[Dentro de] um livro

Quando ler à aventura de vida

A literatura, no fundo, é narcisa. Livros se comprazem em falar de seus pares, e escritores amam escrever sobre aqueles a quem sobretudo amam: os livros. Cada qual a seu modo. Clarice Lispector travestiu-se de menina para revelar, em “Felicidade clandestina”, que um romance pode transformar-se em objeto de desejo e inaugurar uma relação estranhamente erótica entre o leitor e a escritura. Borges comparou o universo a uma imensa biblioteca, onde haveria um espelho que representa e promete ao homem “o eterno”. Chegando ao paroxismo, Elias Canetti imaginou a figura de Peter Kien, protagonista do extraordinário “Auto-de-fé”, que de tão mergulhado em suas leituras desaprendeu a vida.
Explorar essa relação simbiótica — e já clássica da literatura — é o que pretende a coletânea “[Dentro de] um livro”, recém-lançada pela Casa da Palavra. A seleta reúne 16 autores brasileiros contemporâneos, de nomes consagrados — como Lygia Fagundes Telles e Luis Fernando Verissimo — a escritores cuja obra ainda se sedimenta, casos de João Paulo Cuenca e Marcelino Freire. Faz companhia a eles Gonçalo M. Tavares, expoente da nova literatura portuguesa.
O tema em comum confere organicidade à obra que, como toda compilação de vários autores, caracteriza-se pelos altos e baixos. A irregularidade não impede, porém, que ofereça ao leitor um instigante panorama sobre as múltiplas facetas da bibliofilia. Com destaque para um viés: a perspectiva da literatura como escudo de um mundo que aparentemente refuta. Tal traço aparece já no conto que abre o livro — o ótimo “Verde lagarto amarelo”, de Lygia Fagundes Telles —, através do personagem que busca na escrita o remanso para suas frustrações. Em “Tantas pernas”, de Raimundo Carrero, é o garoto escondido sob a mesa, onde “protege-se da própria solidão”, que descobrirá um livro. Enamorado pelas palavras que sequer pode compreender, ele as acaricia, e os suaves toques de suas mãos sobre as páginas encetam um vínculo que perdurará.
O sentimento é análogo em “Nomes”. A tentativa de Heloísa Seixas de erigir um tributo à narrativa fabular, no entanto e infelizmente, esvai-se em literalidades demasiadas. Falta ao conto aquela que foi seiva da obra dos homenageados Hans Christian Andersen, James Barrie e Lewis Carrol: imaginação. Aliás, esse hiato entre idéia e realização, presente no texto de Heloísa, se repetirá em outras das narrativas. Como “Abjeto abjeato”, no qual a boa premissa desenhada por Cardoso — o livro que ganha asas — é prejudicada pelo uso gratuito de expressões em caixa alta, assonâncias vazias e trocadilhos sem significado. A aparente tentativa de chancelar uma “singularidade” que o distinga atrapalha a fluência de um relato que dispensa tais expedientes.
Os contos dos incensados Marcelino Freire e Fernando Bonassi também estão longe de ratificar o nome que conquistaram. Se em “Chá” Marcelino não consegue ultrapassar a musicalidade cada vez mais patente em seus trabalhos, “Texto para leitura”, de Bonassi, parece um escrito apressado. Os demais autores preferiram concentrar-se em aspectos mais particulares da bibliofilia. Com “Estética”, Antonia Pellegrino acena para o vínculo absolutamente peculiar que leitores desenvolvem com os livros que elegem. O protagonista do conto conjectura: “Se um dia esse meu velho e bom exemplar for parar num sebo, ele será o registro vivo de uma relação, a história de um texto ao lado de uma leitura sobre ele, e de um terceiro texto nascido desse encontro, como duas teses produzem uma síntese”. Prisma semelhante é o de Paulo Roberto Pires em “Outra arte”, cujo narrador alimenta-se de “restos de almas e musas extraviadas”. Cecilia Giannetti, em “Inseto”, insinua haver situações nas quais as margens rabiscadas são mais interessantes do que o próprio livro. E João Paulo Cuenca vai ainda além: “No hay banda” investe sobre a possibilidade de que a literatura não só ajude a dar conta da vida, mas venha mesmo a concebê-la — e previamente.
O verso que perdura na lembrança independentemente da vontade (Gonçalo M. Tavares), a especulação sobre a trajetória dos livros — da livraria à biblioteca, ao sebo, a uma nova biblioteca (Pedro Sussekind), um olhar sobre o comportamento privado dos escritores (Ivana Arruda Leite) e o encontro imaginário entre Beckett e Proust (Daniela Pereira de Carvalho) são outras vertentes esmiuçadas pelos autores, que também abrem espaço para o humor (Luis Fernando Verissimo e Xico Sá). O grande momento da seleta, contudo, é o engenhoso “Pequenos danos”, de Joca Reiners Terron. Assumindo-se como protagonista e abusando de auto-ironias, o autor narra suas desventuras após receber carta do presidiário que lhe pede a remessa de um livro para a biblioteca da penitenciária. O nome do detento — Jorge Luís Menard, que mistura Borges a um de seus mais conhecidos personagens, Pierre Menard — já funciona como uma chave para se decifrar os meandros do texto, que, a exemplo de uma daquelas tradicionais bonecas russas com similares menores em seu interior, comporta outras camadas narrativas. Para além da trama, o conto de Joca reencena o ciclo moto-contínuo em que gira a própria literatura; pois se cada novo livro — incluindo aí a coletânea ora editada — suscita a nostalgia dos que já lemos, paralelamente irá se tornar memória para os que chegarem depois.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)

 


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