Rua de dentro

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  • Editora Record
  • 2020
  • ISBN 9788501118592
  • Capa Tipo Brochura
  • 128 Páginas

A paisagem do Rio de Janeiro emerge como uma personagem onipresente – ora principal, ora secundária – nos 13 contos que compõem, feito um mosaico, o livro “Rua de dentro” (Record), do escritor Marcelo Moutinho. Mas não espere os cartões postais mais conhecidos do país, os grandes acontecimentos e nem tampouco experimentalismos formais. A escrita de Moutinho é traçada artesanalmente nos detalhes, com uma beleza lírica sem pressa em se revelar. É transitando entre a poesia e a aspereza de ruas e esquinas ordinárias que formam o cenário urbano do subúrbio carioca, uma geografia familiar a esse escritor de Madureira, que Moutinho encontra a sua matéria-prima; homens e mulheres periféricos, que vivem à margem, e amam e sonham e se desiludem, como qualquer um.   São pequenos encontros em meio a uma série de desencontros e a constatação de que a “felicidade sempre teima por acabar”.

Ao descrever pequenos fragmentos do cotidiano, por vezes, um mero instante, Moutinho trata em suas narrativas breves de pessoas e famílias, mas não a tradicional família brasileira. Há também casais separados, amores perdidos, transexuais, lésbicas e gays que vivem à sombra, temerosos de que seus desejos mais íntimos sejam descobertos. O autor nem sempre revela a identidade de suas personagens. De algumas, ele guarda o anonimato, amplificando apenas seus dramas, suas dores e perdas.

“Purpurina”, conto ambientado em Oswaldo Cruz que abre o livro, retrata pelos olhos de uma jovem trans, que se divide entre a prostituição e a faculdade de Direito, a vida das travestis da Zona Norte. Ao som de Maria Bethânia e nas noites abafadas do bairro, Moutinho vai pouco a pouco apresentando as transformações do corpo, os códigos das ruas e as constantes humilhações de uma parcela da população que, como reflete a narradora, “está invariavelmente na borda. Da natureza, dos limites, das interdições, das possibilidades, dos significados.”

Na sequência, em “Um dia qualquer”, o escritor conduz o leitor a um passeio quase cinematográfico por logradouros típicos da paisagem urbana carioca, numa sequência de cenas corriqueiras que remetem imediatamente às tais ruas de dentro a que o título da obra se refere. Acompanha-se a rotina da padaria de Seu Risério, cujas portas de ferro “se levantam as sete, como ontem, anteontem, semana passada”. É possível seguir o vai e vem das jovens em seus uniformes escolares, flagrar os camelôs montando logo cedo seus pequenos comércios ilegais e sentir também o aroma de maracujá, manga e caju das lojas locais de sucos.

“Oxê”, por sua vez, é um conto talhado na claustrofobia do desejo amordaçado. O cenário é o jogo da Seleção Brasileira durante a histórica derrota para a Alemanha na Copa do Brasil. No campo, o zagueiro Betão é xingado pela torcida atônita com a goleada. Na arquibancada, um dos seguranças da partida vive um dilema. Proibido de se voltar para o campo para assim manter a atenção nos torcedores mais aviltados, o vigilante, que vive um caso amoroso secreto com o jogador de futebol, enfrenta sozinho toda a sua angústia.

Em outras narrativas, o leitor ainda se depara com a amizade entre dois meninos, que, morando na mesma cidade, vivem em mundos e geografias desconectados, a senhora maltrapilha, alvo de comentários mordazes, que almoça invariavelmente no mesmo restaurante a quilo, e a corrida de táxi que subitamente evoca memórias do passado. Há ainda uma visita um tanto constrangedora do ex-marido a sua ex-mulher, que convivem como “dois adultos civilizados”, e a “militante” sem apego ideológico que empunha a bandeira de candidatos eleitorais apenas na esperança de conseguir pagar as contas do mês.

Como diz o texto de orelha, assinado pela ensaísta e escritora Maria Esther Maciel, Marcelo Moutinho tece, em “Rua de dentro”, “não uma mera recolha de contos, mas uma costura orgânica de histórias sobre diferentes vidas periféricas, sobre pessoas em estado de exclusão (…) E, dessas existências aparentemente ordinárias, o autor extrai uma grandeza extraordinária, capaz de remexer, também, as estruturas de quem entra no livro.”

Contos de Marcelo Moutinho cruzam o Rio entre dores e afetos
Em ‘Rua de dentro’, carioca percorre encruzilhadas e contradições da cidade
Beatriz Resende*

Carioca, nascido em Madureira, imperiano de raiz — a tradicional Escola de Samba Império Serrano também é do bairro —, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho atravessa o Rio de Janeiro com arrebatamento na vida e na literatura.

Difícil, em tempos atuais, declarar-se um amante do Rio: água contaminada, violência, desmandos, desprezo dos dirigentes por tudo que agrada aos cariocas. Situações que os habitantes podem contribuir para modificar, afinal as eleições estão aí.

