Acompanhei de perto o processo de revitalização da Lapa, que começou com casas como o bar-antiquário Coisa da Antiga (conhecido entre os frequentadores como “Lavradio 100”) e o Semente, onde Teresa Cristina deu seus primeiros passos como cantora. Nessa época – e falo do começo dos anos 1990 -, quem chegava ao bairro das quatro letras (ave, Herivelto Martins) ainda encontrava ruas praticamente vazias, onde prostitutas e travestis ganhavam o suado dinheiro sem ter que dividir a calçada com centenas de pessoas.
Pois bem. Se, com a revitalização, as prostitutas e os travestis mudaram-se para a vizinha Glória ou imiscuíram-se nas vielas mais escondidas, bares como o Brasil, o Nova Capela e o Cosmopolita permaneceram lá. Mas perdendo feio para a concorrência recém-chegada.
Os três, na verdade, são o elemento de interseção entre a era de ouro da Lapa, nas década de 1930 e 1940, e o tempo de hoje. O Bar Brasil foi fundado em 1908, com o nome de Zepellin, trocado somente na Segunda Guerra. O Nova Capela nasceu em 1923, ainda sem o adjetivo que o rejuvenesceria. O Cosmopolita deu o ar da graça três anos depois. Todos, portanto, experimentaram o auge e a decadência do bairro. E têm história para contar.
Os 105 anos do Bar Brasil, que conserva um ancestral refrigerador de madeira e a linda chopeira torneada em bronze, falam por si. No Capela, foi inventada a batata “à francesa”. Contam os antigos: um cliente assíduo, que veio da França, pedia sempre que seu filé saísse com uma guarnição combinando batata palha, presunto picado e petit pois. “Um filé do francês”, pedia o garçom à cozinha. Deu no que deu.
No Cosmopolita – que já foi conhecido como “Senadinho”, tal a quantidade de políticos que ocupavam suas mesas – nasceu outro prato hoje célebre: o filé à Oswaldo Aranha. Tudo por causa do próprio, que gostava de comer um bife alto coberto de alho, acompanhado de arroz branco, farofa e batata portuguesa.
Hoje morador do bairro, sinto tristeza ao ver que os três tradicionais bares capitularam à praga contemporânea da instalação de TVs, e andam vazios se comparados à geração mais recente. Uma geração de simulacros, de botecos que imitam botecos, empastelados na pouca originalidade.
E o esvaziamento não se dá por falta de qualidade. O Bar Brasil tem, de longe, o melhor chope da Lapa, e uma ótima cozinha alemã, na qual destaco o Apfel Strudel com creme feito na própria casa.
O Capela se empolgou com a (merecida) fama e aumentou seus preços, espantando fregueses antigos, sem conquistar novos. Mas a cozinha continua competente, seja no clássico cabrito com arroz de brócolis, seja em pratos “caseiros”, como a jardineira de legumes e a carne assada com espaguete.
Só mesmo o Cosmopolita parece ter jogado a toalha. Em visita de poucos meses atrás, o amigo Eduardo Goldenberg fez um relato deprimente. Encontrou o restaurante às moscas. Os garçons preferiam assistir à reprise da novela a servir os clientes. “A antiguidade, que era charme, virou decadência”, comentou o Edu. Nem o chope manteve o bom padrão de outrora.
“Os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem”, escreveu o cronista Paulo Mendes Campos, que dizia: “O bom freguês só ama o bar que se foi”.
O Bar Brasil, o Nova Capela e o Cosmopolita ainda não se foram, felizmente. Mas são resquícios de uma cidade que, esta sim, aos poucos se vai.
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