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A nação do filme

A nação do filme

Os EUA e suas novas identidades: uma nação imaginada pelo cinema

Em artigo recente, publicado no jornal “The New York Times”, Simon Schama valeu-se do debate sobre o atentado de 11 de setembro de 2001 para analisar historicamente as relações da cultura americana com a identidade nacional. O professor da Universidade de Columbia citava as impressões de Alex de Tocqueville, que ao chegar à América constatou a impossibilidade de a epopéia ianque representar, “ao contrário do que propagavam os tribunos da felicidade, um processo infenso à calamidade”, como bem poderiam argumentar aqueles que foram vítimas de confinamento (os escravos) ou aniquilação ecológica (os nativos).
Esse mito de um destino manifesto capaz de condenar os americanos ao júbilo permanente, a que Schama alude, talvez tenha ecoado no cinema como em nenhuma outra arte de massa. Desde meados do século passado, Hollywood simbolizou importante instrumento no desenho de uma noção de identidade nacional permeada pelo heroísmo. Tal cenário, no entanto, vem sendo conflagrado nos últimos anos, por intermédio de filmes que promulgam uma reescrita da história. É com base nessa onda contranarrativa que o professor Robert Burgoyne, titular da cadeira Estudos Cinematográficos na Wayne State University, compõe seu mais recente trabalho, o livro “A nação do filme”, lançado no Brasil pela Editora da UnB.
Burgoyne baseia-se na análise de filmes que dão voz aos excluídos da História pública oficial e retratam o país em momentos de crise: a guerra civil (em “Tempo de glória”), a luta entre Estado e os nativos (“Coração de trovão”), o assassinato de Kennedy (“JFK – A pergunta que não quer calar”), o conflito no Vietnã (“Nascido em 4 de julho”) e os anos 60 (“Forrest Gump – O contador de histórias”). O autor sublinha que essas produções realçam o poder de “pertencimento nacional” de novas categorias, que se daria não sob o estreito modelo étnico do sangue, mas dentro de um pluralismo cívico que compreenderia a nação como um lar para todos, sem barreiras de raças, credo ou cor.
Não se trata, contudo, de simples processo substitutivo. Ao interrogar a reserva de imagens constituintes do que chama de “ficção dominante”, Burgoyne nota o surgimento da proposta de uma “identidade transversal” que foge ao núcleo rígido da verdade histórica sem deixar de estabelecer com ela uma interessante articulação. “A identidade social, tal como concebida nesses filmes, não se origina ‘de cima’, nem ‘de baixo’, com a etnia ou a raça, e sim de maneira transversal, por meio de relações horizontais, cujo caráter antagônico e transitivo é mais bem representado em termos de ‘dentro’ e ‘fora'”, observa.
Curioso notar o modo como, apesar de confrontar a imagem de nação construída historicamente pelo cinema, os filmes estudados no livro se mantêm ligados à tradição hollywoodiana se examinados sob o aspecto formal. O desafio a versões consagradas do passado americano se dá por meio da evocação de gêneros como o faroeste, o filme de guerra e o melodrama.
Burgoyne destaca também que, em nome de uma narrativa mais inteligível, são permitidas licenças dramáticas, que por vezes fazem erodir os discursos factuais e criam uma fronteira permeável a controvérsias quanto ao rigor histórico. No entanto, esta questão é, para o professor, secundária diante da desejável exposição das fissuras existentes entre o passado convencionado e personagens até então coadjuvantes da História. Os filmes sugeririam a possibilidade latente de haver “muitas histórias, talvez plurais e conflitantes, num dado momento histórico”.
A seleção das cinco produções não se pautou pela total adesão do autor à qualidade estética das obras. Ao comentar, em diferentes capítulos, cada um dos trabalhos, Burgoyne não se abstém de criticar alguns aspectos, principalmente quanto a um dado que pode à primeira vista soar paradoxal: a profusão de estereótipos. Mesmo tentando questionar alguns dos códigos da nacionalidade americana, os roteiros dão azo a pequeninas escorregadelas.
Sob uma narrativa marcadamente acadêmica, Burgoyne conclui o estudo com suas considerações sobre “Forrest Gump”. Se os demais filmes desenham cenários conflitantes com o passado, a produção dirigida por Robert Zemeckis maneja de forma singular a memória coletiva na reorganização de alguns dos principais eventos da História americana, explicitando, em síntese, a tensão entre os dois olhares possíveis. Ao longo da trama, correm paralelas as distintas versões de uma História pública, recheada de agitação social e violência política, e de uma história privada, a de Forrest, alegoria da nação ideal. Na exploração e na comunicação entre esses dois vieses, o filme resume a idéia que de fato norteia o livro de Burgoyne: evidenciar a efetiva capacidade do cinema, mesmo em tempos globalizados, de imaginar a identidade de uma nação.

 
* Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)


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