O suicídio de Robin Willians me causou espanto. Embora desconfie que todo humorista é, no fundo, um triste, desconhecia os problemas do ator com a depressão e as drogas. A notícia da morte fez lembrar um de meus filmes preferidos entre os protagonizados pelo ator, o esquecido “Moscou em Nova York”, de Paul Mazursky. E, claro, de “Sociedade dos poetas mortos”, marco de uma geração, no qual o professor vivido por Willians recorria à frase de Horácio para decretar: “Carpe diem”.
No século 19, Durkhein categorizou o suicídio conforme a relação entre aquele que se mata e a sociedade. No suicídio egoísta, os elementos motivadores seriam a falta de integração com seus pares e a inexistência aparente de razões para se tocar a vida em frente. No altruísta, por oposto, as fortíssimas conexões entre indivíduo e meio social acabariam por determinar a opção pelo fim. O suicida anômico agiria movido por desestabilização repentina mas capaz de embaçar seu espaço na coletividade.
O sociólogo já esboçava a tese que ganharia força sobretudo com o romance Werther, de Goethe: a da possibilidade de ‘contágio’. Após sua publicação, em 1774, a Europa enfrentou uma onda de suicídios por parte de jovens que se identificaram com a história de amor não correspondido vivida pelo protagonista do livro.
A premissa de que é melhor não falar do assunto serviu historicamente de norte para o jornalismo, embora seja criticada aqui e ali. Em livro sobre o tema, Arthur Dapieve questiona se o silêncio contribuiria de fato para evitar novas mortes. Para ele, “mais que ser determinante do modo como os leitores encaram o suicídio, a imprensa é, sim, determinada pela visão que os leitores têm da morte voluntária. A imprensa se colocaria não como vetor do ‘contágio’, mas como instância social solidária ao tabu que suplanta”. Assim, a espécie de ‘recalque’ que cobre o assunto com véu turvo catalizaria um mal-estar que é da própria sociedade. Efeito-reflexo, portanto.
Recordemos o caso do escritor Pedro Nava. No dia 13 de maio de 1984, ele atirou na própria cabeça. Poucos minutos antes, recebera um telefonema, que, segundo a esposa, o deixou desconcertado. Nava saiu de casa com a arma e rumou para o bairro da Glória, onde consumou o suicídio. De pronto, a imprensa começou a receber denúncias de que o escritor havia sido chantageado por um garoto de programa, com quem se relacionaria em segredo. Após exaustivos debates internos, os jornais optaram por não levar adiante as investigações sobre a revelação.
O caso de Pedro Nava, com imbricações entre as esferas pública e privada, está no entanto inscrito na era pré redes sociais. Seja relevante ou não, o silêncio sobre o suicídio hoje é difícil, quiçá impossível. E a imprensa terá que repensar a tese do silêncio.
“Fazer a apologia do suicídio é tão inútil quanto fazer a apologia da vida”, escreveu Dapieve. Volto a lembrar o ‘carpe diem’ do professor de “Sociedade dos poetas mortos”. Como observou Albert Camus, ele que vislumbrava no suicídio “o único problema filosófico verdadeiramente sério”, talvez valha mesmo supor que ao rolar a pedra montanha acima, para em seguida vê-la descer, e então reiniciar a subida, Sísifo seja feliz.
NO COMMENT