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A nobre arte de ouvir

A nobre arte de ouvir


Joe Gould, um “homenzinho alegre e macilento”, era figura fácil nos bares mais ordinários do Village nos anos 40 e 50. Gabava-se de ser o último dos boêmios e a maior autoridade dos EUA em privação: “Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e catchup”.

Gould foi objeto de dois perfis* feitos pelo jornalista Joseph Mitchell, com um hiato de 22 anos, para a New Yorker. Talvez só mesmo uma revista do quilate da New Yorker pudesse bancar a demora que Mitchell em geral levava para apurar, redigir e burilar suas matérias. Foram meses e meses de conversas com Gould até que finalizasse o primeiro perfil (O professor Gaivota), por exemplo.

Mas o personagem não chamaria a especial atenção de Mitchell caso fosse apenas mais um dos boêmios que vagavam pelas ruas – as de lá, como as daqui. Gould descendia de uma família de médicos, formou-se em Harvard, estudou a eugenia dos índios americanos e trabalhou como jornalista. Cheio de si, apesar da sujeira e da aparência desleixada, dormia em estações de metrô e albergues baratos. Para se proteger do frio rigoroso do inverno, valia-se de folhas de jornais entre as roupas. Mesmo nesses momentos exalava esnobismo: “Só uso o Times”.

O malandro do Gould assumiu uma missão quixotesca: escrever a História oral de nossa época, reunindo em dezenas de volumes conversas travadas dia após dia com desvalidos como ele. Nas palavras de Mitchell, um “repositório de tagalerice, uma coletânea de disparates, mexericos, embromações, baboseiras, despautérios”, cuja ideia surgira num dia prosaico. Ao passar por um sebo, Gould esbarrou numa coletânea de contos em cujo prefácio W.B. Yeats observava: “A história de uma nação não está nos parlamentos e nos campos de batalha, mas no que as pessoas dizem umas às outras em dias de feira e em dias de festa, e na maneira como trabalham a terra, como discutem, como fazem romaria”.

Foi o que bastou para que decidisse a partir de então dedicar todo o tempo a colher informações necessárias ao monumental livro. Sem emprego fixo, custeava suas despesas mínimas pedindo contribuições pelos bares, em nome de um tal “Fundo Joe Gould”. Tinha o cuidado de detalhar seus nobres propósitos. Entre os colaboradores, além de bêbados anônimos e turistas curiosos, constavam nomes como o de e.e.cummings, que chegou a lhe dedicar um poema.

A História oral, segundo cálculos do próprio Gould, alcançaria nove milhões de palavras, escritas por extenso em papéis manchados de gordura, cerveja e café que seriam guardados na casa de amigos e numa granja em Long Island. Ele adorava falar sobre o livro, que incluía ensaios autobiográficos e estudos falsamente científicos, como o que ironiza a fixação da sociedade americana por estatísticas, relacionando o consumo de tomates por engenheiros ferroviários ao aumento do número de acidentes de trem. Gould costumava invadir as concorridas festas no Village, onde, após alguns copos de cerveja, punha-se a recitar poemas e trechos da História oral. Quando alguém tentava classificá-lo de exibicionista, revelava outro de seus mais marcantes traços: o sarcasmo. Que era expresso, sobretudo, em público.

Graças à franqueza, ganhou muitos desafetos no meio artístico e intelectual novaiorquino. Debochava dos colegas poetas, religiosos e pintores ditos de vanguarda. Certa vez, insistiu para participar do sarau de respeitada sociedade literária, que promovia a Noite da poesia religiosa e sempre lhe negara entrada. Pediu licença para ler Minha religião, de sua autoria. Diante da concordância, disparou: “No inverno sou budista / E no verão sou nudista”. Na Noite da Poesia da Natureza, implorou para declamar outro texto, A gaivota. Saltou, então, da cadeira, sacudindo os braços e gritando: “Sriiic! Scriic! Scriic!”.

Quando a atuação era criticada, dava na canela. “Se minha informalidade a leva a pensar que sou um bêbado bobo, atenha-se firmemente a essa convicção, atenha-se firmemente, atenha-se firmemente, e mostre sua ignorância”, disse à jovem que censurou uma de suas performances.

Para elaborar os dois perfis, Mitchell conheceu-o em diferentes estados: sóbrio, bêbado, depressivo, radiante. Foi mais ouvinte do que interlocutor. E criou certa intimidade, tentando captar, também por meio do universo em que estava imerso, um retrato preciso e complexo de Gould.

A interseção entre autor e personagem talvez se exprima nesse anseio. Tanto um quanto o outro, cada qual a seu modo, desejou escutar o mundo ─ e registrá-lo. Fazer, da vida, uma peleja contra o esquecimento. Mas curiosamente A história oral de nossa época nunca foi concluída. E após a impressão do segundo perfil, passados sete anos da morte de Gould num hospital psiquiátrico, Mitchell não publicou mais uma linha sequer.

* Os dois textos de Joseph Mitchel estão reunidos no livro O segredo de Joe Gould, lançado no Brasil pela Companhia das Letras.


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