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O ipê de Botafogo

O ipê de Botafogo


No final da Praia de Botafogo, há um ipê apressado. Ele fica ao lado de um posto de gasolina e todo ano se abre em flores lilases muito antes dos demais, como se anunciasse a primavera própria da espécie. Porque os ipês não obedecem a estações. Florescem de junho a setembro, indiferentes aos recortes do tempo.

O ipê de Botafogo está isolado no parque desenhado por Burle Max. Solitário em meio ao tráfego, à fumaça e à velocidade dos carros que cruzam as pistas do Aterro, só é percebido mesmo quando dá flor.

Li que os ipês pertencem à família das bignoniáceas, e que seu nome tem origem tupi-guarani, significando ‘pau ou madeira que flutua’. São árvores de crescimento rápido, com altura de oito a doze metros. De suas flores, se alimentam insetos e aves. Dizem que o extrato de sua entrecasca tem faculdades bactericidas e pode servir de base para um chá excelente para o tratamento da gripe.

Minha ex-mulher, bióloga, me ensinou a ver beleza na Ciência, mas para mim todas essas informações empalidecem quando, próximo à Enseada, o ipê de Botafogo se deixa ver carregado de flores.

É ele quem anuncia a cor da temporada que se inaugura. Como um arco-íris temporão que pinta o céu antes mesmo da chuva, toca o primeiro acorde, ao qual os outros ipês da cidade prestarão reverência, como se todos – peças de um dominó colorido – sentissem a obrigação de envernizar os olhos da cidade em penugens amarelas, rosas, brancas, verdes.

Justamente no período menos ensolarado do ano, o ipê de Botafogo debocha da paisagem gelada das ruas, da frieza posada dos que trafegam em seus carros turbinados, do cheiro acre que o vento retira da Baía de Guanabara e lhe sopra nas folhas, fazendo-as dançar mesmo que não queiram.

Ele é a sílaba tônica, o senão. O tom dissonante que torna possível viver as horas seguintes sem a impressão de que são apenas horas a serem consumidas. O contraponto possível.

Permanece alheio aos homens e seus tantos imensos variados problemas. Não repara o menino que joga os limões para o alto no sinal, nem a senhorinha que atravessa a pista com a sacola da Casa & Vídeo nas mãos. Ignora a louca que se julga guarda de trânsito e orienta os motoristas em estranhos movimentos com os braços para um lado e para o outro. Desconhece o preço do táxi, do cinema, da chapinha no cabelo, do prêmio da Mega-Sena. O julgamento do Mensalão. E se mantém em silêncio, na última curva da Praia de Botafogo, oferecendo uma visão singela a quem o espreita, por um instante que seja, no começo da manhã.


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