Entre ironias e longas digressões, Mário de Carvalho narra as desventuras de um cinqüentão lisboeta
Antes mesmo de começar a conduzir o leitor pelas 248 páginas de Era bom que trocassemos umas ideias sobre o assunto, Mário de Carvalho faz a devida advertência: ”Este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos”. Outra observação prévia, na epígrafe, lembra Camilo Castelo Branco: ”Sinceramente, não sei corrigir-me do vício das divagações”. É, de fato, entre uma ironia bastante afeita a Machado de Assis e longas digressões que o escritor português narra as desventuras de Joel Strosse Neves. Protagonista do romance, o cinqüentão lisboeta testemunhou a Revolução dos Cravos (1974) e hoje vê-se à margem, fundamentalmente pela incapacidade de acompanhar – e compreender – as aceleradíssimas mudanças por que passa seu país e, em perspectiva análoga, o resto do mundo.
Relegado a departamento sem importância dentro da empresa, Joel divide sua rotina entre o trabalho, a lamentosa mulher e as raras visitas ao filho, preso por tráfico de drogas. No auge da desilusão, repentinamente decide ingressar no Partido Comunista, e para tal procura Jorge Matos, velho conhecido de faculdade e desde sempre militante de esquerda. As histórias de Joel e de Matos, e também as de Eduarda Galvão, jovem jornalista que anseia pela fama, Vera Quitério, responsável pelo bordão que dá nome ao romance, e dos demais personagens, todos eles anti-heróis, representam uma imagem possível do hiato que se abriu entre as expectativas trazidas pela redemocratização do 25 de abril e seus resultados concretos.
O narrador não tem condescendência. Erigidos sobre prosa elaborada e fiel à ortografia portuguesa, seus ferinos comentários espairam-se por vários flancos. Miram, por exemplo, nos aspectos mais patéticos da modernização, debochando da disseminação de termos que trafegam entre o cool e o politicamente correto, como a preferência pelo uso de ”colaboradores” em vez de ”empregados”. Desconstróem também polêmicas vazias, caso da reação extremada à construção ”do edifício da Fundação Helmut Tchang Gomes”, onde trabalha Joel, que ”suscitou indignações veementes na migalha de público dita os intelectuais, cismas avinagrados na Associação dos Arquitectos, balanceios incómodos na cadeira dum ministro e choros convulsivos numa misteriosa viúva”. Após aludir ao traço marcadamente lusitano do forte apego ao passado – ”Sempre que em Lisboa se constrói um prédio (…) com prosápia inovadora, cai Tróia, caem o Carmo e a Trindade, caem dirigentes políticos, caem reputações (…), só o que não cai é o edifício em causa”-, o narrador especula, com sarcasmo: ”Não é improvável que daqui a sessenta anos – se a qualidade da construção o garantir – retinam campainhas (…): Alto, que querem pintar de cinzento o célebre prédio (…) que foi em tempos a Fundação Helmut.”
Mas o que sobretudo viceja no livro é o olhar mordaz sobre a inversão no eixo dos paradigmas sociais nas últimas décadas, que pode ser traduzida na emblemática reflexão de Joel ao tentar imprimir ao filho (ainda em liberdade) predicados seus: ”Era inútil discursar sobre as virtudes do saber (que aprendiam na escola, final?), das vantagens dum grau académico (que vantagens, pensando bem, se tantos iletrados tinham um grau académico?), da segurança dum emprego qualificado (qual segurança, de resto, quando a ânsia de despedir se transforma quase em ritual religioso?), do prestígio social da licenciatura (qual prestígio, logo batido por uma razoável facturação numa empresa de ponta?).”
Hoje mais vale o saber de almanaque de um Bernardo Veloso, que só leu três livros e (certo de que bastam) vive a citá-los em seus artigos – ou de uma Eduarda, que, já estabelecida como repórter de prestigiosa revista, chega a recomendar a uma leitora que desista dos sonetos e ”rimas fora de uso” e atente aos ”poetas modernos”, como Alberto Helder. Eduarda erra o nome (referia-se ao grande Herberto Helder), pois baseara sua citação numa entrevista da TV. A moça, aliás, é um dos alvos preferenciais do narrador, cuja sardonice reflui em cenas hilárias, como o relato do primeiro encontro entre a jovem e o futuro chefe. De início, o rapaz ”parecera-lhe um tudo-nada repugnante, mas logo se transformou num príncipe encantado, emergente de sapo, quando o fotógrafo, à puridade, lhe contou que o outro era o indigitado editor duma nova publicação (…). A metamorfose foi tão rápida que suspeito de que andou por ali uma fada, que fez trabalhar a varinha (…), operando a metamorfose de Eduarda após ter operado a do batráquio”.
O sarcasmo, contudo, não se fixa apenas sobre os personagens. Onisciente, o narrador ridiculariza também a si mesmo e à própria literatura, em autocrítica quanto à necessidade de dar andamento ao enredo, ou de elaborar belas sentenças. É o caso da expressão ”Por uma noite escura e tempestuosa”, que desejava incluir no romance e acaba dispensando sem recorrer a equivalentes ou tentativas de plágio, já que ”não era de noite, o Verão estava quente e sossegado” e não antevia ”grandes invernias” na história.
O humor paira sobre o livro, portanto, como uma chuva ácida que atinge a tudo e a todos, mas não nubla totalmente a ternura. Pois a ironia destilada em direção aos personagens encerra, em conflito permanente, a amargura dos sonhos desfeitos e alguma esperança. Amargura e esperança também dele, narrador, cujos próprios limites são reconhecidos quando, consternado, afirma: ”Joel existe, eu não”. Afinal, embora confinados ao espaço do romance, seus personagens vivem. A ele restam somente perscrutações, conjecturas, espantos.
* Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)
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