Da arte do fracasso


Escalado para cobrir a chegada da Seleção Brasileira ao Aeroporto do Galeão, o repórter simplesmente não aparece. Havia bebido umas e outras na noite anterior, que se estendeu pela madrugada e na sequência embalou um sono profundo, irremediável. Ao acordar, ainda atônito, mão rápida no telefonema para o editor e o vaticínio: “Fracassei”.

A frase se tornaria clássica no meio jornalístico carioca. Fulano marca um chope e não pinta? “Fracassei”, justifica. Sicrano promete a esticada pós-festa, mas sucumbe ao cansaço? “Fracassei”.

O cronista é o repórter que precisa ir ao aeroporto registrar a chegada da Seleção, ou outro assunto qualquer, uma vez por semana, quando não mais. Só que, em certas ocasiões, o tema escapa. O mundo tão cheio de novidades, e tragédias, e belezas, parece opaco. Tem gente que chama de falta de inspiração.

Raros são os cronistas que nunca escreveram exatamente sobre isso. Desafiados pela folha em branco a quem costumam vencer por goleada, a perna treme, o gol parece pequeno demais e o goleiro, imenso. Numa inversão do título do romance de Peter Handke: é o medo do centroavante diante do pênalti.

As saídas variam. Tem aquele que dispõe pequenos parágrafos em série, comentando diferentes assuntos até formar um todo. Com boa vontade, dá para chamar de crônica. Outros preferem discorrer sobre o próprio bloqueio criativo, em geral fazendo graça com si mesmo. Um golzinho solitário basta.

Há ainda o cronista que parece brilhar mais quão mais rarefeito seja o objeto do texto. Sim, refiro-me a Rubem Braga. “Braga é sempre bom, e quando não tem assunto então é ótimo”, observou Manuel Bandeira, ele que tão bem soube fisgar o ouro das miudezas.

“Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever! Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer”, justificou o próprio Braga no texto Ao respeitável público, de 1934.

Nos parágrafos seguintes, o cronista confessa o desejo sagrado de mandar todos às favas, sem delicadeza nenhuma. E roga: “Queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna”. Não chego a pedir o mesmo, caro leitor. Peço apenas compreensão. Digamos que o telefone tocou, você atendeu e me ouviu dizer do outro lado da linha, um tanto encabulado: “Fracassei”.


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