Bunin filtra o lirismo dos interditos amorosos
Integrante tardio do realismo russo, malgrado não ter alcançado a fama de nomes como Gogol, Tolstoi, Tchekhov e Dostoievski, Ivan Bunin foi o primeiro escritor do país a receber o Prêmio Nobel de Literatura, concedido em 1933. Desfazendo lamentável hiato, somente agora, 50 anos depois, o autor chega ao Brasil, com a coletânea “Insolação”, lançada pela editora Objetiva.
Nos contos do livro, Bunin constrói pequeninos mosaicos descritivos, tentando encontrar através da palavra uma organização possível em meio ao caos das sensações humanas. Não à maneira de uma Clarice Lispector, que frutifica sua matéria-prima literária justo nessa frustração, mas externando os sentimentos de seus personagens ao descrever física e poeticamente o espaço que ocupam. São epifanias na forma de gostos, cheiros, cores e séries contínuas de percepções capazes de suspender o instante, estancar o efêmero e fixá-lo na perenidade ou ilusão do eterno. Ao invés de estranhamento, há deslumbre.
O autor não se aprofunda no desenho psicológico dos personagens. Antes disso, procura incessantemente apreender prazeres sensuais momentâneos, por meio dos quais deseja expor a “trágica fugacidade da vida”, como bem observa no prefácio Graham Hettlinger, tradutor do original para o inglês. O lirismo presente nos 25 contos do livro remete à origem de Bunin como escritor. Precedendo o exílio na França – motivado pela perseguição stalinista -, ele conseguira algum sucesso em seu país como poeta. A maioria das narrativas que compõem “Insolação” foi produzida exatamente durante a temporada francesa – e talvez o sentimento de exilado tenha contribuído para que a condição de viajante e o tema da felicidade sempre adiada sejam recorrentes.
No deslocamento entre bem-aventurança e tempo presente, a felicidade surge como embaçado objetivo futuro ou passado fugidio, ao qual constantemente se remonta. O conto que dá título à coletânea, por exemplo, narra o encontro casual de um tenente com uma bela mulher no curso de uma viagem de navio. A curtíssima mas insidiosa relação entre os dois, durante uma das paradas da embarcação, termina em razão da partida da moça. Ao se ir, a mulher deixa o quarto do homem “cheio”, com aromas e lembranças que denotam uma “presença”.
O interdito amoroso repete-se em “Outono frio”, no relato de despedida entre um jovem convocado para a guerra e sua amada. “Vendo-o afastar-se, tudo o que nos vinha era uma assombrosa sensação de incongruência entre nós mesmos e a manhã alegre que nos rodeava, clara de sol e de geada tremeluzente”, descreve Bunin, mais uma vez atrelando à paisagem, agora por contraste – e não por sintonia, a condição interior dos personagens.
Os comentários por vezes amargos sobre amores que se esvaem, no esteio da rotina, da proibição social ou da simples covardia, manifestam-se também em “Rusya”, “Corvo”, “Cáucaso” e “Outono frio”. Entremeado a essas narrativas, o livro traz uma série de contos muito curtos, sempre com menos de uma página, que retratam cenas urbanas. São pequenos flashes do cotidiano, sem o lirismo que marca os textos mais longos.
Pena constatar que talvez algo da escrita de Bunin tenha se perdido no processo de tradução. Como o próprio Graham salienta, o escritor adora inserir longas frases entre verbo e objeto, na ânsia de descrever em minúcias climas e topografia, e lentamente tornar nítido o que quer transmitir. O tradutor confessa que “detalhes excessivos” que se intervenham entre verbo e objeto poderiam resultar em confusão na língua inglesa, e por isso se viu obrigado a quebrar e reconstruir orações. Embora, como fã declarado que é, tenha decerto tentado aproximar ao máximo o texto do original, uma tradução direta do russo para o português poderia evitar tal fracionamento.
Trata-se, porém, de pequeno reparo. Até porque representa um regozijo para o leitor percorrer, na companhia do autor, sua desesperada busca pela palavra que “diga”, que consiga expressar em totalidade um instante. Em “Ida”, após ouvir da mulher que ela há muito apaixonara-se por ele, o personagem fecha-se em pensamentos: “Como se pode descrever aquele momento com grosseiras palavras humanas? O que é que eu posso lhes dizer, que não sejam chavões baratos, sobre aquele rosto voltado para ele à luz pálida que só a neve de uma tempestade recente produz? (…) Meus Deus, quem seria capaz de apenas tocar nessas coisas com palavras!”.
Essa “falta” que a palavra encerra, sugere o livro, ocorre devido à nossa forte propensão em contentar-se com o meramente visível. No melhor conto do compêndio, “O cavalheiro de San Francisco”, a questão ganha relevo. Ao contar a trajetória do protagonista, que faz um cruzeiro pela Europa junto à família, o autor sublinha a oposição não explícita entre o fausto do convés, onde divertem-se os passageiros, e o porão, cuja sujeira é mantida à espreita. Bunin expõe em detalhes o panorama do salão de festas, no qual dança um casal contratado para animar o baile, para em seguida, num parágrafo magnífico, anotar: “Ninguém sabia que o casal cansara havia muito de fingir sua atormentada paixão ao som da música despudoradamente triste, assim como ninguém sabia o que jazia bem lá no fundo, abaixo de todos, no negrume do porão, ao lado das entranhas quentes e escuras do navio, que penosamente se esforçava por vencer as trevas, o mar, a tempestade”.
Eis seu interesse primevo: desvelar o que lateja por detrás das aparências e só pode ser captado – se é que pode – após a busca insistente e nem sempre fácil que espelha o fazer literário. O que moveria essa busca? A carência, nosso barro demiúrgico. Carência suprema pela capacidade de exprimir, em combinações de palavras, alegrias e tristezas que podem fluir em mínimas e fortuitas iluminações, tenham elas sentido cognitivo ou não.
* Resenha publicada no site Paralelos
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