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Luminosidade no breu

Luminosidade no breu


No dia 19 deste mês de janeiro que dá seus primeiros passos, Eugénio de Andrade completaria 90 anos de idade. O poeta português partiu em 2005, depois uma longa luta contra o câncer. Na época, sua morte foi ignorada quase unanimemente pelos suplementos culturais dos jornais brasileiros. O relativo ocaso se explica: apesar de estar entre os grandes de nosso tempo, ele ainda hoje é pouquíssimo conhecido por aqui.

Eugénio nasceu em uma pequena aldeia da Beira Baixa, em Póvoa do Atalaia. Escreveu seus primeiros poemas aos 13 anos, ainda sob o nome de batismo, José Fontinhas. O reconhecimento de público e de crítica chegaria com As mãos e os frutos, de 1948.

Ali teve início uma trajetória rica não só na área da poesia, mas também na prosa, no ensaio e na tradução. Sua produção poética destacou-se pela extraordinária capacidade de criar conexões entre a aparente banalidade do circunstancial e o sublime, como exprimem os versos de Memória doutro rio, de 1978: ”Com a manhã chega o anônimo respirar do mundo./ Um cheiro de pão fresco invade o pátio todo./ Vem dos lados do rio: para levar à boca, ou ao poema”.

Sem recair no melodramático ou no meramente pomposo, seu lirismo alimentava-se do rigor, da depuração das palavras, buscando, seja na natureza, seja no homem, a fagulha capaz de fazer fulgurar um instante qualquer de beleza em meio à brutalidade do mundo. A flor que Drummond vislumbrou, cuja cor não se percebe, cujas pétalas não se abrem, e que é feia, e ainda assim capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Como apontou Carlito Azevedo na apresentação da antologia editada pela Nova Fronteira, a única do autor publicada no Brasil, a poesia de Eugénio é eminentemente solar. Mesmo quando esbarra na melancolia tão afeita à cultura lusa, sua obra insiste em cavoucar a luminosidade que se esconde sob os breus absolutos. ”Nas suas margens nuas, desoladas, / cada homem tem apenas para dar/ um horizonte de cidades bombardeadas”, escreveu ele num de seus mais célebres poemas, e cujos poderosos versos usei como epígrafe de meu livro A palavra ausente.

A consciência de que tais bombardeios deixam máculas convive, porém, com a certeza perene de que a alegria esquecida pode nos surpreender na imagem mais prosaica. Como a cena que o escritor flagra de sua varanda e registra no poema Há uns dias. Trata-se de um daqueles momentos ”em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima”, mas ele, ao avistar as crianças ”correndo no molhe” e cantando, recorda-se do próprio menino que foi. ”Um sorriso abre-se então/ num verão antigo/ que dura”. ”E dura ainda”, insiste, para encerrar o poema.

Um epitáfio possível para o próprio Eugénio e a forma como experimentou a vida até despedir-se dela, aos 82 anos. Um verso para guardar neste 2013 que principia.


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