Por boa parte da vida tive pinimba com gatos. Até cinco ou seis anos atrás, achava-os pouco confiáveis. Afetivos de menos, independentes demais. Acabei vencendo a implicância depois de, ainda casado, dar uma gata de presente para a minha ex-mulher.
Bastou. Em poucos dias, estava enredado por aquela pequena bola de pelo branco que batizei de Mafalda. Por isso mesmo, quando percebi que a separação não tardaria, comecei a planejar a adoção de outra gata. A Mafalda seguiria com minha ex, e não me parecia justo eu ficar completamente sozinho. Uma questão de isonomia no divórcio.
Mila chegou numa noite de frio. Tinha sido abandonada pela mãe em Jacarepaguá, mais ou menos uma semana antes, num desses dias chuvosos de março fechando o Verão. Ela e a irmã, também preta. Esbarrei na foto das duas na internet e, via Cora Rónai, fiz contato com o rapaz que as havia encontrado. Gentilmente, ele levou as gatas lá em casa. Quando abriu a porta do carro, enfiei a mão na casinha onde estavam e tirei uma, que de pronto meteu as unhas na minha camisa para se assegurar de que não cairia. Escalou o tecido.
Lembro-me de como fedia, do olhar carente, o pelo cheio de falhas. Era em quase tudo diferente da branca, que desmamou no tempo certo e foi bem tratada desde que nasceu. Aos poucos, com ração de qualidade, a atenção da Mafalda e os cuidados do veterinário, Mila foi ganhando corpo – e brilho.
As duas formavam uma boa dupla. Viviam enroscadas, apesar das diferenças. Se Mafalda nunca ocultou seus medos, escondendo-se ante a simples entrada de uma visita, a sem vergonha da Mila logo se esfregava no forasteiro, conquistando simpatia e, claro, marcando território. O ato de subir na cama, signo inequívoco de autonomia, foi um esforço de semanas para Mafalda. Mila o fez já no primeiro dia. E foi ela, Mila, quem me acompanhou quando partimos, eu e a ex, cada um para a sua nova casa.
A coitada da gata estranhou o apartamento. E ainda foi obrigada a conviver com a obra que durou quase um mês. Eu chegava do trabalho, à noite, e lá estava Mila, coberta de serragem. Nessa época, ela pegou um fungo que fez uma pelada em sua cabeça. Talvez seu modo de se mostrar solidária às minhas feridas ainda abertas. Nossas feridas.
Com o passar do tempo, criamos códigos particulares. Quando saio do elevador, ainda do corredor externo pergunto se há alguma preta por ali, e ela mia, de dentro de casa, numa resposta que é também saudação à minha chegada. Então eu entro, ela se atira ao chão e se espreguiça, esperando que a pegue no colo e faça alguns minutos de afagos. Vazando dos olhos verdes e simetricamente redondos, a ternura se espalha pela casa como uma brisa.
Uma de minhas irmãs costuma repetir que a Mila é uma gata-cachorra. Que gato gosta de pegar os objetos que a gente atira longe e trazer de volta? A Mila gosta. Gosta também de caçar insetos. E de beber água na pia do lavabo. E de afofar o travesseiro com o focinho e as patas, ronronando. E de afiar as unhas no tapete de sisal. E de comer patê. Cada mínima ação revigora nossa cumplicidade.
Quando vou dormir, ela não se demora e deita no travesseiro ao lado. Estarmos o dois ali, sonolentos, em silêncio: não conheço melhor tradução da paz.
Na crônica mais triste do mundo, Carlos Heitor Cony Cony fala de outra Mila, a sua Mila. Uma cachorra vira-lata que ganhou de Adolpho Bloch e tentou devolver logo em seguida. Vencido pela candura da bichinha, não conseguiu. E se manteve ao lado dela até o fim.
Cony escreveu a crônica sobre sua cachorra justamente quando ela morreu. Ele não gostava de cães, assim como eu não gostava de gatos. Achei que, de algum modo, nossas histórias coincidiam. E assim escolhi o nome para a Mila.
Talvez por essa semelhança de nome e sentimento, volta e meia me pegava pensando em como seria fazer uma crônica sobre ela, a minha Mila.
Pensava no que escreveria, o que poderia destacar, como encontrar as palavras precisas para descrever essa ou aquela situação, esse ou aquele afeto. Mas ontem, vendo-a dormir, me veio à mente uma frase da minha namorada. A Ju disse certa vez que a Mila é o pedaço de escuro mais alegre que ela já conheceu. E me convenci de que uma crônica sobre a Mila não deveria ser triste.
A Mila nunca foi triste. Nunca pediu nada exceto o mínimo: subsistência e amor.
É inútil tentar adivinhar a dor de um dia estar sem ela. Que me dá lições diárias de doçura. E, generosamente, mostrou um lugar no meu coração que eu não sabia existir.
Bruno Schier
Romeu Gomes de miranda
7 janeiro
Belíssimo texto, encheu de paz está manhã de domingo de um verão indeciso aqui pelo sul