Formas breves

Irreverência, rigor, realidade e pistas falsas

É o próprio Ricardo Piglia quem melhor sintetiza o que o leitor encontrará nas 120 páginas de “Formas breves”. São “narrativas reais e também variantes, versões imaginárias de argumentos existentes”, que compõem e dão viço à coletânea de ensaios do escritor argentino, lançada pela Companhia das Letras. Ao abdicar de estabelecer fronteiras rígidas entre verdade e ficção, ou mesmo entre o que seria análise crítica ou puro deleite criativo, Piglia consegue, nos 11 textos do livro, operar com os mesmos mecanismos que crê constituírem a argamassa da literatura atual: a falsificação, a “mescla”, a “combinação de registros”, a “barafunda de filiações”.
“Os textos não requerem maior elucidação. Podem ser lidos como páginas perdidas no diário de um escritor e também como os primeiros ensaios e tentativas de uma autobiografia futura”, anota o autor. Assim, a obra tem lugar tanto para relatos como “Hotel Almagro” — que espelha de forma delicada os primeiros tempos de Piglia em Buenos Aires, quando ainda se via dividido entre a capital argentina e La Plata, província onde lecionava — quanto para alentados estudos, como “Os sujeitos trágicos”, no qual explicita alguns pontos da relação conflitiva e tensa que viceja entre os campos da literatura e da psicanálise.
Mesmo em tais ensaios é possível ver as digitais de um artífice da criação. Há irreverência embaralhada ao rigor analítico. Há passagens reais ao lado de pistas falsas. E há, sobretudo, boas histórias. É o caso, por exemplo, da reprodução de um diálogo entre James Joyce e o psicanalista C.G. Jung, que Piglia cita buscando lustrar sua definição sobre o que seria um “artista”. O autor de “Ulysses” procurou Jung ansioso por uma solução para o quadro psicótico da filha. Após mostrar ao psicanalista alguns textos produzidos pela jovem, comentara, desconcertado: “Ela escreve o mesmo que eu escrevo”. A Joyce, que dava formas finais ao seminal “Finnegans Wake”, o psicanalista responde: “Mas onde você nada, ela se afoga…”
As reflexões de Piglia trafegam pela obra de alguns dos mais respeitados escritores argentinos, como Macedonio Fernández, Robert Arlt e, evidentemente, Borges, cujas singularidades tornam-se, em “Formas breves”, pontos-de-partida para que o autor explore temas como processo criativo, tradição e vanguarda, verdadeiras obsessões de quem ama o ofício literário. Piglia acolhe a premissa de Borges segundo a qual as literaturas “secundárias e marginais, deslocadas das grandes correntes européias, têm a possibilidade de dar às grandes tradições um tratamento próprio”. Neste lugar incerto, nasceria uma outra tradição, “clandestina”, construída retrospectivamente. Abrindo mais o leque, critica os que mecanicamente igualam “vanguarda” à “modernidade”. “Se ser de vanguarda quer dizer ser ‘moderno’, todos nós, escritores, queremos ser de vanguarda”, ironiza. Para ele, a vanguarda hoje converteu-se num “gênero”, e seus movimentos típicos — o isolamento, a ruptura com o mercado esconderiam paralelamente “fantasias de ingressar nos meios de comunicação de massa”.
No livro, a fusão entre eruditismo e afeição, traço da prosa do escritor argentino, alcança um de seus grandes momentos no célebre estudo “Teses sobre o conto”, em que define o gênero com base em seu “caráter duplo”. Segundo Piglia, o conto sempre narra duas histórias, é construído para desvelar artificialmente algo que estava oculto. “Um relato visível esconde um relato secreto, narrado de um modo elíptico e fragmentário”, que no conto clássico provocava um efeito de surpresa e, na versão moderna, tornou-se mais elusivo. “Formas breves” inclui ainda um estudo posterior, “Novas teses sobre o conto”, cujo foco centra-se na questão do “desfecho” nas narrativas curtas.
Malgrado a variedade, os ensaios do livro dialogam entre si, expondo o rigor e a paixão com que Piglia se entrega à literatura. “Todas as histórias do mundo são tecidas com a trama de nossa própria vida. Remotas, obscuras, são mundos paralelos, vidas possíveis, laboratórios onde se experimenta com as paixões pessoais”, vaticina, como se ainda que precariamente resumisse seu olhar sobre a escritura. Calvino, outro autor que soube como poucos fazer da crítica um ofício criativo, assinalara que “as linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, de parênteses, páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representam o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento no deserto”. É por estas dunas que Piglia passeia.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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