Casa vazia


A gata, de um lado para o outro. Na hora de sempre, posta-se à frente da porta e espera, espera, espera. Nada. A chave não gira após o miado insistente. Resignada, ela volta ao quarto, salta sobre a cama e se aninha ao lado do travesseiro. O cheiro no lugar do dono, uma presença em aroma de suor seco. 

O silêncio toma o ar, pesa sobre os cômodos: sala, cozinha, banheiro, quarto, varanda. Fora, os ruídos de sempre. A sinaleira sonora indicando os automóveis que saem do estacionamento. O bate-estaca da obra. Buzinas apressadas; às vezes o carro de som, um grito qualquer.

Na casa vazia, há algo de alheio. As mesmas estantes, os mesmos livros, os mesmos quadros, o mesmo sofá, que na solidão são outros. Um cenário imóvel onde a gata desenha pequenos movimentos. Vai até o pote de comida, bebe água, usa a caixa de areia. Volta a dormir. Acorda. Volta a dormir. Acorda. Volta a dormir.

A casa vazia é o inventário sem serventia de quem nela mora. Os jornais se acumulam na entrada, trazendo notícias do mundo para ninguém ler. As lombadas dos livros anunciam os títulos como se rogassem atenção. A energia sai das tomadas, alimenta a geladeira, o aparelho de som, a TV. É inútil.

Talvez as casas também sintam saudade.

Nos borrões negros que aos poucos vão cobrindo suas cascas, as bananas na fruteira falam do tempo que passa. A gata não conhece o tempo. Vive, simplesmente.

Por um segundo, o estalo da madeira fria do armário quebra a mudez, mas tudo logo se cala de novo. As plantas, na varanda, reclamam sua sede nas folhas amareladas. No guarda-roupa fechado há tantos dias, camisas, calças e meias pedem uma réstia de ar. Os objetos, todos, querendo uso. Suplicam pelo bafejo capaz de espalhar umidade e ternura sobre as coisas. E a gata recomeça a miar, à espera da atenção que não vem.

Amanhã, quem sabe, vai dar sol. Pode chover também, tanto faz. À noite, o breu amplifica o silêncio. Não há quem acenda a luz, não há quem tropece, não há quem esbarre no pé de uma cristaleira. Não há sobressaltos, nem quedas. Dizem que os gatos enxergam no escuro.

“As casas encontram seu inocente jeito de durar”. Um verso de Herberto Helder, de súbito. Durar além de nós, e da gata, no abandono que é também esperança, na expectativa perene da volta.

Como se adivinhasse o futuro, a casa vazia ecoa a morte.


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