O meu lugar

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  • Editora Mórula
  • 2015
  • ISBN 978-85-65679-32-9
  • Português
  • Capa Tipo Brochura
  • 144 Páginas

“Fui um andarilho, toda minha vida, por essa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Nasci em Ramos, entre a praia e a estação de trem. Passei a infância num conjunto de vilas da Light, entre a Praça Seca e a Marangá. Mudei para a rua Ana Nery, entre o Morro do Pedregulho e o de Mangueira. Minha adolescência foi em São Cristóvão, entre o Tuiuti, o Morro da Caixa D´Água, a Barreira do Vasco, o Largo da Cancela e o Morro de São Roque. Depois morei no Jardim Clarice, entre o Rio das Pedras e o Lago do Anil. Dali fui pro Leblon, bairro boêmio e, seguida, Jardim Botânico. De lá, Jardim de Alá, por breve período, ao lado da Cruzada e, logo depois, Ipanema dos áureos tempos do Veloso. Por oito anos vivi na Estrada Velha de Jacarepaguá e mais quinze no Recreio dos Bandeirantes. Hoje estou ancorado em Laranjeiras. Por tudo isso, me comovi com cada crônica, porque em cada lugar desses, viramundo, pisei em algum momento. Esse livro é uma síntese, um resumo do meu coração. Obrigado aos que escreveram, pela viagem que fiz de relembrança e saudade”. 

Paulo César Pinheiro, compositor e escritor

Trecho da crônica Meu pai me disse

(… ) Um dia meu pai parou de dizer coisas. Já não morávamos em Madureira fazia muito tempo, a Casa Hilda sucumbira às mudanças econômicas. Vida que segue, como no bordão do Saldanha, fui tratar do inventário. Duas caixas imensas de papéis. Entre extratos de banco, escrituras velhas, certidões, registros, anotações, carteiras de clubes, reencontrei a infância. Passara duas dezenas de anos longe dela.

Remexendo nos documentos, percebi que parei de ouvir o que meu pai dizia bem antes de ele parar de dizer, fossem tolices ou não. Que nunca tomei um chope com o velho, embora tivéssemos nos prometido isso quando fui visitá-lo, já doente, e sabíamos os dois que não aconteceria. Um pacto silencioso feito de mentira e afeto. (…)

Livro de crônicas sobre bairros do Rio celebra vida das ruas

Começa no Centro, onde a estátua de Joaquim Nabuco ganha vida e sai por aí flanando, e termina na Ilha do Governador, no terreno de uma velha moradora que esnoba a especulação imobiliária e distribui ervas medicinais aos vizinhos, o itinerário carioca proposto nas crônicas de “O meu lugar” (Mórula Editorial). No caminho, os 34 autores da coletânea, organizada pelo escritor Marcelo Moutinho e pelo historiador Luiz Antonio Simas, conduzem o leitor pelos quatro cantos do Rio — de Copacabana ao Catumbi, do Estácio a Jacarepaguá, do Grajaú à Pavuna — com direito a um pulinho em Nova Iguaçu e outro em São João de Meriti.

“Mais que um roteiro geográfico, porém, o que o livro apresenta é uma ideia de cidade, fundada no trânsito, no convívio das ruas e no culto irreverente às tradições. Ao evocarem o “seu lugar”, autores como Aldir Blanc, Nei Lopes, Alberto Mussa, Cecilia Gianetti, Bruna Beber e os jornalistas do GLOBO Mariana Filgueiras e Paulo Thiago de Mello deixam de lado os cartões postais e constroem um mapa afetivo e idiossincrático do Rio. Com título inspirado na música de Arlindo Cruz e Mauro Diniz, o livro será lançado neste sábado, às 14h, no sebo Al-Farabi, no Centro, com uma roda de samba comandada pelas cantoras Marina Iris e Nina Rosa.

A ideia de trânsito é reforçada pela grande presença no livro de bairros que não costumam ser lembrados quando se fala da “Cidade Maravilhosa”, como Piedade, Bangu e Realengo. E também pelo olhar lançado sobre os subúrbios, que evita as tentações “do paternalismo e do exotismo”, diz Simas. Ele cita como exemplos frases das crônicas de Moacyr Luz sobre o Méier (“para quem vinha de Bangu, o Méier já era a Zona Sul”) e de Paulo Roberto Pires sobre a Penha (“nem tão miserável para se transformar numa causa, nem tão pitoresca para virar moda”).

