Voltar para Página Principal
Resenhas Literárias
Clicando nos botões ao lado você aumenta o tamanho da fonte do textoDiminui FonteAumenta Fonte

Palhaços

Grotescos palhaços, grande troça do sublime

’I Clowns", documentário com tintas ficcionais dirigido por Fellini em 1971, provocou um levante nos picadeiros italianos. A produção recebeu duras críticas dos profissionais do circo, principalmente devido à seqüência na qual o historiador Tristan Remy questionava a razão de fazer um filme sobre uma arte "em extinção". O equívoco, ao menos parcial, da previsão de Remy fica evidente após a leitura de "Palhaços", estudo histórico e antropológico de Mário Fernando Bolognesi.

O livro enriquece a parca bibliografia sobre o tema e baseia-se num mapeamento de três anos em 15 estados brasileiros. Bolognesi conjuga dois pólos distintos, mas complementares. Paralelamente à rigorosa pesquisa e à investigação empírica (ele entrevistou palhaços de 57 circos), o autor, ex-trapezista, valeu-se da sua experiência.
Os primeiros capítulos tratam do surgimento do circo moderno, que viria reorganizar elementos dos espetáculos da Antigüidade Greco-Romana, conjugando-os a formas expressivas de ambulantes das feiras populares. O caráter religioso e estatal dava lugar, com a cobrança de ingressos, a um perfil comercial. Tal fato, capital na história do circo, ocorreu por volta de 1770, com o Anfiteatro Inglês, que exibia atrações em arena fechada.

Fartamente ilustrado, "Palhaços" acompanha também os primórdios do circo no Brasil, com ciganos e estrangeiros. Aqui o circo ganhou traços particularíssimos, como o caráter familiar. Tornou-se tradição transmitir de pai para filho o aprendizado sobre as artes do picadeiro, da montagem da lona aos desafiadores exercícios do trapézio.

Bolognesi também mostra como as esquetes inicialmente limitavam-se à pantomina, já que o diálogo era exclusivo do teatro. Tal interdição, em países como a França, dava-se por regimento governamental, e a abolição da norma (em 1893) viria a se revelar fundamental para as ditas "entradas" - que, nos diálogos, exploram aspectos humorísticos da vida extra-lona.

Inicialmente, cabia aos palhaços apresentar "reprises", performances rápidas satirizando números sérios do circo. Ao efeito sublime do trapézio, por exemplo, contrapunha-se o grotesco de figuras desajeitadas, à beira da idiotia. A interseção entre opostos localiza-se na reverência ao corpo. "O espetáculo do circo não se dirige ao intelectualismo do espírito. Ele tem o corpo como a base primordial da cena, quer seja sob os moldes do sublime corpo acrobático, quer seja o grotesco do palhaço", anota o autor.

Com isso, Bolognesi alude a considerações de Bergson sobre o riso - quando o filósofo detecta no corpo o ponto de fuga do trágico para o cômico -, discordando contudo que tal passagem implique uma espécie de "coisificação". As cambalhotas, os movimentos, os saltos, para Bergson, transformariam "homens de carne e osso" em "bolas de borracha". Entretanto, diz Bolognesi, se é verdade que o palhaço foca sua atuação no corpo, a vestimenta, os gestos, a maquiagem, a voz, enfim, todos os elementos que ajudam a materializar sua imagem revestem-se de singularidade que o torna, simultaneamente, ator e autor - da personagem e da interpretação.

O livro ainda explicita o conflito exposto na dupla que domina encenações: o Clown Branco e o Augusto. O primeiro representa a ordem e o outro mantém-se à margem, uma "escada" para o parceiro. O professor identifica nessas máscaras antagônicas "marcas da sociedade classista". "Duas das principais características da sociedade burguesa estão contempladas: a divisão de classes e a expressão da subjetividade", afirma, denotando deslocado viés marxista num dos (poucos) paralelos infelizes, já que, como ele o evidenciará adiante, a politização do espetáculo cômico circense só ocorre fortemente depois da Revolução Russa.

A parte final é dedicada ao registro do repertório de palhaços brasileiros. Trabalho importantíssimo, já que em geral se dispensam roteiros escritos. Na arte da estripulia, sempre persiste a função de bagunçar o estabelecido, fazer troça do sublime. Ou, como diz o entrevistado Charlequito, traduzir "a forma ridícula da vida e do homem", que teima em desdizer Tristan Remy sempre que soa a canção: "Vai, vai, vai começar a brincadeira!".

Resenha publicada no suplemento Prosa & Verso • O Globo