Os amanhãs

Sutis pinceladas sobre o vazio da existiencia

Pentimento é o termo utilizado para designar o aparecimento, numa pintura, de desenhos feitos antes do traço final do artista. Esboços primários, que acabaram escondidos sob a mão definitiva e dos quais por vezes nem o próprio pintor recorda-se mais. Trazendo a expressão da esfera da arte para os domínios tão ou mais complexos da vida, é uma espécie de pentimento o que ocorre com Pierre, o protagonista do notável romance de estréia do franco-argelino Hafid Aggoune. Lançado pela Rocco, Os amanhãs erige-se nas lembranças fluidas desse atormentado personagem, que, após hibernar por quase meio século em um asilo para doentes mentais, enfim reencontra-se consigo mesmo.
Tal reencontro acontece quando já soma 76 anos de idade e irá concluir que é um indivíduo sem época, um ”velho sem velhice”. Talvez inconscientemente, Pierre seguira por décadas a máxima de Blanchot que serve de epígrafe ao livro: ”Quando o homem viveu o inesquecível, ele se fecha em si mesmo para lembrá-lo ou vagueia para encontrá-lo”. Assim se deu. Desde que vira Margot, a grande paixão da juventude, ser levada para um campo de concentração nazista, Pierre mergulhou numa treva branca que conjugava o completo esquecimento do passado às tardes solitárias no jardim principal do hospício. Ali, sempre sentado no mesmo banco, ele esperou dia após dia por um trem que evidentemente nunca chegou, enquanto observava outro interno pintando quadros imaginários no ar. A exemplo desse pintor, Pierre procurava formas na invisibilidade. ”Minha vida era aquela pintura aprisionada dentro de um espírito e aquela mão que se agitava em vão”, anota ele em certa passagem.
No breve e pungente relato existencialista de Aggoune, há evidentes ecos da obra de Camus, cuja presença ganha ainda mais realce com a citação explícita ao clássico O estrangeiro. A narrativa é cerzida em frases curtas e esgarça o lirismo até os limites do meramente piegas, valendo-se de constantes saltos temporais e de uma não-linearidade que ajuda a espelhar a confusão mental do protagonista, tornando o leitor solidário a ele. Os fiapos da memória de Pierre são distendidos pouco a pouco, permitindo que sua vida se reaproxime ”como os nacos que o amor e a dor arrancam dos corpos fossilizados pela erosão duradoura da melancolia”. As imagens que surgem a partir da cisão com a realidade, detonada pela partida de Margot, misturam-se a recordações mais pretéritas: a infância na Argélia, a figura forte da bisavó, a chegada a Paris… São aparições dolorosas, ”quase queimaduras”, que ele começa a timidamente registrar num diário.
Esse diário, no qual ”cada letra é um sol negro cavado na luz”, confunde-se com o próprio romance e representa para o protagonista a possibilidade de ”novamente nomear”, escrevendo ”o que não soube gritar”, unindo novamente imagem e palavra. É um livro cujos sussurros ele ouve, e que ”se escreve” praticamente sozinho, por meio de partículas da existência que reaparecem em múltiplos pedaços de memória. ”Era preciso uma nova pele, que a antiga fosse no turbilhão; era preciso um renascimento para essa vida reencontrada, embora queimada e ferida de tanto vegetar, para aquele corpo sadio do limbo há algumas horas”, admite o protagonista, logo após sair de seu demorado exílio interior. Quando então pode se ”reconhecer” e afirmar: ”Eu me chamo Pierre Argan”.
Trata-se do mesmo Pierre Argan que, à beira dos oitenta, garante ter também 17, 12 ou dois anos, num amálgama de tempos que se justifica se compreendemos, tal qual o personagem, que as raízes do passado estarão sempre e paradoxalmente entranhadas no amanhã.
Ou n’ Os amanhãs, como enuncia o título do romance em referência a uma tela da pintora Margot, e que em essência amplia as possibilidades futuras, a esperança de se vislumbrarem espantos onde ”não há nada”. Pois se tudo no mundo resume-se a esse imenso vazio que as aspas sugerem, ao menos ”é preciso aprender a preenchê-lo com vida”, como percebe e anuncia ao leitor, em epifania, o próprio Pierre.

 
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)


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