Cartas adicionam novas faces ao enigma Clarice
A todo escritor pressupõe um certo grau de desalinho com o mundo. Refiro-me aqui a uma espécie de desconforto, de náusea, que se interpõe entre ele e a vida, potencializando sua inventividade e possibilitando que – tal um escultor – entalhe, dentro da chamada realidade aparente, novas e alternativas dimensões. Independentemente disso, há em geral um espaço natal, ou pátrio, com o qual se identifica e de onde partem, para virar coisa distinta, as suas memórias. Este espaço pode ser sua família, sua vila, seu país – pode ainda ser múltiplo. Mas poderia simplesmente inexistir? Poderia o escritor alimentar-se, ao inverso, justamente do expatriamento absoluto?
Sim, respondo eu, para enfim enveredar pelo objeto desta resenha: Correspondências, livro que reúne 129 cartas (algumas delas incompletas) enviadas e recebidas por Clarice Lispector entre as décadas de 1940 e 1970. Isto porque – como apontou Antonio Callado – ela, Clarice, era em essência uma estrangeira. E não em razão de ter nascido na Ucrânia. “Criada desde menininha no Brasil, era tão brasileira quanto não importa quem. Clarice era estrangeira na terra. Dava impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há uma greve geral de transportes. Mesmo quando estava contente ela própria, numa reunião qualquer, havia sempre, nela, um afastamento”, bem assinalou o crítico.
Este é o perfil que se desenha na literatura introspectiva de Clarice. De forma metafórica em seus trabalhos iniciais, como Perto do coração selvagem, e derradeiros, caso de A hora da estrela, e mais incisivamente na trilogia do exílio – O lustre, A maçã no escuro e A cidade sitiada -, romances produzidos durante a temporada em que morou na Europa, acompanhando o marido embaixador, Maury Gurgel Valente. A autora que se descortina nas correspondências, no entanto, não se resume à fiandeira dos densos territórios da alma, à hábil investigadora das zonas abstratas de sensibilidade. Não: a Clarice missivista, embora tenha a indisfarçável marca da escritora, é ainda mais enigmática.
Evidentemente, o tema do expatriamento aparece nas cartas selecionadas por Teresa Montero com base nos arquivos da Casa de Ruy Barbosa e da Biblioteca Nacional. “Estou acostumada a estar só, mesmo junto dos outros”, admite Clarice, em correspondência remetida ao marido. Em outro texto, escrito na cidade de Berna, em resposta a Elisa Lispector e Tânia Kaufmann, ela se lamenta: “É bem de minha natureza carregar nos ombros a culpa do mudo. Se todos sentissem isso talvez saísse um novo mudo. Uma pessoa só pode apenas sucumbir.” De Creta, vem ainda o retrato mais bem acabado da tristeza diante do isolamento na brancura árida da paisagem suíça: “É uma pena eu não ter paciência de gostar de uma vida tão tranqüila como a de Berna. (…) Parece que todas as casas estão vazias, sem contar que as ruas são camas. Dá vontade de ser uma vaca leiteira e comer durante uma tarde inteira até vir a noite um fiapo de capim. O fato é que não se é a tal vaca, e fica-se olhando para longe como se pudesse vir o navio que salva os náufragos. Será que a gente não tem mais forca de suportar a paz?”.
A correspondência remetida para a família, contemplando idiossincrasias e coisas comezinhas, desnuda outra face da autora, mais distante do mito literário e próxima da vida cotidiana. Problemas como a pintura de uma geladeira ou o dinheiro escasso são alvo de comentários com as irmãs, com Maury e, principalmente, o filho Paulo.
Lamentavelmente, nenhuma das respostas de Paulo à mãe foi publicada no livro, deixando o leitor curioso, já que só lhe é permitido conhecer um dos lados da relação.
