READING

Paulo Emílio no Paraíso

Paulo Emílio no Paraíso

Paulo Emílio: fascínio de um homem moderno

Ator, roteirista, militante político, professor, escritor, pesquisador e, acima de tudo, crítico de cinema. Na interseção de todos esses adjetivos, resplandece o nome de Paulo Emílio Salles Gomes, síntese das mais felizes da palavra “intelectual” – na precisa definição de Sartre, aquele que tem a missão de exprimir a sociedade para si mesma. Reunir as múltiplas facetas de um personagem tão complexo é o desafio a que se propôs o historiador José Inácio de Melo Souza, no livro “Paulo Emílio no Paraíso”, indicado, entre os três finalistas, para o Prêmio Jabuti (o vencedor será conhecido na Bienal do Livro, em maio).
José Inácio debruçou-se sobre a trajetória do crítico buscando identificar em seus estudos e falas esparsas um discurso que, acredita ele, ecoa forte ainda hoje. No aspecto formal, o historiador não se presta a floreios verbais: baseia-se em pesquisa rigorosa e evita diálogos ou dramatizações. Os personagens que passaram pela vida de Paulo Emílio ganham relevo somente na medida em que têm alguma importância em sua formação como pensador. Mesmo à sua mulher mais célebre, a escritora Lygia Fagundes Telles, é reservado um tratamento contido: ela adquire realce apenas quando se comenta o desenvolvimento, pelo casal, do roteiro de “Capitu”, para filme de Paulo César Saraceni.
A narrativa inicia-se com Paulo Emílio já adulto, envolvido no movimento estudantil e interessado por tudo o que se entendesse como “moderno”: comunismo, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Lenin, Trotski, Lasar Segall… Narra seu flerte com o PCB – do qual se afastará pela postura anti-stalinista -, a participação nos protestos contra o fascismo, e a detenção, em 1935, por agentes do Dops. Ainda no campo político, sublinha a aproximação com a ANL.
A prisão, aliás, aparece em capítulo fundamental. Nos presídios Maria Zélie e do Paraíso (a que alude o nome do livro), ele passaria 14 meses, até a fuga e o acordo para libertação, sob compromisso de sair do país. Ao discorrer sobre o caso, José Inácio ajuda a desmistificar a partida de Paulo Emílio para a Europa, pois entre os estudantes paulistanos perdurou por muito tempo a aura de exilado.
A temporada na França revelaria-se essencial para a formação de Paulo Emílio, que conhece revolucionários como Victor Sege, ativista da Revolução de 1917, ao lado de Lenin e Trotski, e artistas como Di Cavalcanti, travando seu primeiro contato mais íntimo com o cinema. Em Paris, travaria contato também com Plínio Sussekind Rocha, notório freqüentador dos cineclubes da cidade, entre eles o famoso Cercle du Cinéma, criado por Henri Langlois.
No retorno, motivado pela Segunda Guerra, um outro Paulo Emílio chega ao Brasil. Imerso na cultura européia e conquistado pela sétima arte, traz na bagagem a idéia de fundar um cineclube, o que se materializa no Clube de Cinema de São Paulo. Na Faculdade de Filosofia, da qual era aluno e onde ocorriam as sessões, e mais tarde, já sob a repressão do Estado Novo, em locais clandestinos, foram projetados clássicos como “O Gabinete do Dr. Caligari”.
Trata-se do ponto de partida para uma série de iniciativas no sentido de elevar o cinema à condição intelectual de destaque – seja proporcionando aos brasileiros a oportunidade de assistir ao melhor em termos de criação cinematográfica, seja discutindo o tema em longos ensaios críticos que inaugurou no país em revistas como “Clima” – na qual escrevia ao lado de Decio de Almeida Prado, amigo desde o Liceu, e Antonio Candido. Paulo Emílio procurava um novo padrão de pensamento sobre o “fílmico”, que refletisse a consciência de que o cinema transformara-se em uma forma de expressão artística original.
José Inácio explica também como a segunda viagem à Europa se revelou indispensável para sedimentar o conhecimento do crítico, que cursou estética cinematográfica no Institut des Hautes Études Cinématographiques e travou contato com obras de René Clair, Eisenstein e Pabst, entre outros diretores, nas salas de arte parisienses.
Já convicto da necessidade de preservar não só filmes, mas toda a memorabilia do cinema, liderou entre idas e vindas a criação da Cinemateca Brasileira e organizou eventos como o I Congresso Brasileiro de Cineclubes, a I Convenção da Crítica Cinematográfica e o I Festival Internacional de Cinema, que traria ao Brasil curtas dos irmãos Lumiãre, o expressionismo alemão, a vanguarda russa, além de conferencistas como André Bazin e Henri Langlois.
Paralelamente, prosseguia com a função de ensaísta no suplemento literário de “O Estado de S. Paulo”, na revista “Visão” e no tablóide “Brasil, Urgente”, semanário ligado à Igreja. Boa parte desses textos sobreviveu e está disponível nos livros “Crítica de cinema no suplemento literário” e “Um intelectual na linha de frente”.
A biografia destaca ainda a trajetória de Paulo como professor (fundou o curso de cinema da UnB e da Escola de Comunicação e Artes da USP), ator (trabalhou, sem grande repercussão, em dois filmes), ficcionista (é autor do cultuado “Três mulheres de três pppês”) e roteirista. Na parte final, José Inácio analisa estudos de maior fôlego produzidos por Paulo Emílio, como o seminal “Cinema: trajetória no subdesenvolvimento”, “Humberto Mauro: Cataguases, Cinearte” e “Jean Vigo”, pesquisa sobre o realizador francês que mereceu elogios de ninguém menos do que Truffaut.
Paulo Emílio já explicitava então a fase que José Inácio chama de jacobinista, quando se torna mais radical em sua defesa do cinema brasileiro. O crítico, que antes servira de ponte entre o que se realizava na Europa e o público de seu país, chegava nesse momento a afirmar que “um mau filme brasileiro” poderia em última análise “ser mais estimulante para o espírito e a cultura” do que uma película estrangeira. O pensamento sustentava-se em assertiva célebre, na qual atestaria que “nada nos é estrangeiro pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na estética rarefeita entre o não ser e o ser outro”.
No livro, nota-se que discípulos como Jean-Claude Bernardet entendem a proposta dessa espécie de cordão sanitário, que isolasse nossa cultura subdesenvolvida do contexto universal, como posição tática. Se serve de retrato de uma época em que polêmicas na arena intelectual eram travadas a ferro e fogo, a cultura era vista como combustível na frente de combate por mudanças. Além de que havia, na ocasião, verdadeiros faróis de inteligência, como Paulo Emílio.
O radicalismo do crítico, contudo, não soa datado, pelo menos para José Inácio: “Os problemas discutidos em ‘Cinema: trajetória no subdesenvolvimento’ não foram resolvidos, e sim soterrados por uma brecha aberta a partir de meados da década de 80, rompida cinco anos depois. O debate perdeu-se numa dessas rupturas tão constantes na história do cinema brasileiro, vagando para sempre como um dos objetos fantasmagóricos da cultura. O combate pode ser visto hoje como o ápice de uma luta de libertação abortada, como uma outra queda, só que definitiva, para a periferia do mundo civilizado”.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *