Ferrugem

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  • Editora Record
  • 2017
  • ISBN 9788501108227
  • Português
  • Capa Tipo Brochura
  • 160 Páginas

Quando li pela primeira vez os contos de Marcelo Moutinho, tive certo medo de que ele não conseguisse permanecer como escritor. Era um momento em que a cena literária estava dominada pela onda, pela febre, pela doença do “novo”. A cada ano os prelos cuspiam antologias e antologias de “novos” autores, carregadas de experimentalismos formais já quase seculares, da herança sentimental dos beatniks, da obsessão autopsicanalítica. E Moutinho remava vigorosamente contra toda aquela maré.

Tive, assim, uma alegria dupla ao receber os originais deste Ferrugem: a de ver renovada a tradição mais fértil do conto brasileiro, particularmente a da cena carioca e da linguagem lírica; e a de constatar que Moutinho se afima, com uma voz singular e inconfundível.

O assunto de Ferrugem é a paisagem humana, os grandes dramas corriqueiros, a vida que passa. Desfiam pelos contos personagens ímpares, insuspeitas, inesquecíveis, ainda que aparentemente comuns: a moça soropositiva, caixa de supermercado, que reencontra o antigo namorado; a cobradora de ônibus que dá conselhos amorosos a um passageiro; o cantor de boate que imita Roberto Carlos; o professor de contabilidade que se aventura numa sauna masculina.

O valor literário destes contos não está em tramas surpreendentes ou inusitadas, mas na alta-voltagem poética que a voz do narrador consegue extrair de situações vulgares. Marcelo Moutinho é um excelente contista e está aí para permanecer.

                                                                                                                      Alberto Mussa

Um Rio sem glamour

Marcelo Moutinho narra dramas de pessoas comuns em livro de contos

LEONARDO CAZES

A batalha diária contra a passagem do tempo, tendo ao fundo um Rio de Janeiro que se transforma mais rapidamente do que os cariocas são capazes de absorver. Esse é o fio condutor dos contos reunidos em “Ferrugem”, novo livro de contos de Marcelo Moutinho, que será lançado na terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa em Botafogo. Na sua primeira seleta em cinco anos e também sua estreia na editora Record, o escritor traz como protagonistas os personagens sem glamour que povoam o Rio de Janeiro, como o cover de Roberto Carlos que se apresenta num “inferninho” da Lapa entre dois shows de strip-tease, no conto “Rei”.

— A busca por esses personagens é consciente. A gente tem uma literatura muitas vezes ensimesmada, com protagonistas que são, muitas vezes, escritores em crise com sua própria criação, um jornalista, um publicitário. Eu queria falar da trocadora de ônibus, do menino cujo avô trabalhou na Rádio Nacional. Meu projeto é tirar um pouco do silêncio esses personagens da cidade que nos rodeiam o tempo todo — afirma Moutinho.

O escritor diz que faz questão de “dar uma cor local” aos seus textos. No conto “Domingo no Maracanã”, a menina Rita mora em Madureira — bairro onde Moutinho nasceu e cresceu — e pega o ônibus com o pai, Adolfo, no ponto da Rua Carvalho de Sousa. Durante a visita ao estádio, Rita descobre uma fenda que lhe permite rever a partida que foi o grande trauma futebolístico do pai, a derrota do Bangu na final do Campeonato Brasileiro de 1985 contra o Coritiba. Na primeira versão, conta Moutinho, o jogo seria a final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai, mas depois ele optou pela tragédia do alvirrubro da Zona Oeste carioca.

— Times como o Bangu expressam uma singularidade da nossa cultura. Têm uma forma particular de se relacionar com a cidade, as pessoas. Têm essa pequeneza que a crônica trata muito bem e eu tentei trazer para o conto — aponta. — Esses clubes são, mal comparando, a lanchonete da esquina onde você compra um joelho e um café pingado e daqui a pouco vai virar um Starbucks. Quando tudo vira rede, não há mais singularidade. É como se vivêssemos em um grande aeroporto.

O interesse de Moutinho pela cidade, suas instituições e seus personagens está presente desde o início do seu trabalho e passa pela organização das coletâneas “O meu lugar” (Mórula, 2015) e “Prosas cariocas” (Casa da Palavra, 2004), ambas com textos sobre bairros da cidade, e “Canções do Rio” (Casa da Palavra, 2010), sobre a presença do Rio na música brasileira. Para o escritor, toda cidade produz um discurso por meio de letreiros, bordões de camelôs, conversas no ônibus. É a partir dessa polifonia que ele recolhe matéria-prima para sua literatura.

Moutinho conta que não buscou retratar as mudanças pelas quais o Rio passou desde o lançamento de “A palavra ausente” (Rocco), há cinco anos, mas elas estão presentes, às vezes quase acidentalmente. O conto sobre o Maracanã, por exemplo, foi escrito no início das obras e, lido hoje, parece até uma premonição. Já o protagonista de “Dezembros” gosta de pescar no viaduto da Perimetral, que não existe mais. Para o escritor, a literatura tem a capacidade de driblar a morte e, no caso da cidade, a destruição.

— O livro é supercontemporâneo e já tem um quê de arqueológico, de falar de uma cidade que não existe mais. Ela muda mais rápido do que o nosso coração, e a gente costuma ter um sentimento de nostalgia — diz. — A contrapartida do escritor é dar a eternidade. A literatura consegue dar eternidade às coisas, consegue dar uma sacaneada na morte.

Esse sentimento nostálgico é típico da crônica, mas Moutinho procurou introduzi-los nos seus contos. O autor acredita que “Ferrugem” é o seu livro mais autoral e vê certa influência de sua própria experiência como cronista. Entre 2013 e 2016, ele escreveu semanalmente para o site Vida Breve, e parte dos textos foram reunidos em “Na dobra do dia” (Rocco), de 2015. A ferrugem do título está também no seu estilo, aponta:

— Com o compromisso de escrever uma crônica semanal, você deixa mais solto o texto. Eu tinha uma tendência a ficar trabalhando demais o texto em busca da perfeição, sem querer deixar passar nenhuma ranhura. Esse é um livro em que a ranhura aparece, e não é por não trabalhar, mas por acreditar que essas marcas fazem parte. A ferrugem está na vida da gente, inevitavelmente.

Outra matéria-prima dos seus contos é a música. “As praias desertas” leva o mesmo título da canção de Tom Jobim, gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso, em 1958. Já “Três apitos” recria a canção de Noel Rosa. Só que, no lugar da operária da fábrica de tecidos, entra a caixa do supermercado. Moutinho coloca sambistas ao lado de grandes escritores como suas principais influências.

— Uma vez me perguntaram quem me influenciou. Eu respondi: Paulo Mendes Campos, Kafka, Cony. E Roberto Ribeiro. Assim como João Nogueira, Cartola, Noel. Eles são fundamentais para a minha forma de ver o mundo, logo são fundamentais para o modo como escrevo. Não consigo achar a Clarice Lispector mais importante para o que eu escrevo do que o Roberto Ribeiro, de verdade.

Contista carioca surpreende na hábil simplicidade com sofisticação
RAIMUNDO CARRERO
Escritor e jornalista

Simples como beber água – é assim a técnica mais trabalhada pelo escritor carioca Marcelo Moutinho no livro de contos “Ferrugem”, que está sendo lançado pela Editora Record. Basta ler o antológico “Xodó”, que abre o livro, para que se perceba a maravilhosa narrativa, em que o leitor é seduzido a cada palavra, a cada ação, a cada sequência, perfeitamente ajustada no artesanato, ou apenas na técnica, que defendo no meu livro “A Preparação do Escritor” e que ensino em todas as aulas no a Centro Cultural: simplicidade com sofisticação. É exemplar.

Na simplicidade com sofisticação, o escritor reúne várias técnicas sem, no entanto, causar qualquer dificuldade ao leitor que se comporta, repito, como um sedento diante de um copo d´Água: 1 – enredo sem história,2 narrador inominado, 3 atenção especial ao detalhe, 4 – ausência de adjetivos desordenados, 5 – ação, cena, sequência.

Ou seja, o autor usa todas as técnicas – ou quase todas as técnicas -, mas com uma simplicidade envolvente, que é a marca, claro, de todo sedutor. E o que conta “Xodó”: o conto dirá, leia e leia, na ansiedade da leitura e na sedução do texto você vai descobrindo do que se trata, embora fazendo perguntas e se inquietando. A frase é leve, direta, incisiva. Uma cena ilumina a outra mas não explica. Nada se explica. Em ficção nada se explica. É definitivo. A sedução continua até a última palavra. Assim pode-se ver a primeira cena: “Ele se mantinha de bruços, o short não de todo arriado, mas eu podia enxergar o corte que rasga a parte inferior das costas, formando duas bandas onduladas. A nesga vermelha da cueca – aquela mesma que a mamãe já pedira muitas vezes que ele jogasse fora – contrastava com o tecido preto do calção e a pele alvíssima. O que eu não conseguia definir, na perspectiva da fresta da porta, era o que estava sob o corpo dele, que se mexia, os movimentos concentrados entre as pernas e o tronco.” Intrigante e belo. Uma cena que substitui adjetivos e advérbios, criando empatia e inquietação no leitor, a perguntar: afinal, o que está acontecendo? Mesmo que pareça tão claro.

O leitor entende logo mas pergunta: como e por quê? Continua lendo e descobrindo, mais adiante se convence: “Não é nada disso, e o que é? Gosta do que lê e continua, e continua, e continua. Quer mais, percebe que o conto está chegando ao fim, mas pretende o veredito derradeiro. Tudo muito claro, mas falta alguma coisa. A cena seguinte dirá. Mas o prazer da leitura está plenamente satisfeito. De propósito não revelei a história. A simplicidade com sofisticação revelará. Compre e leia o livro.

Num limite entre a crônica e o conto

Com “Ferrugem”, vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, Marcelo Moutinho se consagra ao extrair sofisticação e lirismo de uma escrita marcada pela simplicidade

SÉRGIO TAVARES

Em 2015, o jornalista e escritor carioca Marcelo Moutinho lançou a seleta de crônicas “Na dobra do dia”. Ao fim da leitura de “Ferrugem”, vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional de melhor livro de contos de 2017, fica evidente que a alternância de gêneros conserva um valor intrínseco aos seus aspectos textuais.

As novas narrativas carregam, em suas texturas, a tênue plasticidade da crônica. Um jeito leve de costurar os nós do enredo, contrastando-se a um olhar agudo sobre determinadas cenas, sobre o perfil dos personagens, e, desse exercício quase investigativo, descobrir a semente da ficção.

O resultado é um jeito simples de escrita, mas que condiciona requinte na montagem estrutural, no desenvolvimento da trama, na lapidação dos diálogos. O sofisticado não carece de formalismo ou de uma linguagem enfeitada para alcançar tal efeito. Moutinho encontra na sobriedade uma técnica para dimensionar seus textos da matriz aos detalhes periféricos, com isso dando oportunidade ao leitor de conjecturar diante do sugerido, muitas vezes do silêncio.

É o caso do conto “Jantar a dois”, um dos menores e dos mais complexos. Um casal na meia-idade acomoda-se à mesa de um restaurante onde, entre idas e vindas do garçom, escolha dos pedidos e comentários superficiais, vão revelando suas psicologias e a musculatura do relacionamento. O não dito se manifesta nas nuances, nos pequenos gestos. O mesmo ocorre no lírico – e autoexplicativo – “Caiu uma estrela na minha sala”. Flertando com a literatura fantástica, o autor conforma uma breve história de lenidade, ao dar voz a um homem que vê a modorra de fim de domingo ser afugentada, depois que um corpo celeste entra pela janela do apartamento.

Aqui se põe à vista outra frequentação da crônica. Os personagens, apesar de lidarem com seus conflitos internos, nunca se isolam numa jornada inflexiva. As narrativas se conectam a uma perspectiva abrangente, na qual os sentimentos são coordenadas para se traçar um mapeamento mutuamente interno e externo. Vide “As praias desertas”, em que a protagonista vai ao litoral esperar um amante. Através do vasculhamento da paisagem, ela remonta o passado e antecipa o futuro dos dois.

Dois temas se destacam nos contos de Moutinho: a música e o futebol. Os melhores textos se enquadram nesse grupo. “Something” versa sobre encontros e desencontros no relacionamento amoroso, e o ruído que fica tipo uma nota incidental. “Rei” é sobre um cover do Roberto Carlos, que decide bancar um show próprio para provar seu talento. Entre as quatro linhas, “Gandula” conta a história de um menino que sonha em ser jogador de futebol, mas acaba se contentando com a função de apanhador de bolas no momento em que seu time de coração avança num campeonato. Já “Domingo no Maracanã” trata da relação entre pai e filha, tendo o futebol como motor para discutir o conflito entre o novo e o velho, a descoberta e o desencanto, guardando espaço para o saudosismo.

A matéria dos contos é a vida. A que está em curso agora nas casas e nas ruas; a que se ocupa dos atores do cotidiano, a cobradora de ônibus, o professor, o mendigo. Moutinho se presta a decifrar o secreto que há no trivial. Contudo não é vida que dá unidade à coletânea, e sim seu anteposto: o tempo. Da chegada dos ardores da puberdade, em “Xodó”, ao inescapável da finitude, no rascante “Três apitos”, o tempo é o que incinera, o que leva à suspensão ou à queda, o que corrói mas também fortifica, como nos versos do poema de João Cabral de Melo Neto, escolhido como epígrafe: “E possa enfim o ferro/ comer a ferrugem/ o sim comer o não”.

O autor igualmente resiste, defendendo e fundamentando sua carreira nas formas breves; decisão que não é pouca e pela qual já merecia ser lido. Mas há também a literatura que o consagra um dos melhores de sua geração, com qualidade seja no conto ou na crônica, ou no que um gênero pode emprestar ao outro.

Marcelo Moutinho escreve sobre grandes dramas corriqueiros em ‘Ferrugem’

MARISA LOURES

Marcelo Moutinho revela olhar atento para o cotidiano nos 13 contos de “Ferrugem” O que desperta os sentidos do escritor carioca, criado em Madureira, Marcelo Moutinho, são as pessoas comuns que povoam a cidade do Rio de Janeiro. Vozes que, comumente, não encontram espaço na literatura contemporânea brasileira. “Meu compromisso é muito mais falar da minha experiência como brasileiro, como alguém que nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, numa família iletrada, numa família na qual a literatura era algo absolutamente distante. Falar dessa classe média baixa de onde vim. Nós temos uma literatura, às vezes, ensimesmada. Os personagens são escritores, jornalistas, cientistas sociais, e eu quero falar de outros estratos. São os estratos com os quais convivi na minha infância, sobretudo, no meu bairro”, dispara o autor do recém-lançado “Ferrugem” (Record, 158 páginas).

Jornalista, Moutinho sempre teve o olhar atento para o cotidiano, para a cidade que está viva. Suas novas criações versam sobre a corrosão, uma corrosão do tempo sobre as relações, os desejos, os apetites e os afetos. “O título foi tirado da epígrafe do livro, que são versos de um poema chamado “Cartão de Natal”, do João Cabral de Melo Neto, em que ele propõe uma inversão do processo natural e diz: ‘E que possa enfim o ferro comer a ferrugem’. Quer dizer, não o processo de a ferrugem comer o ferro. Os contos do livro estão o tempo todo transitando nesse embate entre o ferro e a ferrugem, entre o viço e a corrosão”. Também autor de “Na dobra do dia” (Rocco), “ A palavra ausente” (Rocco) e “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco), entre outras obras, Moutinho tem contos traduzidos para países, como França, Alemanha e Estados Unidos.” De 20 de março a 5 de abril, ele estava entre os 34 escritores brasileiros que participaram da Primavera Literária Brasileira, a maior feira literária da França.

 

Marisa Loures – Senti que os contos trazem um quê de melancolia. Por quê?

Marcelo Moutinho – Tem um quê de melancolia sim. Eu sou um pouco crítico dessa lógica da alegria a qualquer preço, essa lógica de rede social. Quer dizer, a gente tem que estar o tempo todo mostrando uma vida que não é a vida real, é uma vida para exportação, digamos assim. Eu tenho ligação com o samba, e o samba tem uma lógica diferente. Muitas vezes você está cantando uma coisa muito animadamente, mas está falando de dores, está falando de questões metafísicas da nossa vida. Dor e delícia, misturadas. Acho que tento levar isso para a literatura.

Seus personagens são pessoas reais que já cruzam seu caminho?

Não, eles não existem. São personagens ficcionais, mas, evidentemente, são inspirados na minha experiência empírica de caminhar pelas ruas, de conversar com as pessoas. Procurei, na verdade, povoar o livro dessas chamadas pessoas ordinárias: uma trocadora de ônibus, uma caixa de supermercado, um cover de Roberto Carlos que trabalha numa decadente boate erótica. São aquelas pessoas que, geralmente, não estão presentes na literatura brasileira contemporânea. São pessoas cujas vidas são relativamente desglamourizadas, que parecem não ter muito interesse. E eu me interesso profundamente por essas vidas cotidianas das pessoas com quem a gente esbarra pelas ruas todos os dias.

Na orelha do livro o escritor Alberto Mussa fala que você faz poesia com pessoas reais. E como é fazer poesia com pessoas reais? – O Alberto Mussa é muito generoso. Gosto de uma frase do Walter Benjamin, um ensaísta, num livro sobre a Berlim da época dele, 1900 mais ou menos. Ele fala que o escritor deve andar na rua como se estivesse numa floresta. E o que ele quer dizer?

Ele quer dizer que, quando a gente está numa floresta, perdido na selva, por exemplo, a gente tem que aguçar nossos sentidos para perceber, no farfalhar de uma folha, o barulho de movimento de um animal. A gente tem que se orientar a partir dos sentidos e, muitas vezes, quando a gente está num espaço urbano, a gente fica cego de tanto frequentar aquele espaço. Então, a gente para de prestar atenção na paisagem urbana e nos personagens da rua. Acho que o processo do cronista ou do escritor de ficção passa muito por esse observar, aguçar os sentidos, mesmo no espaço urbano. Tirar daqueles acontecimentos, de uma frase perdida, de uma pequena cena, inspiração para reelaboração ficcional, para aquilo que vai virar depois romance, poesia ou conto.

Você é jornalista. Foi seu lado observador que te levou para o jornalismo ou o jornalismo trouxe para você esse faro aguçado para o cotidiano?

Acho que, talvez, ele tenha me levado para o jornalismo. Sempre fui interessado em boas histórias e também naquilo que é diferente de nós. Durante muito tempo, flertei com Antropologia Cultural, porque me interessa chegar a um meio social que não é exatamente o meio do qual eu fui, o qual eu frequento. A gente está num tempo de tanta radicalização, de tanta repulsa. Por isso, talvez, mais do que nunca, seja importante ouvir o outro numa perspectiva generosa, ouvir com a ideia de aprender que nem tudo é exatamente aquilo que a gente acha, que nem tudo é nossa experiência apenas. É desse confronto, desse diálogo, que a riqueza da vida pode fluir, pode nascer.

Voltando ao Alberto Mussa, ele escreveu que, quando leu pela primeira vez seus contos, teve certo medo de que você não conseguisse permanecer como escritor. Disse que, a cada ano, os prelos cuspiam antologias carregadas de experimentalismos formais já quase seculares e que você remava vigorosamente contra toda aquela maré. Esse seu remar é consciente?

Não acredito que seja um remar consciente não. Não tenho absolutamente nada contra o experimentalismo na literatura. Muito pelo contrário. Acho que há experimentações interessantíssimas, assim como há livros mais calcados na tradição literária, na linearidade, no registro da tradição, que são excelentes também. E há livros ruins nesses dois vieses. Uma questão que prezo muito como escritor é ser sincero àquilo que te leva a escrever. Essa sinceridade nada tem a ver com busca da verdade. A gente está falando de ficção, afinal de contas. Mas, sim, um pacto de sinceridade com aquilo que te leva de fato: por que você foi escrever ficção? Por que você foi escrever literatura, contos, romances, poemas? O que te motivou a isso? O que te motiva a isso não é uma moda de ocasião. Não é porque, agora, vamos dizer, estão na moda livros experimentais que vou fazer livros experimentais. Não é porque estão na moda romances policiais que vou fazer romances policiais. Acho que a arte mais profunda está ligada à necessidade de expressão, e como ela se dá. Isso independente de modismo de ocasião, de ondas de momentos. Não tenho nenhum compromisso com ondas estéticas que possam vir. Até porque essas coisas passam.

Seus contos foram traduzidos para países, como França, Alemanha e Estados Unidos. Você diz que sua intenção é dar uma “cor local” aos seus escritos. Essa “cor local” tem abertura lá fora?

É curiosa a relação de como a literatura brasileira é vista em outros países. Nessa viagem (para participar da Primavera Literária de Paris), passamos pela França, Bélgica e Portugal, e percebemos um interesse muito grande de que a literatura desse conta de questões brasileiras, dos problemas políticos e sociais do país. Como se a nós, brasileiros, não fosse permitido escrever sobre relações amorosas, por exemplo. Como se esse fosse um assunto exclusivo de escritores de certos países. Acho natural isso, porque um leitor da França tem na literatura do país dele, por exemplo, um amplo repertório de histórias de amor e de perda. Então, quando ele vai ler um escritor desconhecido de outro país, ele quer ver uma cor local. Acho que não podemos ficar escravo disso. Afinal de contas, não escrevo para o leitor de fora. Escrevo para um leitor ideal que, no fundo no fundo, talvez fosse eu mesmo. Acho que gente escreve uma coisa que a gente gostaria de ler. Se esse texto faz sentido fora do país ou não, acho que é uma consequência, mas nunca uma busca.

Seu interesse pela cidade do Rio vem desde sua estreia como escritor. Sua obra fala, com nostalgia, de um Rio que não existe mais ou de um Rio que pode deixar de existir?

Acho que tem dois flancos aí. Por um lado, sobretudo nas crônicas, no meu livro anterior, realmente busquei registrar um Rio de Janeiro em vias de desaparecimento, porque acho que as crônicas têm um pacto com o hoje. Mas acaba sendo uma forma de dar eternidade a certas paisagens urbanas, a certos comportamentos, a certas gírias. Quando você registra aquilo sobre forma de literatura, por mais que aquilo acabe, fica registrado e ganha uma certa eternidade. Baudelaire dizia que uma cidade envelhece mais rápido que um coração mortal. Quer dizer, a gente está sempre em descompasso com a cidade. A cidade apaga as nossas marcas de pertencimento, uma praça que a gente frequentou, um bar aonde a gente ia. A tendência é que essas coisas se transformem, e a gente fique com uma relação um pouco nostálgica com ela. Na crônica, realmente tenho esse compromisso. No conto, na minha parte mais ficcional mesmo, meu compromisso é com o agora. É falar de uma cidade que está viva, está potente e que, em geral, não aparece na literatura.

Você disse em uma entrevista que esse é seu livro mais autoral. O que o diferencia dos outros?

Não que não goste dos meus livros anteriores, é claro. Prezo muito os livros de contos anteriores, mas eu tinha uma quase obsessão com o retrabalho do texto literário para que ele ficasse absolutamente primoroso do ponto de vista formal. Acho que nesse livro deixei o texto um pouco mais solto, fiquei menos preso a esse retrabalho. Longe de isso significar desleixo, mas deixei passar algumas ranhuras e, por isso, acho que ele é mais próximo da nossa experiência de vida cotidiana. Nossa vida não é passada a limpo, ela tem um pouco de rascunho, é escrita enquanto a gente está vivendo. Então, é nesse sentido. Talvez eu tenha me encontrado com uma forma de escrever original minha, mas é uma impressão. Quem tem que dizer isso é o leitor na verdade.

Os contos cariocas de Marcelo Moutinho

‘Ferrugem’, de Marcelo Moutinho, reconstrói a tradição do escritor flâneur, atento ao que passa ao seu redor

JONATAN SILVA

As ruas de qualquer cidade são um reflexo de seus habitantes, Dalton Trevisan, de forma idealizada, retratou a (ainda e, ao que tudo indica, cada vez mais) provinciana Curitiba – principalmente, das décadas de 1940, 1950 e 1960. Anos antes, João do Rio (1881 – 1921) havia feito o mesmo com a capital fluminense. De certa maneira, a tradição do escritor/jornalista flâneur estava desaparecida, esquecida. Ferrugem, de Marcelo Moutinho, parece retomar a escrita como um mapeamento de realidade e contextos.

Com uma linguagem simples e direta, Moutinho narra situações pitorescas – como o garoto que se masturba na boneca da irmã ou do professor que se refugia em uma sauna gay – com uma naturalidade rica em detalhes. São composições do cotidiano – o homem apaixonado por uma desconhecida dentro do ônibus e a mulher soropositiva abandonada pelo namorado – ou criações dignas do realismo fantástico – a estrela que cai no tapete da sala após “brotar” do televisor, uma alegoria para as celebridades miúdas e insossas que povoam a televisão brasileira –, mas todos os textos guardam um tom muito próprio do autor, o que chega a dar a impressão de o narrador perpassa tudo aquilo.

O livro é uma literatura da porta para fora, de um autor que se sente confortável em andar nas calçadas, sentar em um bar qualquer e tomar uma cerveja.

Em Ferrugem tudo é muito cru, como se o leitor não pudesse ser poupado de nada. Ainda que o livro seja composto apenas por contos, a linha com a crônica é tênue e quase invisível. Há uma relação forte com o corriqueiro, pessoas que passam sem que sejam vistas. Em todos os 13 textos, Moutinho usa gente comum para compor seus personagens, gente capaz de fazer o banal brilhar. Em entrevista ao canal Arte 1, o escritor explica que, nesse sentido, buscou inspiração no argentino Ricardo Piglia (1941 – 2017). “Meu interesse foi tirar do relativo silêncio esses personagens, (…) e falar sobre a potência que suas vidas têm”, disse.

No caos urbano, não existe abismo maior que a cidade. E o que Moutinho faz é, justamente, explorá-lo, desmembrá-lo – algo muito próximo do que fez paranaense Carlos Machado elaborou em Passeios, seu livro mais recente. Em similaridade, Machado e Moutinho buscam por um discurso das ruas, ou seja, discursos babélicos e labirínticos.

“O conto”, comenta o autor carioca, “é uma crítica a essa modernização a qualquer preço”. Ferrugem vai no cerne do problema: extrapola os limites e as possibilidades da narrativa contemporânea, subverte o que há de tradicional – sem que precise desrespeitá-la – e se estabelece como a voz dos calados.

O livro é uma literatura da porta para fora, de um autor que se sente confortável em andar nas calçadas, sentar em um bar qualquer e tomar uma cerveja.

A ferrugem de Marcelo Moutinho

Novo livro do escritor carioca traz leves flagrantes do cotidiano da cidade

MARCUS FAUSTINI

“Ferrugem”, novo livro de contos do carioca Marcelo Moutinho, monta uma boa armadilha para o leitor. A partir de leves flagrantes do cotidiano da cidade, o autor vai nos conduzindo por instantes de densidade emocional na vida dos personagens onde cabem expectativas sentimentais de uma vida inteira. A ferrugem pode ser vista como prova de maus cuidados, má proteção ou até apodrecimento. Mas a ferrugem de Moutinho é outra. É a presença de rastros de vidas que capturam nossa atenção. É um livro que nos convida ao melhor da tradição do gênero — riso gostoso com as situações contadas e partilha de raras emoções.

Quando comecei a ler contos, na distante e amada coleção “Para gostar de ler”, a descoberta do gênero foi uma das melhores impressões que a literatura me causou. Ao ler os contos, “me pegava rindo na mente” — era a justa expressão que usava na época. Era bom sentir aquilo. O modo dos autores, como Paulo Mendes Campos e Rubem Braga, narrarem situações parecia familiar, mas com a concentração temporal do gênero trazia riso, mas também um ritmo pausado na respiração acompanhado da constatação: eu sinto um lance assim, mas não sabia que sentia assim. A lente de aumento no cotidiano e as fugas para mergulhos em aspirais de sentimentos foram duas estruturas que o gênero conto me apresentou como forma de perceber a vida. A leitura do novo livro de Marcelo Moutinho refez esse laço com o conto.