Como mesmo assim o escritor é um amante da cidade, trata de outras dores menos conjunturais. É da desigualdade que vai além dos abismos entre o morro e asfalto, do cotidiano polarizado entre as famílias, das dificuldades em cruzar a cidade, da intolerância diante de opções do uso do corpo, do gênero, do sexo, que “A rua de dentro” trata. A intolerância religiosa, a exclusão social ou familiar, a dificuldade de ser jovem entre grupos conservadores, o cotidiano de gays, lésbicas, LGBTS+ fazem com que momentos que deveriam ser simples, como uma viagem de táxi pela cidade ou um jantar em família, possam se transformar em conflito.

Os contos se iniciam pelo sintomático “Purpurina” com a experiência de exclusão do jovem que se transforma na trans e vai circular pela Lapa, Centro, entornos da Glória, descobrindo a solidariedade das companheiras até o reconhecimento emocionado do pai diante da carteira de advogada de Camile, que nasceu Gustavo.

Em “Um dia qualquer”, um homem comum atravessa o centro carregando uma dor profunda e espalha o sofrimento pelas ruas: “Buzina, bordões de venda, o apito do guarda de trânsito. Um cachorro lambe a quentinha que o mendigo acabou de comer, refestela-se com os restos de feijão, enquanto seu dono dorme sobre duas folhas de jornal. A normalidade, por alguns segundos, se revela insuportável”.

São travessias diversas até chegar a “Vanessa”, comovente numa quase secura: a jovem de Lins de Vasconcelos que sonha estudar odontologia e abrir um consultório no Méier, mas que do colégio estadual à casa passa por uma troca de tiros e, infelizmente…

Atenção, Moutinho não fala pelos outros, mas ficcionaliza as histórias que nos mostra, chegando a usar o discurso em primeira pessoa quando essa pessoalidade dá impulso à narrativa.

Na praça sob o viaduto, no restaurante a quilo que lembra os aposentados de Copacabana, no irritante engarrafamento do centro, no estádio de futebol, nas casas de subúrbio ou de comunidades, os contos vão atravessando o que Bruno Carvalho, jovem professor de Harvard e estudioso de cultura urbana, apontou em seu recente “Cidade porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro” . Porosidade, para ele “tem a ver com trânsito, circulação, fronteiras fluidas”.

Na reflexão teórica de Bruno, como nos contos de Marcelo Moutinho, para compreender a cidade é preciso observar espaços que nem sempre enxergamos como pertencentes à ela. Na falta de identificação com o que o poder público nomeia como nação, estado da federação ou município, a identidade dos habitantes, cada vez mais, se constrói pela territorialidade, pelo espaço de trocas e circulação.

Para Carvalho, nesse momento histórico “de desilusão, brutalidade e aparente esgarçamento do tecido social”, é ainda mais importante “ressaltar o protagonismo de grupos marginalizados e a recorrência de mediadores culturais na vida da cidade”. O escritor pode ser um desses importantes mediadores.

Importante observar que os contos de Moutinho adotam uma linguagem que em muito se aproxima da crônica, gênero tão nosso, que partilha com o leitor certa intimidade, espécie de vizinhança, conduzindo quem lê pela mão, caminhando junto. Da cidade maravilhosa à cidade partida, atravessamos juntos o Rio em tempos de decadência de valores, direitos e ideais.

Percorrendo com sensibilidade becos e encruzilhadas talvez possamos, quem sabe, chegar aos caminhos do afeto nesse Rio de Janeiro que já foi de São Sebastião ou Oxóssi.

* Beatriz Resende é professora de Letras na UFRJ e pesquisadora do CNPq e da Faperj

Marcelo Moutinho revela o discreto charme dos irrelevantes

Escritor lança o livro de contos ‘Rua de dentro’, com 13 histórias

Ubiratan Brasil

Marcelo Moutinho é um escritor com olhar aguçado – enquanto a maioria das pessoas concentra o olhar nas belezas naturais da cidade do Rio de Janeiro, ele, nascido e criado em Madureira, busca as áreas menos privilegiadas, onde vivem personagens comuns, às vezes vivendo à margem, quase na invisibilidade social. É ali em que ele busca inspiração para histórias banais, mas extremamente humanas. É o que se observa em seu novo livro de contos, Rua de Dentro (Record), que ele lança nesta terça (04), em São Paulo, na Livraria da Travessa.

São 13 histórias curtas que privilegiam os detalhes, cuja beleza lírica se revela lentamente. Afinal, seus personagens não despertam imediata atenção, mas, à medida que se conhecem seus sonhos e asperezas, a identificação se solidifica. Moutinho consegue provocar surpresas pela simples forma de utilizar as palavras – como no conto inicial, Purpurina. Sobre isso, respondeu as seguintes questões.

Qual a relação que esse livro tem com o anterior, Ferrugem, que também apresenta o cotidiano de personagens pouco representados na literatura brasileira contemporânea?

As duas obras se aproximam na perspectiva de reunir histórias situadas no universo da classe média baixa, buscando dar protagonismo a personagens que em geral aparecem como coadjuvantes. A cobradora de ônibus, a senhora que almoça todos os dias no mesmo restaurante de comida a quilo, a costureira, o motorista de táxi… Tanto Ferrugem quanto Rua de Dentro trazem indivíduos de existências aparentemente ordinárias, mas a tentativa é de iluminar a potência de suas vidas, para além dos escaninhos limitadores aos quais os estamentos populares costumam ser relegados: o da violência e o da falta de recursos.

