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Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabun...

Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos

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  • Editora SENAC RJ
  • 2005
  • ISBN 8587864777
  • Português
  • Capa Tipo Brochura
  • 128 Páginas

Com mais de cem músicas gravadas por artistas como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Nana Caymmi, Martinho da Vila e Leny Andrade – em resumo, pela gema da música brasileira -, Moacyr Luz conjuga em suas canções dois elementos aparentemente díspares. Se procura nutrir-se nos sumos de um samba ancorado na tradição de mestres como Noel Rosa, Cartola e Nelson Cavaquinho, que conhece como poucos, aprecia em paralelo os complexos quitutes harmônicos do cancioneiro mais ligado à chamada MPB. É da feliz intercessão entre essas duas vertentes que nasce sua singularidade como criador.

Tal singularidade está também – e de forma inexorável – ligada à cidade em que vive. Moacyr não é daqueles artistas que se escondem – e muitas vezes acabam deixando sua arte perder a vitalidade das ruas. Pelo contrário: quem circula pelas veias da Cidade (ainda e sempre) Maravilhosa, costuma encontrá-lo pelas tardes e pelas noites, seja cantando, seja simplesmente conversando com os muitos amigos, acompanhado do fiel violão. Esse Rio de Janeiro que tanto lhe é caro já foi esquadrinhado em canções como a pérola Só dói quando eu Rio (parceria com Aldir Blanc) e o hino oficioso Saudades da Guanabara (com Aldir e Paulo César Pinheiro). Inspirou também o projeto A sedução carioca do poeta brasileiro, CD-tributo no qual o compositor transformou em música poemas cujo objeto é a cidade.

O disco representou um primeiro namoro com a literatura, que se efetiva com este livro, no qual a paixão de Moacyr pelo Rio transfigura-se no relato de histórias – reais ou imaginadas, pouco importa – ambientadas nos botecos que são uma das irrefutáveis marcas da cultura do carioca. Ou nos butiquins, como prefere o autor, consagrando de vez a acertadíssima corruptela instituída por seu parceiro Aldir, e respeitada aqui. Às crônicas leves e saborosas como o jiló que o violonista prepara como ninguém, foram anexadas entrevistas com boêmios célebres e ilustrações de Jaguar, que acrescentam ainda mais tempero aos textos e tornam este Manual de vez irresistível. Pelo menos a todos aqueles que, como o próprio Moacyr, “não resistem aos butiquins mais vagabundos”.

Marcelo Moutinho (organizador)

Geografia da ressaca de copo em copo

“Butiquim é estado de espírito. “Os mais vagabundos”, então, nem se fala. Só uma aptidão para bas fond, o jeitão xexelento pode explicar seu permanente carisma. Eles é que acabam de merecer minuciosa pesquisa etílico-antropológica do connaisseur Moacyr Luz. Virou livro: Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos (Senac Rio, 125 páginas). Butiquins – assim como está escrito. Nem boteco chega a ser. Bar, menos ainda. Antro, mafuá – lugar que inspira frases e compassos, papos e porres, músicas e cantadas, verdades e mentiras (mais mentiras que verdade).

Moacyr Luz é compositor, boêmio e botequeiro, o que, mais do que sugerir a versatilidade que ele de fato tem, simboliza uma confluência. Todo esse talento pode ter um mesmo lugar para se manifestar. “Lugar sagrado”, como reza Martinho da Vila no prefácio.

O boêmio do incansável violão (Moacyr já foi cantado por Bethânia, Gil, Nana) juntou crônicas ouvidas ao pé de uma “brahma” e à frente de um torresminho. Rascunhou. Topou uma noite com Marcelo Moutinho, jornalista com dotes de psicanalista da alma carioca – estavam os dois numa inauguração de bar, claro.
Com a ajuda de Moutinho, o livro nasceu. Vem recheado de entrevistas dos boêmios de antologia (Tia Surica, Haroldo Costa, Lan, Chico Caruso, Antônio Pedro, Sérgio Cabral e um vasto e enressacado etc.), de ilustrações de – quem mais? – Jaguar e com o design original e nada óbvio de Christiano Menezes (que saiu retratando aqueles azulejos encardidos dos quais nenhum butiquim que valha o nome pode prescindir).

É livro de clima, de ambiente, “um manual sobre um Rio que insiste em resistir”, nas palavras do parceiro Moutinho – e que o próprio Moacyr Luz tanto celebra na sua outra mídia, em canções como Só Dói Quando eu Rio (com letra de Aldir Blanc) e aquele que é quase hino Saudades da Guanabara (com Aldir e Paulo César Pinheiro). De fato, as crônicas de Moacyr como que reiteram que “boteco é coisa carioca e ponto final”, afirma Moutinho, já sabendo, porém, do risco de que o próprio autor venha desmenti-lo.

Na verdade, tanto Moacyr Luz quanto a própria informalidade do butiquim carioca acabaram por ser adotados em São Paulo, e não por acaso seu livro ganhou lançamento brindado com chopinho e tremoços no Pirajá, o mais carioca dos bares para além da avenida Brasil. Ao Pirajá não falta sequer a legitimação definitiva dos painéis de Nilton Bravo, o Michelangelo dos mocós.

E, paradoxo supremo, essa inusitada Via Dutra da baixa gastronomia (expressão do jornalista Ruy Castro) hoje funciona em mão dupla. A São Paulo que saiu para copiar o estilo, a arquitetura, a cultura do boteco carioca tem hoje know-how de chope bem tirado, de croquete e até de boemia e decidiu exportá-lo para… o Rio de Janeiro.

Assim como o Pirajá poderia estar no Rio, o Devassa, o Informal, o Belmonte de figurino novo têm cara de São Paulo – naquele mix sincrético de eficiência com malemolência que, como sugere outro demiurgo da condição carioca, o jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, é a única fórmula que ainda há de salvar o Brasil. Se Deus quiser e a bebida não faltar.”

Nirlando Beirão

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