Moutinho vai no ponto central de uma tradição de contos de costumes cariocas. Estão lá situações inusitadas do cotidiano, descrição de hábitos, personagens com localização social bem definidas etc. No conto “362”, aquela antiga sensação prazerosa de sorriso de canto de boca ao ler um conto e identificar um modo diferente de narrar uma situação conhecida é predominante ao acompanhar a cobradora de ônibus tentando juntar um casal, por exemplo. As histórias de Moutinho nos envolvem nessa tradição do conto. Mas essa investida de Moutinho não deixa de arriscar curvas psicológicas nos personagens, não se trata apenas de um panorama de situações cariocas de costumes. Se em algumas histórias a geografia é predominante, determinando as ações dos personagens, em outras temos um conjunto de capturas de instantes, de estados emocionais em que cabem mergulhos em sentimentos de uma vida inteira. Essa é a boa armadilha do livro. Nos envolve no conto, apresenta pequenas investidas sentimentais e depois nos convida a mergulhar em instantes de densidade emocional. Tudo sob o domínio da arte do gênero do conto.

A irmã mais nova que flagra a iniciação sexual conflituosa do irmão mais velho, no conto “Xodó”, indica caminhos de delicadas escolhas de densidades por onde o autor vai nos conduzir em contos seguintes. A escolha do autor não é apenas por um registro único dessas densidades. Os personagens experimentam emoções diferentes diante da vida. De um lado, por exemplo, temos um velho cover de Roberto Carlos que, no conto “Rei”, usa uma poupança inteira para fazer um show próprio dentro da boate que trabalha cantando nos intervalos. Ele, diante do sucesso da empreitada, experimenta uma alegria fruto da ousadia de realizar algo, depois de muitos anos fazendo a mesma coisa. Por outro lado, no conto “Três apitos”, a mudança de hábito ao receber o resultado positivo de um exame HIV faz uma caixa de supermercado reaprender a lidar com o cotidiano. A vida e os sentimentos passam a ser regidos pelo horário de tomar o remédio. Esses experimentos de mergulhos em instantes de vidas com registros emocionais diferentes expandem o repertório de situações do conto de costumes. Os personagens dos contos de Moutinho não se localizam apenas num Rio nostálgico, seu tempo é o agora. Reside neste gesto um importante posicionamento político e estético do autor: ele fala de uma cidade contemporânea a partir das vozes de personagens que geralmente são narrados, em outros casos, apenas como tipos peculiares, incapazes de serem portadores do agora.

Cabe dizer que é impossível, ao ler o livro, não pensar na constante militância do autor em prol da atividade literária e da cultura carioca popular. Moutinho atravessa o livro com essa paixão. Da escolha dos endereços onde acontecem suas histórias até a escolha de eventos: futebol, ônibus etc. Uma paixão declarada à cidade do Rio, mas sem cair no deslumbre da única paisagem, limitada à orla e ao Cristo. Marcelo Moutinho domina o conto, domina uma certa imaginação geográfica carioca e se arrisca a dar contornos e mergulhos emocionais aos personagens. Ao ler o livro, bateu uma vontade de ler um romance do autor.

“De tudo, fica um pouco” é o que diz, citando Drummond, um dos personagens do conto “Something”, para reconfortar um amigo. Em seu caso ficou a canção dos Beatles — que dá nome ao conto — como um resíduo de uma história de amor. “De tudo, fica um pouco.” Da leitura do novo livro de Moutinho, que fiz numa fuga do último carnaval, ficou essa boa sensação de reviver o mergulho em instantes de vida que um conto é capaz. E por último: ler o conto “As praias desertas” é como ouvir uma canção de despedida de um amor que se foi ou não veio. Uma imperdível sensação.

 

 

Obra rica de vozes e perspectivas

ANDRE LUIS MANSUR

Nos 13 contos de “Ferrugem”, novo livro de Marcelo Moutinho, transitam personagens que encontramos nas esquinas, ônibus, praias, bares, boates e em outros cenários, inusitados ou nem tanto, de um Rio de Janeiro que o autor, carioca de Madureira, conhece tão bem. O estilo nascido em seu primeiro livro, “Memória dos barcos”, de 2001, permanece aqui, no entanto mais encorpado, com pleno domínio de uma estrutura narrativa que muito mais sugere do que afirma.

Moutinho foge dos estereótipos de uma cidade caótica por natureza, com suas doses de violência cada vez mais intensas e surpreendentes, e todos os demais problemas que a metrópole de um país com tantos problemas sociais e políticos corruptos pode carregar. Ele desconstrói a expressão “cidade partida”, criada por Zuenir Ventura, ao situar seus personagens em Honório Gurgel, no Lins, na Tijuca, no centro da cidade, na Urca e, claro, em Madureira, todos com os mesmos problemas, angústias e esperanças, como o rapaz que se apaixona por uma passageira no ônibus (“362”), o casal que comemora o aniversário da esposa em um restaurante chique com uma frieza impressionante, (“Jantar a dois”), o intérprete de músicas de Roberto Carlos que se prepara para o show de sua vida numa boate da Lapa (“Rei”) e a expectativa de uma menina em conhecer o Maracanã, apesar da relutância do pai, traumatizado com a derrota do Bangu para o Coritiba na final do brasileiro de 85 (“Domingo no Maracanã”).

O conto, que no Rio de Janeiro já reverenciou mestres como Machado de Assis, Lima Barreto, João Antônio, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Drummond, entre muitos outros (não todos nascidos na cidade, mas que a utilizaram como matéria-prima de boa parte de sua obra), encontra na obra de Moutinho, que também é um ótimo cronista, características essenciais de um estilo literário que permanece em plena ebulição, como a clareza e a concisão, o olhar sensível do cotidiano das ruas e o clímax, não necessariamente impactante, mas provocativo e reflexivo.

Muitos dos seus personagens se alimentam da nostalgia, acrescida aí de boas doses de melancolia, solitários na multidão, pessoas que por algum motivo não se transformaram naquilo que desejavam, seguiram por caminhos conflitantes e de repente se veem perplexas diante de uma realidade da qual não gostariam de fazer parte. “O que trinta anos não fazem com uma rua. Não conheço mais ninguém. Andei uns trezentos metros, parei em quatro quiosques e ninguém. Era mato sobre areia, lembra? E os trailer com cachorro-quente da Geneal” (do conto “As praias desertas”).