No novo livro, trabalho mais fortemente o impacto que a experiência coletiva é capaz de provocar na esfera íntima. As ruas de dentro são aquelas que, a exemplo dos personagens do livro, não têm o glamour da vias principais. Mas são também as ruas que trazemos dentro de nós, como marcas do mundo.

As miudezas do dia a dia normalmente passam despercebidas ao nosso olhar. Para criar seus personagens, você faz qual tipo de pesquisa?

Meu maior campo de pesquisa é a rua. Walter Benjamin dizia que o escritor deve andar na cidade como se estivesse em uma selva. Ele se referia à necessidade de apurarmos os sentidos. Na selva, se você não fica absolutamente atento, a tendência é que pereça.

O espaço urbano, contudo, costuma provocar cegueira. Somos cegos de tanto vê-lo, como cantou o Caetano Veloso em O Estrangeiro. Quando a circulação pelas ruas se dá sob a premissa dessa atenção, conseguimos perceber o manancial de personagens, e ideias, e diálogos, que elas nos oferecem. É uma matéria bruta que serve de base, de inspiração, para o trabalho ficcional.

Você acredita que os personagens de seus contos são mais representativos do Rio de Janeiro? Ou teriam um aspecto mais nacional?

Na época em que eu morava em Madureira, via o Méier, bairro vizinho e igualmente suburbano, como uma espécie de Ipanema. Um lugar mais chique, mais valorizado. A relação periferia/centro se fazia presente, mesmo que no âmbito de um microcosmo. Nas diferentes cidades e bairros do País, isso também acontece, não é algo exclusivo do Rio de Janeiro.

Além disso, a exclusão familiar, a tentativa de normatização dos corpos e do desejo, a intolerância religiosa, os conflitos familiares, são temas que transcendem fronteiras estaduais. Assim como o próprio tipo de personagem que protagoniza o livro, oriundo da classe média baixa. O indivíduo que tem um emprego sem grande charme, trabalha para pagar as contas, toma sua cerveja depois do expediente. Que só quer ser feliz.

O conto é um gênero nem sempre bem compreendido – como explica sua atração por esse tipo de narrativa?

Mais que mal compreendido, o conto é um gênero maltratado dentro do universo literário brasileiro, das editoras às premiações. As exceções só confirmam a regra. Minha opção pelo conto se deve ao fato de que as histórias que imaginei até hoje pediam uma narrativa curta. E são elas que definem sua extensão. Não vou me forçar a escrever um romance porque o mercado assim o exige. Não escrevo ficção para agradar ao mercado.

Em todos os livros, no entanto, procuro certa organicidade. Eles não são um mero ajuntamento de contos, há sempre alguma lógica para o recorte, seja temática, seja de ambiência.

Você acredita que a literatura está dando conta da realidade de hoje, que é tão complexa e acelerada?

A realidade anda tão inverossímil que a literatura está tomando de 7 x 1, como o Brasil contra a Alemanha. Mas acredito, sim, que diante da lógica dual e simplista em vigor, os livros de ficção e de poesia podem trazer uma bem-vinda complexidade no olhar para o mundo. Fora do dogma e da certeza.

A amargura e o tédio são os grandes males contemporâneos?

Difícil não estar minimamente amargurado no atual momento político-social. E, de certa forma, Rua de Dentro é também uma reação a esse momento, ao trazer histórias que tratam de relações homo-afetivas, que se passam no espaço da favela, que mostram as cruéis consequências do machismo e da homofobia na vida das pessoas. São temas incômodos para parte da sociedade brasileira.

Voltando à sua pergunta, talvez um dos grandes problemas contemporâneos seja o mal-estar que nasce do cotejo com a vida alheia. Vidas editadas, diga-se. O sujeito olha para a persona virtual do outro e se sente menor, menos antenado, menos divertido. Aquela alegria de tinta guache não resiste a um escrutínio mais detido, mas é suficiente para causar angústia.

Seus contos têm uma melancolia discreta?

Acho que sim. Talvez porque não acredite nessa alegria compulsória e sem meios-tons que tanto sucesso faz hoje. Como grande fã do gênero, lembro-me dos versos de Vinicius de Moraes e Baden Powell: “O samba é tristeza que balança”. Esse aparente paradoxo está muito próximo do que é a vida da gente. E, como busco uma literatura próxima da vida da gente, a melancolia faz parte dela.

Moutinho e as cores da vida miúda

Nelson Vasconcelos

Alvíssaras! Tem novo livro do Marcelo Moutinho chegando às boas casas do ramo. “Rua de dentro” (Ed. Record – R$ 39,90) reúne 13 contos curtos e muito, muito cariocas, como seu autor, nascido na carioquíssima Madureira e, até por isso mesmo, fiel benemérito do Império Serrano. Coisa fina.