— Esse é um livro de trânsito, reunindo autores que têm em comum o fato de circularem pelo Rio. Isso é muito importante num momento em que a cidade está dividida, tensionada. A gente achava que o conceito de “cidade partida” do Zuenir Ventura estava superado, mas não está — diz Moutinho, que em seu texto escreve sobre Madureira, onde passou a infância, bairro presente também em seu livro de crônicas “Na dobra do dia” (Rocco).

Memórias de infância são recorrentes em “O meu lugar”, como nos balões juninos da Cascadura lembrada por Juliana Krapp ou na expedição de amigos a um casarão abandonado da Glória narrada por Alvaro Costa e Silva. Esses e outros textos fazem o registro de uma vida de rua que perde espaço num Rio de condomínios fechados e pânico da violência.

— Hoje, o Rio vive um embate em relação à maneira como as pessoas enxergam a rua. A visão da rua como local de passagem está superando a da rua como ponto de encontro. Não sei se daqui a 50 anos, quando fizerem outro livro como esse, vai haver um registro da cidade que passe pela memória da rua — diz Simas, autor de “Pedrinhas miudinhas” (Mórula), que em sua crônica fala sobre o réveillon de Copacabana imaginado por um garoto de Nova Iguaçu, onde uma piscina Tone faz as vezes de Avenida Atlântica

Outro registro que atravessa o livro é a presença, no dia a dia do Rio, da religiosidade africana, com seus rituais, tambores e terreiros. Simas remete à infância na casa da avó, mãe-de-santo que atendia em Nova Iguaçu e Laranjeiras, onde recebia a clientela da Zona Sul. Já Nei Lopes faz alusões à história da quimbanda (variante da umbanda) no Irajá, onde nasceu, em 1942, e ainda tem família, embora more em Seropédica. Nessas sete décadas, viu o Irajá passar de região semi-rural a reduto de classe média, e considera as tradições negras dali ameaçadas, assim como no resto da cidade.

— Não sei se a tradição se mantém com a mesma força do tempo em que morei lá. Pelo que vejo em todo o Rio, principalmente na periferia, as chamadas “igrejas eletrônicas” devem já ter destruído muita coisa — diz Nei.

Memórias de infância, música e tradições negras do Rio se misturam na crônica inédita do compositor Aldir Blanc sobre Vila Isabel, um dos destaques de “O meu lugar”. Ele lembra o período, dos 4 aos 11 anos, em que morou na Rua dos Artistas (para os que insistirem que ela fica em Aldeia Campista, escreve: “podem, em fila organizada, ir à merda”). Na Vila, o menino Aldir morou a três casas do flautista Benedito Lacerda, assombrou-se com os mitos locais sobre Noel Rosa e ouviu pela primeira vez o som dos atabaques, que tentava imitar batucando numa peteca.

Autor do livro “Vila Isabel: inventário da infância” (Relume Dumará), Aldir diz na crônica que talvez tenha começado a compor para matar as saudades do bairro, quando voltou com a família para o Estácio. Mas suas memórias musicais da Vila nunca se apagaram: Benedito Lacerda tocando chorinho no boteco da Rua dos Artistas com Pereira Nunes, os discos de Orlando Silva, Ângela Maria “e muito bolero” comprados por sua avó na Ótica Irany, o quarto em que se trancava com as filhas das empregadas para dançar “um treco entre o tango e o vodu”.

— Naquela idade, sei lá, essas coisas “entranham” na gente e o cara se vê, décadas depois, perfeitamente à vontade na hora de letrar “Dois pra lá, dois pra cá” — diz Aldir, lembrando seu clássico de 1975 com João Bosco. — É pura memória. Uma prima que se fantasiava de Fada Azul nos carnavais me ensinou a dançar assim: “Samba é um pra lá, um pra cá. Já bolero são dois passos…” E por aí vai. Por isso afirmo, com convicção: quem faz as letras ainda é o menino que viveu em Vila Isabel e que se recusa a morrer.

