

Com mais de cem músicas gravadas por artistas como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Nana Caymmi, Martinho da Vila e Leny Andrade - em resumo, pela gema da música brasileira -, Moacyr Luz conjuga em suas canções dois elementos aparentemente díspares. Se procura nutrir-se nos sumos de um samba ancorado na tradição de mestres como Noel Rosa, Cartola e Nelson Cavaquinho, que conhece como poucos, aprecia em paralelo os complexos quitutes harmônicos do cancioneiro mais ligado à chamada MPB. É da feliz intercessão entre essas duas vertentes que nasce sua singularidade como criador.
Tal singularidade está também - e de forma inexorável - ligada à cidade em que vive. Moacyr não é daqueles artistas que se escondem – e muitas vezes acabam deixando sua arte perder a vitalidade das ruas. Pelo contrário: quem circula pelas veias da Cidade (ainda e sempre) Maravilhosa, costuma encontrá-lo pelas tardes e pelas noites, seja cantando, seja simplesmente conversando com os muitos amigos, acompanhado do fiel violão. Esse Rio de Janeiro que tanto lhe é caro já foi esquadrinhado em canções como a pérola Só dói quando eu Rio (parceria com Aldir Blanc) e o hino oficioso Saudades da Guanabara (com Aldir e Paulo César Pinheiro). Inspirou também o projeto A sedução carioca do poeta brasileiro, CD-tributo no qual o compositor transformou em música poemas cujo objeto é a cidade.
O disco representou um primeiro namoro com a literatura, que se efetiva com este livro, no qual a paixão de Moacyr pelo Rio transfigura-se no relato de histórias - reais ou imaginadas, pouco importa - ambientadas nos botecos que são uma das irrefutáveis marcas da cultura do carioca. Ou nos butiquins, como prefere o autor, consagrando de vez a acertadíssima corruptela instituída por seu parceiro Aldir, e respeitada aqui. Às crônicas leves e saborosas como o jiló que o violonista prepara como ninguém, foram anexadas entrevistas com boêmios célebres e ilustrações de Jaguar, que acrescentam ainda mais tempero aos textos e tornam este Manual de vez irresistível. Pelo menos a todos aqueles que, como o próprio Moacyr, “não resistem aos butiquins mais vagabundos”.
Marcelo Moutinho (organizador)