O sucesso

A busca pela simplicidade

 

Três versos de “East Coker”, a segunda parte do longo poema “Four quartets”, servem de epígrafe ao novo livro de Adriana Lisboa. “E o que você não sabe é a única coisa que sabe / E o que possui é o que não possui / E onde está é onde não está”, escreve T. S. Eliot. Uma potente chave de leitura para os contos reunidos pela autora em “O sucesso”, sua primeira seleta de narrativas curtas.

São nove histórias, nas quais a trama principal eclipsa os pequenos abismos dispostos sob os pés dos personagens. Seja o homem que vai ao Largo do Machado prosaicamente entregar documentos e acaba envolvido com uma misteriosa taróloga. O rapaz em sobressalto com o insuspeito passado da própria avó, num relato que envolve o beatle George Harrison. Ou ainda o fotógrafo que, em viagem para captar imagens de um famoso escritor, larga na França um pedaço de vida como “a moeda que cai do bolso”. Onde estão é onde não estão, quase sempre.

Embora escritos ao longo dos últimos dez anos — seis deles haviam sido publicados anteriormente em jornais ou antologias —, os contos guardam notável unidade. Em tom menor, o que está longe de significar tristeza, parecem esconder alçapões internos. Cada pequeno ato, por banal que seja, é capaz de acionar o botão da memória, pôr o mundo em involuntário movimento. O tremor de água que ressoa dentro de um cristal, como na alegoria de Júlio Cortázar.

Notabilizada como romancista, Adriana mantém na incursão pelo conto a excelência narrativa já evidente em livros como “Sinfonia em branco”, “Azul-corvo” e “Hanói”. “O sucesso” confirma, também, a busca pela simplicidade que tem marcado seus trabalhos mais recentes. “Use da palavra apenas / seu grau de sugestão de vida”, recomenda a própria autora em “Parte da paisagem”, livro de poemas lançado em 2014. Não se trata, portanto, de falta de esmero, mas de sobriedade na linguagem. A excisão de tudo que soe irrelevante, ou reiterativo.

Alguns contos se valem de personagens que existiram fora da esfera ficcional ou situações que efetivamente aconteceram. São os casos de “O escritor, sua mulher e o gato” — inspirado em fatos vividos pelo filósofo André Gorz e sua esposa, Dorine — e de “Feelings”, no qual Adriana evoca a apresentação de Nina Simone no Festival de Montreaux, em 1976, para imaginar uma cena familiar repleta de subliminares.

“Feelings / Nothing more than feelings”. Sentada à frente do piano, a jazzista estica os versos da célebre música do brasileiro Morris Albert, comenta a letra com a plateia. Tantos anos depois, as palavras vão tocar fundo a existência de uma garota que nunca ouvira falar em Nina Simone e cujos afetos são ainda pedra-bruta. Aqui vale a dica: o registro da exibição da cantora no festival está disponível no YouTube.

Já em “Oval com pontas”, é uma escultura que expõe o universo denso, aparentemente impenetrável — e que no entanto se oferece a aberturas, aos recortes da forma. Ao lado da mãe, o menino visita a exposição de arte. Ouve as instruções do guia sobre cada peça à mostra. “E se o melhor de tudo for o invisível — que ninguém sabe que existe e atropela o mundo com a pressa de um elevador em queda livre?”, pergunta-se, em silêncio, diante dos vãos no imenso objeto de ferro fundido.

Esse espaço invisível, para a Camila de “Circo Rubião”, é uma piscina na qual se pula de cabeça ainda que não haja como vislumbrar o fundo. Debruçada na janela, a menina encanta-se com a capa prateada do homem que vê passar de bicicleta, anunciando o espetáculo. Uma capa para cobrir a dor que se projeta, sombra constante, sobre a casa onde mora com os pais. Ou simplesmente voar.

E assim, à semelhança de Eliot, o livro de Adriana se exprime em paradoxo: o abismo que esboça a queda é também aquele onde se esconde a possibilidade do voo.

 

 

*  Resenha publicada no Segundo Caderno (O Globo)


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