
Coletânea de contos apresenta a dor e o prazer das primeiras descobertas
Pegar carinhosamente pelas mãos os leitores que começam a debruçar-se sobre a vida adulta e levá-los para caminhar pelos bosques da ficção é o evidente objetivo da seleta de contos De primeira viagem. O livro reúne narrativas inéditas de Ana Miranda, Fernando Bonassi, Milton Hatoum, Moacyr Scliar, Paulo Bloise, Tony Belloto e Heloisa Prieto - organizadora da coletânea -, além de ''Juventude'', de Joseph Conrad, e de um texto em prosa poética de Arthur Rimbaud, que serve como epígrafe da publicação.
Ao uni-los, costurando e dando organicidade à obra, uma situação repete-se em todos os contos: no centro da trama, os protagonistas enfrentam desafios diante dos quais se revelam ''marinheiros de primeira viagem'', conforme alude o título. São ritos inaugurais, que podem se dar na forma da descoberta do primeiro amor ou do sexo, no desafio de uma reportagem, no pasmo diante da insanidade... Ou seja, em circunstâncias que desvelam, cada qual a seu modo, as dores e delícias que acompanham o amadurecimento.
Como costuma ocorrer em compêndios do gênero, há certa irregularidade entre os textos arrolados, tanto sob o aspecto qualitativo quanto - e ainda mais acentuadamente - com relação ao olhar, por vezes altivo e em outras revestido de saudosismo, direcionado ao tempo da juventude. Tal latência está presente já nas duas ''iluminuras'' de Rimbaud que abrem o livro. Na terceira parte de ''Vinte anos'', ele descreve ''como estava cheio de flores o mundo no verão''. Na seguinte, porém, ressalva: ''Quanto ao mundo, quando saíres, em que se tornará? Em todo caso, nada das aparências atuais.''
A magia, o alumbramento e a beleza das flores que pareciam confundir as estações para o poeta francês repetem-se, por exemplo, em ''O primeiro amor'', de Ana Miranda. A autora é precisa ao descortinar em primeira pessoa o vulcão de sentimentos que domina a protagonista, uma menina platonicamente apaixonada pelo jovem jogador de basquete. ''Sozinha, no banco de trás do carro, eu olhava a paisagem do lago, do mato, da Lua que brilhava no céu e se refletia na água, que era a mesma paisagem de sempre, do caminho de volta do clube para casa à noite, mas havia alguma coisa diferente naquela paisagem, lobos nas sombras, ruídos, ameaças, frutas de sabor estranho, ela me convidava a entrar, e eu me vi correndo no mato, desabalada como se fugisse, enquanto ouvia as batidas da bola na quadra batendo pá pá pá repetidamente'', relata no longo parágrafo que encerra o conto, intensificando o turbilhão de novas sensações que a domina. Alegria semelhante será experimentada pelo jornalista que se vê prisioneiro do perfume de uma colega de trabalho em ''Mocidade, nove letras, horizontal'', de Belloto, e pela contadora de histórias que se encanta com a sabedoria infantil, em ''Era uma vez... pela primeira vez...'', de Prieto.
Outras narrativas privilegiam episódios em que as experiências impõem-se sem tanto júbilo. Em ''Varandas da Eva'', Hatoum segue os preceitos do conto clássico ao reservar para o leitor uma surpresa final na história do menino que começa a tornar-se homem quando conhece o sexo, e ainda mais ao notar um dia, quase atônito, que as ''complicações'' multiplicaram-se, ''as respostas esquivaram-se das perguntas''. Há ainda o rapaz que sofre, ''chorando em silêncio'', ao notar que a amada enlouqueceu (em ''Teste vocacional'', de Bloise); o menino que teme horrivelmente a cobrança social dos colegas (em ''O sorriso de Lúcifer'', de Scliar); e o adolescente que se depara com uma blitz no ambiente conflagrado da metrópole (em ''Uma viagem dentro da noite'', de Bonassi).
O ponto alto do livro, contudo, é mesmo o mellviliano texto de Conrad. Ao relembrar para amigos também já maduros suas aventuras náuticas, o protagonista Marlow encena metaforicamente o teatro da própria existência. ''Ah, a juventude! Sua força, sua fé, sua imaginação! Para mim, aquela nave não era um traste velho transportando um monte de carvão pelo mundo em troca de um frete -- para mim ela era o empenho, a prova, o julgamento da vida'', exulta ele, ao comentar as dificuldades da carcomida embarcação que inunda e depois pega fogo durante sua viagem a Bangcoc. Conrad constrói cenas emblemáticas, como a que registra uma das tábuas do barco já quase destruído projetando-se para fora do casco, ''um passadiço por cima do mar profundo e levando à morte''. Como se o destino convocasse Marlow a caminhar sobre a tábua, cuja extremidade o personagem parece vislumbrar enquanto expõe seu périplo para aqueles homens com os ''rostos marcados pelo trabalho duro, pelas decepções, pelo sucesso, pelo amor''; com os ''olhos cansados procurando ainda, procurando sempre, procurando ansiosos por alguma coisa na vida que, enquanto se espera por ela, já se foi, passou sem ser notada, em um suspiro, em um momento fugaz, junto com a juventude, com a força, com o romance das ilusões''.
Resenha publicada no suplemento Idéias (Jornal do Brasil)