Em alguns contos temos mulheres e crianças no papel de narradoras, nestes casos o autor do livro mergulha com naturalidade em outros papéis, enfrentando as agruras do machismo e a indiferença em relação às fantasias infantis ou, como no caso do primeiro conto, “Xodó”, uma aberração cometida pelo irmão mais velho da menina. Variando de cenários, de gêneros e classes sociais, Marcelo Moutinho vai construindo uma obra rica de vozes e perspectivas, todas dentro de uma única cidade, fazendo do “seu quintal” um mundo onde o olhar sobre o outro é o personagem principal.

 

Um jeito próprio de contar histórias sobre o cotidiano da população carioca

NILTON ARAÚJO

Marcelo Moutinho (1972) é jornalista e escritor. É autor de vários livros como “Somos todos iguais esta noite” (Rocco, 2006), “A palavra ausente” (Rocco, 2011), “Na dobra do dia” (Rocco, 2015) entre outros. Seus contos já foram traduzidos para diversos países.

Ferrugem” é o seu mais recente livro de contos, o primeiro publicado pela editora Record e, com certeza, um dos melhores que já li. Fico feliz por ser de um escritor brasileiro, pois o mesmo, com sua leveza, consegue imprimir um jeito próprio de contar histórias sobre o cotidiano da população carioca. Embora possua um estilo delicado e humanizado de contar histórias, Moutinho nos choca com relatos ficcionais (e por que não, reais) de protagonistas comuns, anônimos que compõem o cenário urbano de uma das maiores metrópoles brasileiras.

Agradou-me bastante a ambientação que mostra o Rio de Janeiro com suas paisagens e costumes citadinos, onde as histórias se passam em locais literariamente inusitados, como um ônibus, supermercado e um estádio de futebol, por exemplo. Somam-se a isso personagens tão incríveis que fogem do habitual. O autor deu vida e voz a personagens que escapam dos estereótipos. Em “Ferrugem”, o drama cotidiano é a bola da vez, o fio condutor que nos leva à montanha russa de emoções que o autor nos presenteia.

Selecionar os contos que mais gostei é praticamente impossível, porém, o que mais chamou minha atenção e ao mesmo tempo conduziu-me a um bom e necessário momento de reflexão sobre a vida e nossas ações foi “Três apitos”, que relata como a sociedade lida com os portadores do HIV e como os mesmos sofrem silenciosamente o peso da luta diária contra o vírus.

Vale destacar também que o conto “Jantar a dois é o retrato dos relacionamentos conjugais. É narrada a história de um casal que sai para comemorar o aniversário de casamento e, de forma sutil, o autor evidencia-nos acerca dos riscos de relacionamentos aparentemente duradouros serem, de fato, máscaras que escondem sérias crises conjugais.

O conto mais divertido foi, sem sombra de dúvidas, “Gandula, que conta a história de um menino que sonhava ser jogador de futebol, porém, tem um final dos mais surreais e improváveis de todo o livro. Um conto que me causou crise de risos.

“Ferrugem” é um livro fascinante que será facilmente devorado (e degustado) pelo leitor. Seu cenário é familiar e sua realidade tangível. Um excelente exemplar da literatura contemporânea brasileira repleta de sentimentalismo que recomendo a todos.

 

‘Ferrugem’ reúne contos do cotidiano

MARCELA MUNHOZ

Para quem tem o dom de escrever, tudo pode inspirar. Até os problemas, chateações e histórias que fazem parte do nosso cotidiano. Aquelas que se misturam na classificação ‘tão comum’ que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Não para um escritor. Marcelo Moutinho é daqueles que observam tudo e mais um pouco. O dia a dia das cidades é o grande tema de Ferrugem (editora Record, 160 pág., R$ 34,90), a ser lançado hoje, a partir das 19h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho), em São Paulo.

As histórias de Ferrugem tratam da corrosão do tempo sobre as coisas e as relações. Os protagonistas dos contos são pessoas comuns, mas que passaram por situações ou que têm características tão marcantes que mereceram um dedo de prosa. “São pessoas envoltas em tramas com alta voltagem poética”, resume Alberto Mussa na orelha da obra.

Entre os contos está o de um garoto que sempre sonhou ser jogador de futebol, mas que, no fim das contas, só consegue vaga para gandula; tem também menina que relata como foi sua visita ao Maracanã pela primeira vez; casal que passa o jantar todo sem trocar uma palavra; a moça soropositiva, caixa de supermercado, que reencontra o antigo namorado; a cobradora de ônibus que dá conselhos amorosos a um passageiro, entre outros.

Dramas cotidianos de personagens aparentemente comuns deslizam entre passado e presente, desejo e experiência

MANOELA SAWITZKI

Carioca de Madureira, o jornalista e escritor Marcelo Moutinho retoma em seu quarto livro de contos, “Ferrugem”, temas que o acompanham desde a estreia, em 2001.  Nesta vasta “paisagem humana” que atrai seu olhar e alimenta sua escrita, dramas cotidianos de personagens aparentemente comuns deslizam entre passado e presente, desejo e experiência.

O lançamento de “Ferrugem” acontece nesta terça-feira, 31 de janeiro, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, a partir das 19h. Na quinta-feira, o autor dará autógrafos em São Paulo, na Livraria da Vila Fradique Coutinho, também às 19h.

 A questão da memória tem sido matéria essencial pra tua escrita. Por isso gostaria de começar pela tua memória enquanto escritor. Teu primeiro livro publicado, Memória dos Barcos (o título, aliás, já dizia a que você vinha, ou o que te movia), é de 2001, mas como e quando você sentiu que precisava escrever e passou a escrever de fato? O conto, como forma, esteve ali desde o começo?

