Luxúria

Uma alegoria do abismo brasileiro

O agoniante engarrafamento em que se imiscuem os personagens logo nas primeiras páginas de “Luxúria” (Record, 364 páginas, R$ 40) serve como uma espécie de índice do romance de Fernando Bonassi. “É um momento histórico de prosperidade num país acostumado a viver na merda”, saúda o narrador. Mas dentro dos carros, onde o calor e a umidade fazem as roupas grudarem no estofamento, a impressão, paradoxalmente, é de paralisia. Exceto pelas buzinas, que os motoristas apertam “como se fossem os pescoços uns dos outros”.
Roteirista e dramaturgo, com mais de 20 obras publicadas, Bonassi delineia no novo livro uma investigação em grande angular sobre o Brasil de hoje. Ou — talvez já se possa afirmar — o Brasil de ontem. Quando a ascensão da classe C, movida a crédito fácil, semeou discursos triunfalistas e dívidas, muitas dívidas.
O romance centra-se na história do operário metalúrgico que, entusiasmado com as promessas de bonança, compra carro zero quilômetro a prestação, além da sonhada casa própria no Bairro Novo — empreendimento semelhante ao projeto Minha Casa, Minha Vida, do governo federal. Para impressionar a mulher, o filho pequeno e os vizinhos, decide também construir uma piscina nos fundos da propriedade. É quando começa sua derrocada.
A alegoria remete a outra obra, esta cinematográfica, que se debruça sobre as recentes transformações do país. Mas se, em “Que horas ela volta?”, a piscina representava o espaço de encontro/colisão entre a senzala e a casa-grande, no romance funcionará como um abismo, o buraco que vai engolir todas as esperanças do protagonista. Como dado curioso, vale mencionar que Bonassi e a diretora do filme, Anna Muylaert, foram colegas de turma na Faculdade de Cinema da USP.
A crítica tecida nas páginas de “Luxúria” não esconde seus alvos. No texto, a trajetória do operário reflete os efeitos de uma política de inclusão feita a partir do consumo — e de signos fortuitos de status. Ecoa, igualmente, o fracasso do Estado no que diz respeito às garantias sociais. A rede pública de saúde, o sistema educacional, as relações de trabalho, nada escapa à voz cáustica do narrador.
A excelência da prosa de Bonassi sobressai em capítulos como “Sermão da prosperidade” e “Paraíso das piscinas”. O primeiro expõe, com realismo desconcertante, a fome com que certas igrejas neopentescostais se lançam para arrebanhar o dinheiro do trabalhador. “Lembrem-se: um dá liberalmente e se torna mais rico; outro retém mais do que é justo e se empobrece, é Provérbios onze, vinte e quatro”, prega o pastor, para em seguida mandar o papo reto: “Abram os corações e as carteiras, minha gente!”
Se o pastor negocia um lugar no céu, o vendedor de piscinas acena com a possibilidade de prestígio social, o “valor agregado” ao patrimônio imobiliário do cliente, o bem-estar da família. Por fim, propõe o drible na escassez financeira do comprador. Uma linha de crédito governamental, voltada a reformas imobiliárias, mas que “com jeitinho” serviria à perfeição para financiar a piscina.
Com passagens tão contundentes, o livro prescindiria dos longos trechos dissertativos que procuram comentar os acontecimentos e a conjuntura, reiterando o que estava claro. Se a busca era por distanciamento do narrador, este já se expressa no tratamento que confere aos personagens. O protagonista é referido apenas como “o homem de que trata esse relato” e seu universo, como algo remoto: a cultura é “deles”, o hábito é “entre eles”.
Todos, no livro, agem roboticamente, são peças de uma engrenagem similar às que manejam na fábrica. Suas vontades latentes não chegam a se manifestar, o que Bonassi sugere com destreza ao marcar, em itálico, as falas engolidas a seco. Contudo, a radicalidade com que é desenhado esse estado de abulia forma um nó quanto à verossimilhança. Como se entre os indivíduos da classe média baixa já não houvesse espaço algum para afetos, nacos de alegria, pequenas delicadezas. E restasse Deus. Cuja ajuda é sempre evocada — mas, atesta o narrador, nunca vem.

 

 

* Resenha publicada no Segundo Caderno (O Globo)

 


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