As missivas revelam ao leitor também a preocupação da autora com a conjuntura política – alvo sobretudo da correspondência com Bluma, esposa do barão da imprensa na época, Samuel Wainer. Há ainda mensagens pontuais ao presidente Getúlio Vargas, solicitando ajuda no processo de naturalização, e a alguns editores, tratando da publicação de seus contos e romances.
Para quem ama a literatura, porém, a gema de Correspondências é mesmo a troca entre Clarice e alguns de seus pares, como Lúcio Cardoso, João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira e Fernando Sabino – com este, o número é escasso, decerto em virtude de os textos já terem se tornado públicos em Cartas perto do coração (Record). O pouco, porém, é pura nata. O processo de criação e as inseguranças diante da crítica ocupam boa parte das missivas, cuja marca é a sinceridade. O escritor mineiro elogia, por exemplo, a maturidade de Clarice: “Você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora já não esteja sofrendo muito; o que é preciso é sofrer “bem”, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já e iniciado em sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo”.
Em outro grande “diálogo postal”, ela defende o título do romance O lustre ante um reparo anterior de Lúcio Cardoso, que argumentara: “Acho meio mansfieldiano e um tanto pobre para uma pessoa rica como você”. Clarice retruca: “Nunca convenci você mesmo de que eu sou pobre; infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito”. Em trecho seguinte da mesma carta, é a ironia que dá o tom: “Se eu estivesse lendo Proust alguém pensaria num lustre proustiano (meu Deus, ia escrevendo proustituto!)… Se estivesse ouvindo Chopin, pensaria meu lustre era um desses de grande salão, com bolinhas delicadas e transparentes, sacudidas pelos passos de moças doentes e tristes dançando”. Finalmente, encerrando o assunto, explica como procura derrotar esse fantasma que tenta assombrar todo autor, que é a confrontação como tudo o que já foi escrito: “O diabo é que naturalmente eu venho sempre por último, de modo que eu sempre estou no que já está feito. Isso muitas vezes me deu certo desgosto. Assim, eu estava lendo Poussière e encontrei uma coisa quase igual a uma que eu tinha escrito. E agora que estou lendo Proust, tomei um choque ao ver nele uma mesma expressão que eu tinha usado no Lustre, no mesmo sentido, com as mesmas palavras. A expressão não é grande coisa, mas nem sendo medíocre se chega a não cair nos outros. Mas isso não importa tanto. O que importa é trabalhar, como você tantas vezes me disse”.
O tema retornará em carta endereçada a Tânia Kaufmann, na qual Clarice admite que as críticas na maioria das vezes “não lhe fazem bem”, citando especificamente o polêmico Álvaro Lins. “Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virgínia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar ‘representante comercial’ deles”, anotou a autora. O leitor de Clarice saberá que a reação aos ataques de Lins aludiam a Perto do coração selvagem, o que não é esclarecido no livro. Este é um dos tantos indicativos de que a seleta, apesar da alta qualidade, ressente-se de um estudo introdutório sobre a escritora ou, pelo menos, de notas de rodapé elucidativas.
O mais inusitado, no entanto, é que em meio a textos tão informais como os que caracterizam as cartas seja possível pinçar uma frase que, se não no todo, espelha ao menos parcialmente a busca que a autora exercitou como uma verdadeira obsessão em seu ofício, do primeiro romance até a morte, em 1977. Curiosamente, tal frase não foi formulada por ela, mas pela comadre Maria Bonomi, que experimentava um momento singular e, excitada, o relatava: “A gente começa a viver de tal maneira que as palavras se tornam precárias”. Foi esta luta para exprimir o inexprimível, dizer o que é enorme demais para ser dito e, sabe-se lá, talvez jamais possa se pronunciar, a ânsia insaciável de Clarice. Seja na literatura, seja nas cartas, seja na vida.
* Resenha publicada no site Paralelos
Ingrid Ferreira
23 junho
Amei as resenhas, foram muito úteis !
Obrigada mesmo,
Ingrid Ferreira