Moutinho vem consolidando com louvor sua carreira de homem das letras numa cidade que sempre foi muito feliz em produzir escritores ocupados em explorar suas belezas e tristezas, doçuras e amarguras.

Além de marcar presença em inúmeras coletâneas, o escritor chega agora à marca de sete títulos seus, sempre bem recebidos. “Ferrugem” (Ed. Record, R$ 39,90) levou o Prêmio Clarice Lispector/Biblioteca Nacional de 2017, deferência que merece respeito nestes tempos tão complicados na hora de reconhecer seus heróis.

Como se vê na “Rua de dentro”, o carioca, nascido em 1972, continua à vontade perambulando pela cidade. Seus livros anteriores, como “Na dobra do dia” (2015) ou “A palavra ausente“ (2011), já sinalizavam essa facilidade para retratar, a seu modo, os personagens e cenários do Rio, que tem sofrido cada vez mais com uma infame imobilidade por parte dos seus moradores.

Mais que isso, Moutinho mostra grande sensibilidade para ouvir e interpretar as palavras não ditas, os silêncios e os olhares dos seus personagens. Numa cidade que esbanja sensualidade e adora mostrar-se gratuitamente, eis aí um talento incomum. Mesmo em seus diálogos com sotaque suburbano, Moutinho deixa de lado o humor fácil das ruas e faz fluir o lirismo que ainda povoa a alma encantadora das ruas, apesar dos pesares.

Os contos de “Rua de dentro” circulam pelos subúrbios e pelas vias periféricas dos bairros. Deixemos de lado a Zona Sul Maravilha para conhecer outras versões da história. Das histórias, melhor dizendo, porque são muitas. Ganham voz, nos contos de Moutinho, travestis, peladeiros, garçons, crianças, costureiras…

Seus personagens são mais vivos do que quando os encontramos nas ruas – e eis outro mérito de Moutinho, que é trazê-los da escuridão, deixá-los falar sem intimidação.

Já os enredos, tão verossímeis, são bem bolados, intrigantes, curiosos – como o do cabo eleitoral que decididamente só está trabalhando numa campanha para garantir uns minguados tostões. Os conflitos são reais – como nas histórias de preconceito, racismo, estupidez.

Empatia é uma palavra-chave para entender o olhar carinhoso de Moutinho pelos seus personagens, os merdunchos de que falava João Antõnio e tanto têm chamado a atenção da literatura carioca mais recente, com autores como André Luis Mansur, Luiz Antonio Simas e Raphael Vidal, entre outros. Assim como esses, Moutinho tem a manha de prestar atenção nas cores da vida miúda.

E o melhor: “Rua de dentro” será lançado sábado (01/02) na mais carioca das livrarias, a Folha Seca (Rua do Ouvidor 37, no Centro). Tudo tremendamente informal, com direito a muito samba, choro e até uma roda de jongo. Mais carioca, impossível.

Ficção delicada

Autores contemporâneos trazem para a literatura nacional histórias com personagens que nem sempre estão em primeiro plano