Um livro para celebrar o Rio de Janeiro e arredores. E escrito por cariocas, considerando estes não apenas os que nasceram na Cidade Maravilhosa, mas os que foram adotados, de uma forma ou de outra, por esta terra cheia de encantos mil.

É o “O Meu Lugar”, organizado pelo colunista do DIA Luiz Antônio Simas e pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. Inspirado no famoso samba de Arlindo Cruz e Mauro Diniz, o livro traz 34 crônicas de gente que vive cada detalhe desta terra, cada qual no seu quadrado, contando um pouco do território que mais marcou a sua vida.

Com orelha escrita pelo craque Paulo César Pinheiro, “O Meu Lugar”, editado pela Mórula Editorial, reúne pérolas de algumas das melhores canetas da cidade.

Do Méier de Moacyr Luz à Vila Isabel de seu inseparável parceiro Aldir Blanc. O Irajá de Nei Lopes e a Tijuca de José Trajano. Tem o colunista do DIA Fernando Molica contando sua infância em Piedade; o rubronegro Janjão Pimentel declarando seu amor por Laranjeiras, e Luís Pimentel (outro colunista do DIA com a sua idílica Copacabana.

A publicação traz também escritores que começaram há pouco a carreira, mas que são figurinhas fáceis nas mais e também nas menos badaladas esquinas e balcões desta cidade, como João Felipe Brito, Manuela Oiticica e Juliana Krapp.

“É um livro afetivo, sem problematizar as questões urbanas da cidade e sem qualquer tipo de compromisso histórico. É um presente da gente para o Rio”, explicou Simas, que conta de forma impagável como transformava o Réveillon de Nova Iguaçu na sua Copacabana.

Imperiano de fé, Marcelo Moutinho, nascido em Madureira, reconta seu passado no bairro pelas retinas do pai. Atualmente em Botafogo, ele brinca com os vizinhos que perguntam o motivo de haver, no livro, predominância dos bairros da Zona Norte e do subúrbio.

“Ora, porque há mais bairros lá do que na Zona Sul. É que ninguém para e pensa sobre isso. Basta fazer a conta. Mas a Zona Sul está todinha no livro também”, avisa.

E de fato está. Aliás, a cidade inteira está. E todas as outras que vivem dentro deste Rio de Janeiro. Se faltava um livro que não fosse chapa-branca para comemorar os 450 anos do balneário, agora não falta mais.

“O Meu Lugar” será lançado no sábado, dia 17, no Al-Farabi, misto de sebo e botequim localizado na Rua do Rosário, 50. Um dos redutos tanto de Luiz Antônio Simas como de Marcelo Moutinho. E de tantos outros escritores, artistas, jornalistas e pensadores. E gente que não quer pensar em nada a não ser na cerveja gelada.

“É um livro que nasceu na mesa de bar, lugar onde se projetam duzentas coisas para sair uma. Mas quando sai, é bacana”, garante Luiz Antônio Simas, o anfitrião da festa.

A festança será regada a muito samba, com a roda comandada por Marina Íris e Nina Rosa, duas estrelas da nova geração.

“O Meu Lugar’ mostra Rio longe do cartão-postal

Para cada carioca, o seu lugar pode ser Leblon, Copacabana ou Botafogo, mas também Cascadura, Madureira e Pavuna. No livro “O Meu Lugar”, os organizadores Luiz Antonio Simas e Marcelo Moutinho reuniram 34 autores para falar de seus bairros e, assim, celebrar a multiplicidade da metrópole de 450 anos.

“É uma história do Rio através das suas micro-histórias. Não é a historia tradicional, do prédio tal”, explica Moutinho. “É como se a gente contasse uma história das pedrinhas miúdas, e não dos grandes calçamentos”, completa.

Inspirados na música de Arlindo Cruz, Moutinho e Simas convidaram escritores e jornalistas celebrados e iniciantes para falar do bairro de seu coração. Aldir Blanc, Nei Lopes, e Moacyr Luz escrevem com carinho e experiência. Moutinho fala sobre a sua Madureira. “Fiz uma brincadeira com a oralidade”, explica.

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