Berlin Alexanderplatz

João sem braço alemão

Depois de vegetar por quatro anos na Prisão de Tegel devido ao assassinato de sua noiva, Franz Bikerkopf jurou a todo o mundo e a si mesmo levar uma vida decente. “No começo, dá certo. Mas então, embora esteja com as finanças remediadas, vê-se envolvido numa verdadeira batalha contra algo que vem de fora, algo imprevisível e que mais parece com o destino”, nos adverte, numa espécie de preâmbulo, um dos narradores de Berlin Alexanderplatz, a obra-prima de Alfref Döblin originalmente lançada em 1929 e que acaba de ganhar nova tradução no Brasil. O volume chega às livrarias com o acréscimo de dois comentários do autor – um de 1932, outro de 1955.
Marco da literatura expressionista alemã, o livro ganhou duas adaptações para as telas. A primeira, ainda na década de 30, sob a direção de Piel Jutzi. A segunda, bem mais conhecida, é a versão de Rainer Werner Fassbinder, que transformou o romance num filme com 15 horas e 21 minutos de duração.
Berlin Alexanderplatz é dividido em nove “livros” que descortinam a história do pobre Franz, da cadeia ao sanatório. Transitando por uma Berlim coalhada de proletários e malandros, o grandalhão Franz trabalha como operário e com o transporte de móveis, perambula pelas ruas, vende jornais, explora mulheres, bebe em quantidades industriais. E em todo esse percurso, padece como poucos numa espécie de “corredor polonês”, na definição do próprio Döblin.
Seu sofrimento não provém apenas da traição dos amigos, que em suas tantas e tão repetidas artimanhas farão com que ele perca um dos braços, além da mulher que ama. A angústia nasce, sobretudo, da impotência na luta contra aquele “destino” a que se refere Döblin. Franz é herói e vítima da Berlim do período entre guerras. E que Berlim é essa?
“É o lugar onde se dão as transformações mais violentas, onde guindastes e escavadeiras trabalham incessantemente, onde o solo treme com o impacto dessas máquinas, com as colunas de automóveis e com o rugido de trens subterrâneos, onde se escancaram, mais profundamente que em qualquer outro lugar, as vísceras da grande cidade”, informa o livro. É, ainda, um espaço onde “as massas tornavam-se cada vez mais visíveis (…). Um mundo de contrastes extremos, de usinas e quarteirões pobres atravessados por canais escuros que carregavam o lixo dos restaurantes caros”, como relata o historiador Luiz Nazário.
E essa cidade a quem o texto de Döblin desvela é, a exemplo de Franz, protagonista do romance. Não sob viés da louvação, da reverência. O autor não joga confetes sobre a terra natal. “Ele fala ‘a partir’ da cidade. Berlim é seu megafone”, observa Walter Benjamim no célebre ensaio que escreveu sobre o livro.
Döblin trata a cidade como um organismo vivo – e dotado de linguagem própria. Num minucioso trabalho de montagem, junta a voz dos narradores a manchetes de jornais, placas, anúncios, canções populares, informações sobre as tarifas dos bondes, dados estatísticos. Muitas vezes, como nos números sobre o abate de gado ou nos boletins sobre o tempo, há uma conexão silenciosa entre a informação e a trama: “Tempo agradável, com períodos amenos, um grau abaixo de zero. Alastra-se por toda a Alemanha uma zona de baixa pressão que põe um fim às condições metereológicas atuais em todo o território. (…) Durante o dia, as temperaturas deverão ser mais baixas do que até agora”.
Em outros momentos, a relação é mais evidente e chega a ganhar tons irônicos. Döblin é capaz de transitar, no mesmo parágrafo, da metafísica ao reclame: “Entretanto, não se tecem alianças eternas com as forças do destino. E o destino avança rápido. Se tiver dificuldades ao caminhar, use sapatos Leiser. Leiser é a maior sapataria da praça. E se não quiser caminhar, vá de carro: NSU convida-o para uma viagem de teste no automóvel de seis cilindros”.
O autor faz menção, também, ao processo de racionalização progressiva que o mundo então começava a experimentar. Isso ocorre, por exemplo, quando analisa o homicídio cometido por Franz a partir de uma perspectiva eminentemente científica. “O que acontecera um segundo antes com o tórax da criatura tem a ver com as leis da inércia e da elasticidade, de choque e de resistência. Sem o conhecimento destas leis o ocorrido é absolutamente incompreensível. Recorramos ao auxilio de fórmulas”, escreve ele, para em seguida citar as Leis de Newton.
Ainda no aspecto formal, há constante mistura de narradores – em primeira e terceira pessoa -, e uma profusão de gírias (“Menina, você é sapata?”), onomatopéias e alusões a mitos da tragédia grega e versículos da Bíblia, elementos não raramente combinados. Nesse mosaico, não existem fronteiras precisas. A busca é por reproduzir a polifonia da cidade.
“Raramente se havia narrado neste estilo, raramente a serenidade do leitor fora perturbada por ondas tão altas de acontecimentos e reflexões, raramente ele fora assim molhado, até os ossos, pela espuma da linguagem verdadeiramente falada”, observa Benjamin. Tratava-se, no fundo, de um projeto literário de Döblin. No artigo Aos romancistas e seus críticos. Programa berlinense, publicado em 1913, ele já defendia que a hegemonia do autor tinha que ser quebrada. “Eu não sou eu, mas a rua, a lanterna, este ou aquele acontecimento, e nada mais”, afirma o texto.
O rompimento com a clássica estrutura do romance – que levou a comparações com o Ulisses, de Joyce – serve ao comentário de temas caros ao Expressionismo, como a mecanização da sociedade, a degradação dos valores, a atrofia do homem nos grandes centros urbanos. Mas Berlin Alexanderplatz é também, e num plano mais amplo, um instantâneo do solo fertilizado por recessão, desemprego e fanatismo ideológico no qual Adolf Hitler plantou suas sementes. Ao redesenhar o cenário daquela Berlim em crise, tão vulnerável ao canto sedutor do totalitarismo, Döblin dá uma piscadela direta ao leitor transformando Franz em vendedor do Völkischer Beobachter. O Völkischer era o jornal do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, como esclarece a tradutora Irene Aron numa oportuna nota de rodapé. Sem alarde, a serpente gerava seu ovo.
Na esfera individual, a aventura épica daquele Franz que tanto ansiava por uma vida decente acaba por mostrar que “as coisas funcionam de uma maneira que os provérbios mais idiotas acabam por dar certo”, e “se um homem acredita que agora está tudo bem, nem tudo está tão bem assim”. Em sua provação, todos os trajetos previamente desenhados se dissolveram no correr dos dias. E como lhe sussurra a Morte poucos instantes antes de consumada sua primeira existência (sim, Döblin o ressuscitará, e com outro nome), ele foi cego, atrevido e arrogante ao esperar que “o mundo se transforme naquilo que deseja”. “O mundo não se importa consigo”, ela lhe diz ainda. E Franz entende: se “o homem põe, Deus dispõe”. Pouco adianta querer ser maior que o destino.

 
* Resenha publicada na capa do suplemento Ideias (Jornal no Brasil)


O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *