Clube que relevou ao mundo jogadores míticos, como Garrincha e Nilton Santos, o Botafogo viveu nas décadas de 1970 e 1980 um longo jejum de títulos. Foram 21 anos sem conquistar campeonatos, nem mesmo em âmbito regional. As torcidas dos rivais não perdoavam: a cada eliminação, faziam soar nas arquibancadas um irônico “Parabéns a você”, festejando o novo aniversário sem taça.
Não era fácil ser botafoguense nessa época. Muito menos convencer uma criança a torcer pelo Botafogo. Meu pai sempre contava a história de um amigo que, apavorado com a possibilidade de o filho apartar-se da linhagem alvinegra da família, ligava a TV nos jogos do Atlético-MG, então em ótima fase. A transmissão sem som e a camisa semelhante, com listras brancas e pretas, criavam as condições para que ele pudesse garantir ao garoto que aquele timaço era, sim, o Botafogo, o clube deles, o maioral. Às favas com a ética quando a questão é de honra.
Meu pai, também botafoguense, não tentou qualquer drible nos fatos. Era cintura dura, o velho. E o resultado foi que me tornei tricolor. Mais: não satisfeito, obrigava-o a me levar aos jogos do Fluminense e testemunhar todo o desenvolvimento da paixão, um processo que se sedimenta qual cimento de arquibancada.
A eleição de um time que não o do pai é a primeira traição do homem, uma espécie de pecado original. Talvez seja também o primeiro grito de autonomia. De qualquer forma, configura ato imperdoável aos olhos daquele que trocou nossas fraldas.
Por isso, a luta para evitar o desvio se inicia cedo. Ainda somos bebês e já nos fantasiam com camisas de times de futebol. Quando pai e mãe torcem para equipes diferentes, então, podemos dizer que a disputa começa literalmente no berço. E sempre há aquele tio, malicioso, que tenta emplacar seu clube por meio de um presentinho inocente. As fotografias com camisas rivais serão o constrangedor flagrante a nos perseguir pela eternidade.
Minha definição foi simples: não iria optar pelo Botafogo, já que não parecia promissor torcer para um time que não ganhava títulos. Flamengo e Vasco, os dois outros clubes grandes do Rio, tampouco me eram simpáticos. Restou o Fluminense. A escolha precedeu a paixão, e não há como precisar quando as duas coisas se amalgamaram, perdendo as fronteiras.
Gabriel García Márquez, muito provavelmente por só ter se tornado torcedor aos 23 anos, já adulto formado, conseguiu fixar esse átimo no qual nasce o afeto por um time. “O primeiro instante de lucidez em que me dei conta de que tinha virado um torcedor intempestivo foi quando percebi que durante toda a minha vida eu tive algo do qual sempre me orgulhei e que agora me incomodava: o senso do ridículo”, escreveu ele, em texto lembrado dia desses pelo Xico Sá.
Talvez torcer, sejamos pais ou filhos, fiéis ou traidores, signifique isso mesmo. Evocar o ridículo que há em todos nós. Já não importa a camisa que vestimos.
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