Nesta semana, a Prefeitura do Rio anunciou que a escola de teatro a ser inaugurada no Parque Madureira receberá o nome de Fernanda Montenegro, que nasceu ali próximo, no Campinho. Para quem não sabe, o parque é um espaço com 112 mil metros quadrados encravado na zona comercial do bairro onde o samba fez morada. Tem ciclovia, pista de cooper, aparelhos de ginástica, quadras esportivas, pista de skate, parque infantil, centro de estudos e local para shows. Algo impensável para quem, como eu, passou a infância em Madureira nos anos 1970.
Atriz imensa, Fernanda Montenegro merece todos os tributos. Mas é pena que, ao batizar a escola, a Prefeitura perca ótima oportunidade para lembrar e homenagear a artista de teatro que Madureira mais exaltou – e que hoje se vê relegada a relativo esquecimento. Falo de Zaquia Jorge.
Em 23 de abril de 1957, o jornal O Globo reportava: “Quando um guarda-vidas retirou, do perau em que caíra, o corpo da vedete, Celeste Aída abraçou-se ao cadáver, chorando copiosamente. Vira a amiga desaparecer e tudo fizera para salvá-la (…) Na areia, muito assustadas, cinco girls assistiam à luta de Celeste Aída, sem poder ajudá-la. Afinal, cansada e desanimada, Celeste Aída voltou às areias, Zaquia Jorge desaparecera e, quando foi encontrada, já estava quase sem vida”.
Zaquia, pouca gente sabe, é a Estrela de Madureira da canção de Acyr Pimentel e Cardoso, que virou sucesso na voz de Roberto Ribeiro. Composta originalmente como samba-enredo para o Império Serrano, a música não chegou à Avenida. Naquele ano de 1975, a escola cantou o samba de Avarese, vitorioso na quadra, e que se inicia com uma saudação à homenageada (“O Império deu o toque de alvorada / Teu samba a estrela despertou / A cidade está toda enfeitada / Pra ver a vedete que voltou”).
Antes disso, a atriz havia sido pranteada em outro samba, o célebre Madureira chorou (“Madureira chorou / Madureira chorou de dor / Quando a voz do destino / Obedecendo ao divino / A sua estrela chamou”), de Carvalhinho e Júlio Monteiro, gravado por Joel de Almeida em 1958. Curioso é que tanto Estrela de Madureira quanto Madureira chorou são hoje pouco relacionados à atriz. Eu mesmo só fui descobrir isso depois de adulto, embora seja originário do bairro a que as duas canções fazem referência.
Essa mulher que hoje figura quase como desconhecida levou mais de quatro mil pessoas a seu velório, no Teatro de Revista Madureira. O próprio presidente da República, Juscelino Kubitscheck, enviou representante ao sepultamento. Completavam-se, então, cinco anos que Zaquia inaugurara a casa de espetáculos – o primeiro e único teatro de rebolado do subúrbio carioca. Na estreia, foi encenada a peça Trem de luxo, à qual Estrela de Madureira faz alusão explícita naquela que talvez seja o fragmento mais tocante da melodia: “E um trem de luxo parte / Para exaltar a sua arte / Que encantou Madureira”.
A compra do teatro, que funcionou no prédio onde hoje há uma loja de eletrodomésticos, deu-se após carreira de grande sucesso como vedete. Zaquia trabalhou com Walter Pinto e atuou em filmes de Gilda de Abreu, Moacyr Fenelon e Luiz de Barros até que, abdicando dos holofotes mais disputados da cidade, decidiu com coragem e pioneirismo levar a arte da revista para além do Centro e da Zona Sul.
A trágica morte por afogamento na praia da Barra, aos 32 anos, suscitou polêmica. Comentou-se, na época, que ela teria bebido uma garrafa de uísque antes de entrar na água. Mas o exame de alcoolemia do Instituto Médico Legal (IML) deu negativo. A imprensa falou em homicídio. Independentemente de qualquer coisa, o desaparecimento de Zaquia significou também o fim de seu teatro – e o primeiro passo para o gradual ocaso.
Prometo que vou contar essa história com mais detalhes num livro que virá em breve. Mas o resgate da memória não se concretiza apenas em livros. Faz-se, também, em atos simbólicos. Como seria levar Zaquia Jorge de volta ao teatro. De volta a Madureira.
Newton luiz
2 julho
Realmente uma grande injustiça não colocar seu nome numa praça em Madureira. coisas que ocorrem em nosso país devido a pobreza de espírito de alguns mandantes. Mas na verdade Zaquia Jorge ficou e ficará na memória de muitos cariocas e até mesmo dos que não moravam em Madureira. Eu nasci em 1944 e quando de sua morte, com 13 anos também chorei com minha mãe e minha avó que na época era vedete também. Hoje aos 76 anos ainda recordo aquele dia tão triste.
Wilson de Mesquita
14 julho
Será que esse País não vai aprender nunca a homenagear as figuras populares.
Tantos representantes de nossa cultura são completamente esquecidos!
Parabéns por resgatar essa história. Espero que desperte a curiosidade dos leitores para buscar mais informações,
José Antonio
1 março
Não adianta tentarem apagar porque “continua a estrela, brilhando no céu….” e vai brilhar pra sempre…… Salve Jorge, salve Zaquia Jorge…..
Erivan Araújo
24 agosto
Que incrível essa história. Triste pela falta de reconhecimento. Achava que o samba “Estrela de Madureira” tinha sido feito para a Império Serrano.
adminmoutinho
24 agosto
E foi. Para o desfile de 1975, que homenageou Zaquia. Acabo de lançar a biografia dela, caso tenha interesse. O título é “Estrela de Madureira” e saiu pela editora Record
Erivan Araújo
22 setembro
Obrigado, Moutinho.