Nahima Maciel

Eles se interessam por pessoas, por questões existenciais, pela dor do outro, mas também pela diferença, por olhar para o próximo como um ser humano e não como uma ameaça. Com livros publicados do fim de 2019 para cá, Marcelo Moutinho, Julián Fuks, Natalia Borges Polesso e Caetano Galindo levam a literatura brasileira para um patamar de delicadeza e de talento narrativo com histórias bem escritas e sensíveis.
O fato de ter crescido em Madureira, em uma família simples de comerciantes portugueses, tem uma certa relevância na maneira como Marcelo Moutinho constrói os personagens de Rua de dentro. Protagonizados por figuras normalmente à margem na produção literária brasileira, os 13 contos do livro trazem histórias de transexuais, moradores de favelas, casais homossexuais e vítimas do machismo.
Como em Ferrugem, livro de contos com o qual Moutinho ganhou o Prêmio Clarice Lispector, Rua de dentro faz um recorte com personagens de classe média baixa e, sobretudo, pessoas invisibilizadas pelos contextos sociais. “Muita gente tem falado em pessoas à margem da sociedade, mas não acho que estejam à margem. Elas fazem parte da sociedade, mas quando são objetos da literatura ou são colocadas em situações acessórias, sem protagonismo, ou vistas sob a lente de dois estereótipos: violência e falta de recursos”, explica o autor. A inspiração de Moutinho está nas calçadas do Rio de Janeiro, onde mora, no ônibus, nas esquinas da cidade e no dia a dia que passa distante do glamour da Zona Sul.
É o mesmo universo que interessa a Caetano Galindo nos contos de Sobre os canibais. As minúcias do cotidiano e as questões existenciais do ser humano, que já estavam presentes no livro anterior, Ensaio sobre o entendimento humano, voltam em uma prosa que se ancora na oralidade e na exploração da consciência. “Um gesto heroico histórico muitas vezes não me emociona mais que alguém que passa pela calçada da minha casa e de repente se abaixa para a amarrar o sapato. Sei lá. Parece-me um lembrete súbito da grande realidade, da realidade de verdade, premente, presente o tempo todo. Tipo tomar um copo d’água”, avisa o autor.
Os contos de Galindo são breves, funcionam, muitas vezes, como recortes e retratos e nascem de um desejo de “não explicar demais o que está ali”. Tradutor de grandes clássicos da literatura mundial – sua versão para o português de Ulysses, de James Joyce, é considerada uma das melhores – e professor da Universidade Federal do Paraná, Galindo diz que a maioria dos contos surge de uma imagem.
Nesse processo, ter trabalhado a fundo com tradução do melhor da literatura ajuda a manejar as técnicas narrativas. “Afia as ferramentas, né? O pouco que elas estejam afiadas”, conta. “Traduzindo você tem que abrir o capô das obras e ver como elas funcionam. Isso ensina muito sobre os mecanismos de condução literária. E eu tive muita sorte de só ter traduzido literatura muito boa. Aí, como que fiz anos de ‘estágio’ de escrita literária…”
A ruptura e a solidão conduzem a trajetória de Maria Fernanda no romance Controle, de Natalia Borges Polesso. Durante a adolescência, a personagem se vê confrontada com a ruptura ao descobrir que sofre de epilepsia. Ao mesmo tempo, precisa lidar com os desejos efervescentes das descobertas da idade e a paixão pela melhor amiga, o que complica tudo. A sensação de isolamento social pauta boa parte do romance em uma escrita na qual a dor e a delicadeza se cruzam de forma muito bonita.
Também é densa a prosa de Julián Fuks em Ocupação, uma espécie de sequência de Resistência. Em capítulos curtos, o autor retoma seu alter ego, o personagem Sebastian. A narrativa alterna entre as conversas do narrador-protagonista com moradores de um velho prédio ocupado no centro de São Paulo, a doença do pai e a chegada de um filho. A incerteza diante de possíveis perdas e de uma vida que se renova conduzem Sebastian às reflexões sobre os próprios limites da existência humana.
Três perguntas para Marcelo Moutinho
Em que lugar da imaginação você buscou os personagens de Rua de dentro?
Uso muito como matéria-prima a experiência de caminhar na rua. Primeiro, porque acho que todas as cidades têm uma linguagem, meio caótica às vezes, como no Rio.O bordão de um camelô, uma fala entrecortada de um celular, o transporte público, há vários estímulos verbais, sonoros visuais que estão no espectro da linguagem de uma cidade. Quando o escritor está atento, acaba tirando daí uma matéria-prima interessante para material ficcional.
Você diz que hoje estamos lendo mais o que se escreve nas favelas. Por quê?
O que aconteceu é que tem uma cena literária nas favelas muito forte agora possibilitada pelos saraus e feiras literárias e isso acabou revelando autores. Mas esse espaço continua meio despovoado e imagino que isso está ligado a essa ideia que vidas comuns não rendem literatura.
Faltam personagens periféricos na ficção brasileira?
Eu sou de Madureira, moro na Zona Sul e acho que há uma confusão entre representatividade e lugar de fala na ficção. É importante que haja representatividade das minorias, mas um escritor pode escrever sobre o que bem entender. O que acho é que as histórias acabam se repetindo por falta de circulação, mas circulação em lugares que têm o outro. Tenho muitos amigos que moram na Zona Sul e nunca foram a uma favela ou se foram, foram numa van numa expedição. Isso não é conhecer o outro, conhecer o outro é fugir do estereótipo. Quando você não conhece o outro, tende a ter mais medo. O Rio, como diz o Zuenir Ventura, é uma cidade em que as populações das áreas mais pobres vão às zonas de elite, seja para trabalhar, seja para usufruir dos equipamentos culturais, mas a maioria da elite não circula na cidade.

A grandeza dos pequenos

Geraldo Pena

Em seu sexto livro, “Rua de dentro” (Record), Marcelo Moutinho volta seu olhar para personagens e paisagens menos visíveis da cidade: a mulher trans de Oswaldo Cruz que quer se tornar advogada; a velhinha que apalpa sua coleção de sacolas plásticas enquanto devora o almoço no restaurante a quilo; o menino “do asfalto” que sobe o morro para o aniversário do amigo da favela; a militante de aluguel que abana a bandeira política da ocasião, sonhando conseguir pagar os boletos. Mais do que mirar em personagens das margens, imersos em suas miudezas corriqueiras e na poesia que mora em suas “vidas comuns”, Moutinho reafirma a grandeza de outros pequenos: a dos contos. Neste livro, ele comprova e amplia um amadurecimento narrativo conquistado no título anterior, o premiado “Ferrugem” (Record) – as explicações oriundas do jornalismo, sua primeira formação, deram lugar a uma bem-vinda opacidade, e ela banha personagens e desfechos. O escritor mostra ainda que o conto, muitas vezes desprezado pelo mercado editorial e pela grande imprensa, é o gênero em que a literatura brasileira brilha mais forte – como o sol que acorda os subúrbios para suas maravilhas corriqueiras. Nesta entrevista, Moutinho fala da gênese de “Rua de dentro”, da vida por vezes vertida em ficção e dos projetos futuros.

