
O doce-amargo da vida
A vida em matéria bruta, flagrada pelo olhar virgem de quem experimenta o doce-amargo das primeiras sensações e sobressaltos, emerge com delicadeza e lirismo em Dias raros, o novo livro de João Anzanello Carrascoza, recém-lançado pela Editora Planeta. Narrados sob a ótica de quem se encontra na tênue fronteira entre os mundos infantil e adulto, seus dez contos não hesitam em buscar na metáfora o substrato capaz de dar conta do susto que é o amadurecimento. A obra impressiona pela organicidade e pela prosa sóbria e sofisticada do autor, já conhecida de trabalhos anteriores, caso do ótimo Duas tardes.
Cerzidas em fiapos de enredo, as tramas de Dias raros engendram pequenas iluminações que os personagens dividem com o leitor, como o "ampliar-se" que o menino de "Cidade-mundo" saboreia ao conhecer a metrópole: "Saíram ainda escuro, a manhã hesitava, uns cheiros de dia novo pairavam no ar, e o menino se ria, no feliz de fazer uma viagem, coisa mínima para a maioria, ir de um aqui a um ali, costurar as margens do cá às do lá, mas para ele a raridade que raiava. (...) Iam eles, mãe e filho, e entre ambos, apertada, a felicidade do menino, temendo alargar-se, balão não de todo inflado pela ameaça de explodir". Era um "tudo demais para os braços miúdos" do garoto que, "de um sobressalto ao outro", "menino suspenso até outro menino", crescia.
O deslumbre com a cidade retorna em "Além dos trilhos", história da jovem que vivia a banal rotina do lar até o dia em que o pai resolve levá-la num passeio a dois. Ela, "flor aberta para descobertas", "matéria pura de esperança", conhece então aquela felicidade que mestre Guimarães Rosa dizia achar nas "horinhas de descuido" - e que chega a "doer". Uma dor boa, contudo. "Por ter, sem possuir, aquilo a qualquer hora que quisesse – a paisagem, o céu sobre sua cabeça, a cidade a seus pés. Ter não possuindo", como observa o narrador.
A viagem, como se nota, é elemento recorrente nos contos, em geral indicando o "percurso" durante o qual algo se modifica no interior dos personagens. Em "Balança", é o menino que parte em companhia do pai caminhoneiro. Em "Dias raros", o protagonista que sai de sua cidade para passar férias com a avó. Assim como em "Ponteiros" duas famílias põem os carros na estrada para saltar por alguns dias "das tarefas para as delícias", e no lancinante "Dor futura", em que o protagonista dirige enquanto sofre em silêncio pela doença terminal.
Sim, porque o universo da infância não é pintado somente em cor-de-rosa. O livro contempla questões como a perspectiva da morte, erigida na crueza bela do conto "Chamada", que arrebata ao revelar o diálogo recheado de não-ditos entre a mãe enferma e a filha que sai para estudar. A mãe, com "os olhos inchados de insônia, nos quais ainda se podia apanhar a noite, como uma moeda no fundo do bolso"; a filha, sentindo o peso de deixá-la ao informar que rumará para a aula: "A mulher escutou como se a filha nada tivesse dito senão Vou para a escola, mamãe, e ignorasse que existiam outras palavras, agarradas aos pés dessas, esguichando silêncio".
As felizes construções de Carrascoza brilham também em "Janelas", relato da visita do protagonista à sua irmã, cuja casa conta, através dos quadros, das paredes, dos bibelôs da cristaleira, do extrato bancário sobre a mesa, uma história de solidão. O homem surpreende-se ao encontrá-la com dois dentes a menos na boca. E explorando tal espanto, o autor constrói com destreza mais uma viagem, desta vez temporal, que transporta o homem para o velho quintal da casa dos pais, onde, "à sombra das videiras" e alheios "às ciladas do futuro", ele e a irmã brincavam, e os dois dentes faltando eram apenas sinal da idade.
A infância surge, então, como espaço do que foi perdido, aceno algo semelhante ao do comovente "Rosa do deserto", que descortina o (des)encontro fortuito entre um homem e uma mulher. Seduzido pelo olhar da moça, ele se confessa "desacostumado com a escrita dos gestos" e surpreende-se que alguém, "com tão pouco esforço, tivesse laçado no vácuo o menino que se perdera dele", devolvendo-o em seguida "sem dizer uma só palavra", quando "já mal conseguia encontrar no espelho o homem que vivia à sua superfície". Num lapso de ilusão, em poucos instantes o protagonista constrói toda uma história para o casal – coalhada mais de perspectivas do que de memória - até que algo (a covardia, talvez?) freia o "mecanismo dos sonhos" – e o leva de volta à "imensidão de suas perdas".
Mas num livro com tantos pontos altos, o conto que mais se destaca é o muitíssimo bem-construído "Umbilical", erigido em longo parágrafo cujo ritmo é marcado apenas pelas vírgulas que entremeiam as vozes da mãe e do filho. Expondo uma ousadia formal ausente do restante da obra, Carrascoza estabelece uma conexão perfeitamente harmônica entre as frases dos dois personagens, envoltos no misto de amor e comunhão que distingue as relações atadas pelo cordão umbilical e, embora "invisível", sempre une mãe e filho. O fio que permanece, apesar dos sucessivos partos que nos levam do menino ao homem.
E apesar de nossas sucessivas perdas, como aquela que fere de forma indelével o menino de "Dias raros" quando retorna das férias na casa da avó, para onde resistira a ir. Sofrera quando para lá seguiu. Sofrera no momento de voltar para casa. E não compreendia a razão. Até que, "num clarão", vislumbra uma resposta: "Era aquilo. Sempre uma ida às coisas e sua seqüente despedida. Na mesma hora que ganhava a vivência, nele ela se perdia. Sorte que vinha outra, a cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituída. E as pessoas nesse renovar-se, envelhecendo. As pessoas no meio, com suas raízes sujas de terra, cavoucando seus mistérios, bem-querendo-se, e juntas, acima das malqueridas ausências. E todas, todas, o tempo inteiro, indo embora".
Humano, demasiadamente humano.
Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso (O Globo)
