Três e quinze da tarde. É terça-feira. Sentado na Praia de Botafogo, o homem remexe a areia em movimentos rotatórios com a mão direita. A cabeça, levemente abaixada, parece acompanhar o deslocamento dos dedos. A praia está vazia, um deserto cercado de águas sujas. Há algumas lixeiras, é verdade. A cor laranja chega a ofender.
O céu nublado fala de uma cidade que também sabe ser taciturna. Atletas vespertinos passam correndo pelo calçadão. Patins. Bicicletas. Ansioso, um cachorro preso à coleira cheira o tronco das árvores. Marca seu território.
Se olhasse para a esquerda, eu poderia ver as pedras da enseada, tão bonitas de longe. De um ângulo em que não há como enxergar garrafas plásticas, pedaços de móveis, camisinhas usadas. A beleza que as coisas distantes podem ter e que o detalhe sabota.
O homem sentado na areia não vê o movimento do calçadão às suas costas, de onde o observo. Mal vê o mar. Permanece no mesmo ponto, os dedos ainda girando na areia, círculos imaginários que logo irão se desfazer. Ele veste uma camisa social, calça jeans, sapatos. Talvez tenha esticado uma madrugada dessas que nos embotam, apagando tudo, até os frágeis feixes de luz. Noite que não quer se acabar. Talvez, por oposto, esteja a caminho do trabalho. Estivesse. E resolveu parar ali. Baterbly a repetir o mantra: prefiro não fazer.
Do outro lado do mar, a Urca. O charme dos prédios antigos de poucos andares e sem elevador, o velho cassino falando de tempos outros e de inocências, de quando havia inocências. Na água, os barcos descansam com suas velas arriadas, um silêncio que apazigua e apavora.
E o homem sentado na areia se mantém alheio. Quer apenas sentir, na tez dos dedos, uma aspereza fina. Pequenos punhados de grãos engendrando formas que a todo instante variam, e fingem não ser o que de fato são: desmanche permanente, silhueta breve, matéria que a memória não apreende.
Em algum momento, o homem roça as mãos uma na outra. Dá suaves tapas no antebraço, esfrega o cotovelo, o pescoço. Limpa-se. Em seguida retorna os dedos à órbita da areia. Suja-os novamente, para então recomeçar o processo e experimentar o conforto de se sentir limpo. Outra vez limpo.
Não sei ao certo, mas me parece que há um instante em que ele ergue a cabeça e vislumbra o entorno. É tudo rápido, muito rápido. E nesse ínfimo de imprecisão flagro as mãos de volta ao ondulado dos grãos. O rosto inclinado em direção ao branco macio e compacto onde pousa o próprio corpo, as pernas dobradas em xis, fixas como se ele sempre estivesse ali.
Não há perspectiva de sol, tampouco de chuva. Há apenas o homem sentado na areia da Praia de Botafogo. Que hesita em encarar a vastidão do mar. E tenta reter, na concha das mãos, a imensidão de si mesmo.
Bruno Schier
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