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O título do livro parece jogar com um ambiguidade. ‘Rua de dentro’ é ao mesmo tempo uma rua que deriva de uma rua principal – esta geralmente uma fronteira entre duas regiões importante de um mesmo bairro – e também uma rua por dentro, isso é, uma cidade que infiltra as subjetividades. Além disso, a foto de capa atiça a memória com um piso de caquinho, típico de um quintal suburbano – que faz a extensão da rua nas casas e vice-versa. Acho que o início de conversa poderia ser por aí, das escolhas temáticas e de personagens que fazem deste livro uma obra sobre as bordas da cidade.

MARCELO MOUTINHO: Sim. No primeiro sentido, o título faz referência ao recorte feito quanto aos personagens do livro. Assim como em “Ferrugem”, meu trabalho anterior, os contos se passam majoritariamente no universo da classe média baixa, e buscam destacar personagens da cidade que costumam estar à sombra dos holofotes. Uma mulher trans que se divide entre a universidade e encontros sexuais nos quais defende algum dinheiro, a garota moradora do subúrbio que sonha ser dentista, o segurança de estádio de futebol, uma costureira… São as chamadas “pessoas comuns”, colocadas aí muitas aspas, inclusive porque a perspectiva de “Rua de dentro” é iluminar suas vidas para além dessa existência aparentemente ordinária. Quanto ao segundo sentido do título, lembro uma das epígrafes, versos de um poema do Ferreira Gullar que dizem: “A cidade está no homem / quase como a árvore voa / no pássaro que a deixa”. Porque, sim, a experiência da vida em sociedade deixa marcas íntimas em nós, as tais ruas “de dentro” que passam a nos constituir.

Como foi a pesquisa para o  conto “Purpurina”? E como foi construindo as  escolhas que tiram sua personagem principal de uma zona de estereótipos?

MOUTINHO: A pesquisa se baseou na leitura de estudos de antropologia urbana sobre a vida das mulheres trans que trabalham com a prostituição e também em entrevistas. Tenho amigas trans e conversei muito com elas, que chegaram a ler o conto depois de finalizado. A preocupação era fugir dessa zona de estereótipos, mas igualmente que a pesquisa não solapasse a história ficcional. Ao criar uma personagem dividida entre a rotina dos programas sexuais e da faculdade de Direito, busco enfocar tanto a questão da discriminação – que praticamente obriga a mulher trans a se prostituir, já que costuma vedar seu acesso a outros ofícios –, quanto a quebra dessa premissa, inclusive porque elas vêm, com muito esforço e coragem, e à revelia do péssimo tratamento que costumam receber da sociedade brasileira, enveredar por caminhos diferentes. Quero tratar com naturalidade uma mulher trans advogada, porque não deveria haver nada de estranho nisso.

Nos dois primeiros contos do livro, temos a forte presença de mães ausentes – protagonistas com mães mortas. Até que ponto isso ajudou na superação da morte de sua própria mãe, Margarida, que morreu de forma abrupta há 3 anos?

MOUTINHO: No conto “Purpurina”, a mãe aparece como a figura mais compreensiva, dentro do núcleo familiar, quanto à decisão do menino em transformar seu corpo. Porque em geral é assim mesmo. As reações mais violentas vêm do pai que, encapsulado em seu machismo, não admite que o filho ganhe formas de mulher e, pecado dos pecados, faça sexo com homens. A morte da mãe entra na história muito mais como um recurso dramático para destacar a relação pai-filha. No outro conto, “Um dia qualquer”, a alusão à partida trágica da minha mãe é consciente. No poema “Funeral blues”, diante da morte de uma pessoa querida, o Auden escreve: “Que parem os relógios, cale o telefone / jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, / (…) Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, / escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu”. É esse o desejo de quem enfrenta a dor da perda, mas as coisas não são assim. A padaria continua abrindo, os boletos chegam igualmente e, pior, é preciso resolver questões burocráticas em cartórios, funerárias, cemitérios. O conto fala um pouco desse sentimento, traduzido pelo narrador na expressão “normalidade insuportável”. Não sei dizer se escrevê-lo ajudou na superação da morte, até porque acho que a gente nunca supera totalmente a morte da mãe, ou do pai. O fazemos é tocar a vida à frente, porque não tem outro jeito.

A dupla seguinte de contos, “Memória da chuva” e “Militante”, também opera numa reversão de estereótipos, estes nascidos da visão uma esquerda bem intencionada e/ou elitista a respeito, respectivamente,  da vida em uma favela, e do trabalho como “militante de aluguel”. O personagem das margens da cidade ainda é para você um desafio como escritor? E para nós, oriundos de uma classe média progressista, como cidadãos?

MOUTINHO: Todo personagem é um desafio, mas penso que uma das grandes capacidades do escritor de ficção é a de ser outro, ou outra, no corpo da história que narra. A pesquisa e as entrevistas podem ajudar muito nesse processo. Mas tão importante quanto elas é a vivência das ruas – e quando falo em rua, me refiro à cidade de forma ampla, em suas diferentes regiões, não apenas ao estreito do nosso bairro. O (filósofo) Walter Benjamin escreveu certa vez que o escritor deve andar pela cidade como se estivesse numa selva. Ele se referia à importância de aguçarmos os sentidos. Numa selva, caso isso não aconteça, possivelmente morreremos. Já no espaço urbano, muitas vezes desenvolvemos uma espécie de cegueira, anestesiados que estamos pelas mesmas paisagens, os mesmos estímulos. A observação do outro, sobretudo daquele que é diferente de nós, é fundamental para a criação literária. E a rua é o lugar onde a gente encontra o outro.

