manteve suas relações com o teatro e virou apresentadora de TV. Marcelo Alves dá aulas de literatura. Só mesmo o Augusto Sales, ele que idealizou o site Paralelos, parece ter se mantido longe das letras.

Naquele 2004, quase todo mundo tinha blog e mais cabelo. Lembro que, a caminho da primeira reunião na Casa da Palavra, engarrafado na Rua Mem de Sá, fotografei de dentro do carro o bondinho passando sobre os Arcos da Lapa. O sol se punha ao fundo, no dourado adormecido do fim da tarde. Lembro que pensei alguma coisa bonita sobre o futuro. Mas o trânsito logo andou. E chegamos aqui.


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