Maracanã, adeus


Um dos acontecimentos mais esperados pelos cariocas com relação ao ano que se inicia é a reinauguração do Maracanã. Pois arrisco dizer: podem tirar seus cândidos cavalinhos da chuva.

O nome — Estádio Mário Filho — será o mesmo, a localização também. Mas a verdade, dolorosa verdade, é que o Maracanã acabou. E entre os tantos indícios disso, talvez não haja nenhum mais cristalino do que o novo sistema de amortecimento. Como observou meu amigo Álvaro Marechal em artigo na Folha de S. Paulo, o futuro mecanismo impedirá aquela extraordinária sensação de que o estádio também vibra com os gols, e que chegava a assustar quem estreava nas arquibancadas.

Sem falar nos novos camarotes. O modelo foi apresentado à imprensa recentemente. Com 80 metros quadrados, as 110 unidades terão bar, ar-condicionado e “espaço longe” (sic). Parecem saguão de hotel, como bem observou o confrade tricolor André Barcinski.

Nada contra um estádio oferecer conforto ao torcedor. É justíssimo que possamos assistir a um jogo com facilidade de transporte, sem sofrer agressão de quem quer que seja e tendo à disposição banheiros e lanchonetes em condições dignas. A questão é quando esse pretenso conforto começa a se confundir com assepsia.

Eis o processo em curso. O futebol, que deveria ser o elemento central, começa a se tornar periférico ante os emergentes pressupostos do “espetáculo”. Um mero detalhe.

E no “espetáculo” não cabe qualquer “sujeira”. Acaba-se com a reverberação do pulo da torcida, assim como se proibiu a venda de cerveja, sob o argumento falacioso de que gera violência. O palavrão, o sagrado palavrão, passa a ser alvo de repulsa. Em alguns estados, não é mais possível sequer presenciar um clássico com as duas torcidas em colorido confronto.

Aos poucos, o torcedor vai se transformando num figurante algo alheio ao que acontece em campo. No lugar do rito e da catarse, organização rígida e pose para as câmeras de TV.

Nunca vou me esquecer de quando entrei pela primeira vez no Maracanã. Corria o ano de 1980. Depois de muita insistência, meu pai botafoguense concordou em me levar para ver o Fla x Flu. O jogo terminou empatado — gols de Claudio Adão para o tricolor e de Nunes para o rubro-negro. Mas a imagem que persistiu com força foi a da subida do túnel, os passos ligeiros de ansiedade até o plano geral do campo, aquela imensidão verde ainda mais imensa aos olhos de uma criança. E então as torcidas no duelo dos cantos, capaz de legar beleza às palavras mais chulas, como as que saí do estádio repetindo, sob a repreensão cúmplice do pai: “O campeão é o Flu, e o resto vai tomar no cu”.

A essa memória se somam tantas outras. O testemunho de vitórias santas, de derrotas capazes de ensinar como a tristeza pode ser ruim. Títulos, gol, frangos, expulsões. Soma-se também a memória de fatos que não vi, mas pairam, sobre o estádio, como se eu e todos os outros torcedores tivéssemos vivido pessoalmente. O pênalti que redundou no milésimo gol de Pelé, o tento de Gighia contra o Brasil na final da Copa de 50, o drible de Romário no goleiro uruguaio antes de nos classificar para a Copa de 1994.

Um estádio de futebol não se limita a uma edificação de cimento, tijolos e grama. É, mais que isso, depositário de mitos, histórias, reminiscências, dramas que lhe dão alma — esta que o Engenhão, por exemplo, nunca teve. Um espaço de reconhecimento, de nós mesmos e nossa cultura, sedimentada ano após ano na repetição de costumes que reafirmam o que somos. Aquilo que o pai mostra para o filho, de geração a geração.

Leio e escuto com respeito os que defendem a radicalidade da reforma, mas não me convenço de que, com moderno amortecimento, dimensões do campo reduzidas aos padrões internacionais e camarotes cheios de pufes e frescuras, reconheceremos o nosso Maracanã.

Ficarão os arcos azuis. A estátua do Bellini, ponto de encontro de todos os domingos. E uma tremenda saudade.


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