“Memória da chuva” condensa muito bem outras duas características do livro – o silêncio como “fala”, como informação, e os desfechos em aberto. Esse grau de  opacidade, que deixa a narrativa  sob uma espécie de névoa, foi a meu ver uma conquista de seu livro anterior, Ferrugem, radicalizada, no melhor dos sentidos, em Rua de dentro. Foi uma tarefa árdua se livrar da naturalidade explicativa do jornalismo?

MOUTINHO: “Rua de dentro” é meu sexto livro. Vivemos uma época em que a pressa impera, e o tempo da literatura é outro. Um autor vai sendo construído à medida que escreve seus livros, e sua voz ganha apuro. Então vejo essa marca apontada por você como algo que resulta de uma caminhada de quase vinte anos, nos quais algumas características foram ficando para atrás – entre elas o flerte com o modo de registro do jornalismo –, e outras foram surgindo. A “opacidade” acaba por dar maior participação ao leitor, ele pode completar os espaços vazios com sua própria experiência, com sua particularíssima fruição estética daquele conto. Se a luz é intensa demais, termina por solapar a zona de penumbra que busco no texto ficcional.

De maneiras muito distintas, os contos “Ocorrência”, “Cheiro”, “Retrós e linhas”  e “Endless love” também falam de amor transformado em desamor. Esta dor é o terreno mais fértil da literatura, especialmente para as histórias curtas?

MOUTINHO: Não diria que é o “mais” fértil, mas é bastante. Para a literatura, não só nas narrativas curtas, e da arte em geral. Porque é uma dor demasiadamente humana e não raramente desabrocha em mágoa, outro campo muito fértil.

“Endless love” traz o personagem Vidal, enfermeiro gente boa e passional que escuta as agruras de um taxista enquanto tenta chegar a um almoço entre amigos no Largo da Prainha. Vidal parece uma homenagem enviesada ao também escritor Raphael Vidal, dono do bar e espaço cultural Casa Porto, que fica no Largo da Prainha. No seu processo criativo, como ocorre este tipo de apropriação e de travessia entre realidade e ficção?

MOUTINHO: Gosto de inserir locais da cidade real na cidade ficcional, de modo a transformar as duas numa coisa só. E também tenho buscado inscrever, no texto literário, alguns espaços de pertencimento, como a mencionada Casa Porto. É uma forma de mapear a cidade para além dos cartões postais e de suas imagens-clichê. Lembro do dia em que uma leitora do “Ferrugem” veio comentar, espantada e ao mesmo tempo feliz, que nunca teria imaginado encontrar a Polo 1 num livro de ficção. A Polo 1 é uma galeria que fica na Estrada do Portela, em Madureira. Faz parte do cotidiano de milhares de pessoas. Mas é o tipo de espaço que, com algumas exceções, a literatura brasileira contemporânea costuma desprezar, em nome de referências mais conhecidas, ou mesmo de uma espécie de alergia à chamada “cor local”. A “cor local” é parte fundamental dos meus contos, inclusive porque a intenção é lançar luz sobre esses lugares invisibilizados.

Apesar de narrados pela voz ilusoriamente neutra da terceira pessoa, “Fada do dente” e “Nota dez” são histórias inundadas pelas ocorrencias aparentemente triviais da infância e da adolescência, mas que podem se transformar em grandes traumas. Esta também tem sido uma grande formulação na historia da literatura – entender o crescimento-amadurecimento como um acumulo de nossas dores. Para a sua literatura, esta tem sido uma via importante?

MOUTINHO: Sim, e desde o primeiro livro. O universo da infância é riquíssimo, talvez porque seja um momento em que o olhar para o mundo é quase virgem, mais suscetível a descobertas, e também a pequenas ocorrências que ganharão, no futuro, uma dimensão inimaginável. Num de seus poemas, o Robert Creeley escreveu que “dor é uma flor como aquela, / como esta, / como aquela, / como esta”. A gente passa a vida colhendo essas flores, mas aquelas colhidas na infância ficam impressas em nós de maneira mais profunda.

“Comida a quilo” é o conto mais radical do livro em termos formais – com o fluxo ininterrupto da linguagem oral e do diálogo divergente entre dois atendentes de restaurante traçando a personalidade, a história e as acoes da protagonista. Também é talvez a história que faz uma outra síntese possível do livro, pela alta voltagem de solidão, da miscelânea contida no cardápio e na própria existência da comida a quilo, na aura de refugo, de sobra e também de  estranheza e repulsa que cobre a personagem principal. Para narrar a cidade é preciso estar atento  aos seus restos?

