Cosme e Damião


As caixas chegavam, uma após a outra, pela longa escada que dava acesso ao sobrado. Fechadas em papelão bege, só serviam à adivinhação. Em qual delas estaria o suspiro? A cocada? As maria-moles?

Aos poucos, revelações. Que apontavam para os doces de sempre e no entanto alegravam pelo reencontro tão esperado, fazendo jorrar cor no quarto opaco da tia Aurora. Guloseimas de um lado. Do outro, saquinhos brancos com a imagem de São Cosme e São Damião desenhada em verde e vermelho. Um mundo a se organizar a partir desses dois pedaços de infância, tão complementares.

A experiência de encher os saquinhos era talvez tão boa quanto flanar com os primos e amigos pelas ruas do bairro, atento aos carros que poderiam de repente brecar, abrir as portas e oferecer o que há de mais desejado para uma criança no 27 de setembro: doces de Cosme e Damião.

Algumas pessoas preferiam fazer a festa em suas próprias casas, abdicando dos saquinhos e estendendo os doces na mesa da sala. O “Cosme e Damião de mesa”, assim chamávamos. Mas a gente não gostava tanto. Na mesa, tudo estava por demais dado, já não havia a surpresa de abrir o saquinho, a tentativa de ainda por um ínfimo profetizar o conteúdo e imaginar o mel do melhor: o desejado coco-de-rato, o não tão comum doce de batata doce, e ainda mais raro caramelo Zorro.

Quando eu morava em Madureira, sair atrás de doces era uma consequência natural do dia de Cosme e Damião. Rodávamos desde a manhã e, no fim do dia, despejávamos tudo o que foi arrecadado numa bacia, comparando o montante que cada um conseguiu. Então se iniciava outro ritual: as trocas.

Eu oferecia maria-mole por doce-de-abóbora. Um chocolate valia dois doces mais ordinários, como aquelas gelatinas de duas cores. Coco-de-rato nunca entrava em negociação.

Um dia me mudei para a Barra com meus pais, depois para a Zona Sul, e foi como se essa tradição desaparecesse. As ruas, no dia 27 de setembro, eram apenas as ruas, com sua incessante monotonia. Às vezes, um parente lembrava de nós e mandava um saquinho de doce. O que não era igual, nem brincando, às nossas expedições.

Nunca entendi muito bem por que o costume de distribuir doce, seja por pagamento de promessa ou mera praxe familiar, com o passar dos anos ficou restrita ao subúrbio da cidade. Em Cascadura, Marechal Hermes, no Engenho de Dentro, em Piedade ou na já mencionada Madureira, ainda se pode ver meninos e meninas cruzando as ruas, bolsas plásticas imensas nas mãos, em busca dos saquinhos.

O hábito persiste mesmo com a marcação rígida de algumas igrejas evangélicas, que tentam impedir seus fiéis de distribuir, ou mesmo pegar, doces. O motivo da resistência é a vinculação dos santos com o Candomblé e a Umbanda: nas duas religiões, Cosme e Damião são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de, em troca de guloseimas, agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito.

Meu pai, que nunca foi da curimba, mantinha uma pequena estátua deles na sua loja. Num “Cosme e Damião de Mesa” em que estive certa vez, a manicure de minha mãe recebeu santo e começou a falar que nem criança. Eis o tal sincretismo, nossa riqueza, ainda mais bonita quando a gente vê a meninada fazendo algazarra sem se preocupar com o futuro que aguarda logo à frente, sem saber das tantas pessoas queridas que irão embora e não voltarão, e então a gente lembra que correu por aquelas mesmas vias, com a mesma ânsia, a mesma a pressa sem motivo para quem ainda tem tempo, muito tempo.


  1. Luciana Vittori

    27 setembro

    Adorei e me vi menina numa infância regada a pirulitos de Cosme e Damião quando ouvíamos os amigos falarem que precisavam de dois saquinhos pros irmãos.
    Grata por sua máquina do tempo em forma de literatura!

  2. Hélio José Lima Penna

    27 setembro

    Linda crônica. Imediata identificação para mim que nasci em Terra Nova/Pilares e corri atrás dos doces de São Cosme e Damião. Sua crônica é puro realismo e emoção. Parece um filme que se passa diante dos nossos olhos. Parabéns.
    Hélio Penna.

  3. Cristina Albuquerque

    28 setembro

    Adorei sua crônica,me vi correndo pelas ruas de madureira com sua irmã Lílian Moutinho.

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