MOUTINHO: A ideia foi justamente emular, no registro formal, a lógica caótica do restaurante de comida a quilo. A solidão da senhora que frequenta o restaurante diariamente quase berra, mas é impossível ouvir esse grito em meio à algaravia ali instalada. Esse conto talvez seja o que melhor espelha o que chamo de discurso da cidade, a barafunda de signos – sonoros, visuais, escritos – que diariamente o espaço urbano erige. E uma cidade se define também por seus refugos.

Em “Oxê” e “Vanessa”, temos, respectivamente, a transformação de um grande trauma no imaginário nacional (a derrota por 7 a 1 na Copa de 2014) e  de uma mazela ao mesmo tempo aguda e crônica do Rio de Janeiro (as balas “perdidas” ceifando vidas jovens) como um pano de fundo que é também motor dos acontecimentos. O que a História precisa perder –  ou ganhar – para se transformar nas histórias da ficção?

MOUTINHO: Esse olhar para o “pequeno”, para a historia miúda que corre em meio aos grandes fatos, sempre me interessou. E a experiência de ter passado quatro anos escrevendo crônicas semanais o tornou mais agudo. Lembro do Otto Lara Resende contando que, durante uma greve geral, o amigo Rubem Braga lhe telefonou, convidando-o a ir ao Bar Luiz. “Vamos ver a crise de perto”, propôs o Rubem. Ao cronista, interessava mais o impacto da crise no âmbito individual, das pessoas em seu cotidiano. É a perspectiva da vida ao rés-do-chão, para evocarmos a expressão do Antonio Candido. Para o segurança gay que trabalha no célebre jogo do 7×1, em “Oxê”, a dor não vem da goleada sofrida pelo Brasil, e sim do ataque homofóbico que sofre. A bala que atinge a menina, para muito além de se somar à estatística, é a morte de uma vida cheia de sonhos, afetos, expectativas. Acredito que, para se transformar em relato ficcional, a História com agá maiúsculo precisa ganhar rosto, respiração.

O Brasil e a América Latina sempre foram um campo extremamente fértil para os contos. Que autores foram o seus primeiros espelhos?

MOUTINHO: Dentro do gênero conto, Franz Kafka e Clarice Lispector, a quem cheguei por intermédio dos livros do Caio Fernando Abreu. Como não sou oriundo de uma família letrada – meus pais eram comerciantes do subúrbio do Rio –, as primeiras incursões pela literatura se deram de modo bastante intuitivo. Depois, fui ler outros grandes contistas brasileiros, como o Murilo Rubião, a Lygya Fagundes Telles, o Antonio Carlos Vianna, o Luiz Vilela e o Sergio Sant’Anna.

Apesar desta imensa tradição, o conto brasileiro ainda tem dificuldade de encontrar seu lugar nas premiações, no posto de carro-chefe das editoras, sobretudo na visibilidade na chamada grande imprensa. Qual é sua explicação para isso?

MOUTINHO: A pergunta que um contista mais escuta ao longo da carreira é: “E aí, quando vem o romance?”. Como se o gênero conto fosse menor, um estágio até o escritor enfim virar “adulto”. Isso se deve em muito à preferência do mercado – e aí incluo as premiações, que em tese não deveriam se guiar por premissas meramente mercadológicas – pelo romance, o que acaba se estendendo às pautas do jornalismo cultural. São pouquíssimos os prêmios que distinguem livros de contos, sendo que um dos principais do país, e voltado apenas ao romance, se intitula “Prêmio São Paulo de Literatura”. Assim mesmo, “de literatura”. Ainda que exclua as narrativas curtas e também a poesia. As grandes editoras, com exceções que só confirmam a regra, costumam recusar de modo peremptório os livros de contos. O que transforma a questão da vendagem, pedra de toque do discurso dominante, num dilema de propaganda de biscoito: o romance é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho? Lamentavelmente, esse cenário leva muitos contistas promissores a desistir do gênero.

Para terminarmos olhando para o futuro, você está organizando uma antologia de contos baseada nos orixás da mitologia afro-brasileira. Poderia falar um pouco sobre este projeto?

MOUTINHO: Essa antologia, que sairá no meio do ano pela editora Malê, nasce de um projeto solo. Eu alimentava a ideia de escrever um livro de contos inspirados nos arquétipos dos orixás. Seria algo para o futuro, já que ainda estava dando os retoques finais em “Rua de dentro”. O cenário político-social do país, com os retrocessos trazidos pelo governo Bolsonaro, e o clima crescente de intolerância religiosa, que atinge sobretudo a fé afro-brasileira, acabaram fazendo com que antecipasse o projeto. E, para viabilizá-lo em prazo menor, decidi transformá-lo em antologia, convidando autores de todo o país para participar. Serão, ao todo, 18 escritores, cada um deles tendo o arquétipo de um orixá como premissa para o narrativa ficcional. Alguns têm ligação íntima com o assunto, outros não. O objetivo não é fazermos um livro para iniciados. Pelo contrário. Queremos é que essa incrível e pouco conhecida mitologia chegue a mais gente. Ela é parte fundante da cultura brasileira e, como tantos saberes desapartados do eurocentrismo, muitas vezes se vê relegada ao escaninho do exótico, do pitoresco.

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