Sempre tive afeição pela escrita, desde bem criança. Isso, inicialmente, ocorreu por intermédio das histórias em quadrinhos. Li muita HQ até conhecer a célebre coleção Vaga-Lume, da editora Ática. Adorava aquela série. Autores como Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Maria José Dupré… À literatura dita adulta, cheguei por meio das estantes de minhas irmãs mais velhas, que tinham muitos títulos do Círculo do Livro. E, sobretudo, pelas vias da crônica e da poesia. Aliás, foi sob a forma de poema que arrisquei as primeiras palavras escritas. Costumo dizer que eu “cometia” poemas, de tão ruins que eram – embora tenha até ganhado um concurso lá no Colégio Hélio Alonso do Méier, onde estudei no fim dos anos 80. A passagem para a prática da prosa só foi acontecer após a faculdade de Jornalismo. Talvez por achar que o texto da reportagem não dava conta daquilo que gostaria de dizer, que faltava algo. Desde o começo, o gênero foi o conto. Não que tenha algo contra o romance – adoro ler romances. É que, ao menos até hoje, as histórias que escrevi pediram brevidade. E, no meu caso, é a história quem manda.

E quanto ao jornalismo? Você escolheu esse curso num momento em que ainda havia uma espécie de aura em torno da profissão – grandes nomes, textos, cronistas e espaço pra reportagens que se aproximavam do jornalismo literário. E muitos escritores fazendo parte do cotidiano de jornais e revistas. Foi esse o universo que te atraiu?

Certamente. Quando fiz o vestibular, o Brasil vivia sua primeira eleição direta após o longo período da ditadura civil-militar. Era um momento de pujança, de intensos debates, e os jornais estavam no centro desse processo. Refiro-me mais aos espaços de reportagem e de opinião do que às colunas de crônica. Essas que, infelizmente, rarearam de lá para cá na imprensa escrita.

Você já disse que privilegia personagens que estão “fora da pauta”, fazem parte do cotidiano e estão por toda parte. Este novo livro, Ferrugem, é como um arquivo repleto deles. A cobradora de ônibus, a caixa do supermercado, o gandula, o cantor que imita Roberto Carlos numa boate de strip… só pra citar alguns. O que te leva a procurar por essas vozes? E como é o processo pra chegar em presenças tantas vezes silenciosas e silenciadas?

Percebo, às vezes, certo ensimesmamento na literatura brasileira contemporânea. Uma repetição de personagens que são escritores, ou jornalistas, ou de alguma forma ligados às ciências humanas. Não que isso mereça, em si, críticas.É apenas uma constatação. E, no meu caso, o interesse é outro. São as histórias, as vozes desses indivíduos que, como você bem observa, não raro sofrem um interdito na nossa ficção. Em vez de explorar a angústia do protagonista com a própria escrita, o jogo de espelhos meta-literário – assuntos que podem render ótimas narrativas, reitero -, me apraz imaginar o cotidiano de uma trocadora de ônibus, com suas tiradas, seu entorno, seu modo de ver o mundo. Ou iluminar a arte dita menor do cover de Roberto Carlos que se reveza no palco com as travestis de uma boate da Lapa.Tudo isso com o auxílio da fabulação, é claro, já que estamos falando de texto ficcional. O filósofo Walter Benjamin escreveu que não há nada especial em nos orientarmos em uma cidade, mas que é preciso aprender a se perder na cidade assim como nos perdemos numa floresta. Para que agucemos os sentidos, para que possamos ouvir os nomes das ruas “como o estalar de ramos secos”. Lembro da frase do Benjamin quando você me pergunta sobre meu processo para chegar a esses personagens, a essas “presenças silenciosas”. O processo é viver também fora da bolha do mundo literário.

Benjamin tem sido então uma referência de deriva, um guia pra esse “narrar a cidade” no seu cotidiano? Quem mais te acompanha?

A referência de Benjamin vem, principalmente, dos textos Rua de sentido único e Infância em Berlim por volta de 1900, nos quais a questão da cidade é central. E a relação narrativa/cidade sempre me atraiu, nas suas mais variadas vertentes. Para você ter uma ideia, quando cursei a pós-graduação, meu trabalho final foi sobre a obra do cineasta Wim Wenders. Mais especificamente sobre a forma como ele transforma Lisboa, Berlim e Paris – não a capital francesa, mas a pequena localidade que faz parte do Estado do Texas – em protagonistas de três de seus filmes: “O céu de Lisboa” (“Lisbon Story”), “Asas do desejo” (cujo título original, vale lembrar, é “O céu sobre Berlim”) e “Paris, Texas”. Há alguns anos, organizei uma seleta de ensaios que versam sobre o modo como o Rio de Janeiro apareceu, ao longo da história, na música brasileira. No ano retrasado, foi a vez de uma coletânea de textos na qual 35 escritores trataram afetivamente dos bairros onde moraram, mote que já havia norteado a antologia “Prosas cariocas”. O próprio ofício de cronista, que exerci por quase cinco anos, está profundamente ligado ao espaço urbano. Então, voltando para o campo da literatura, poderia dizer que me acompanham todos os autores cujas obras têm um vínculo íntimo com as ruas da cidade, com esse emaranhado polifônico de construções e existências.

O conto “As praias desertas” traz a voz de mulher que retorna, eu diria, mais do que pra um homem, pra imagem de um homem. O tempo passa, a cidade muda, mas essa imagem perdura nela. Ele me fez pensar muito em algo que Didi-Huberman escreveu: “A imagem arde pela memória, quer dizer que de todo modo arde, quando já não é mais que cinza: uma forma de dizer sua essencial vocação para a sobrevivência, apesar de tudo”. A literatura, a escrita, enfim, é uma forma de impedir que certas imagens desapareçam, concorda?

Concordo totalmente. Em certo sentido, a literatura é uma forma de sacanear a morte. O conto a que você se refere se inspirou na canção homônima, composta pelo Tom Jobim e gravada pela Elizeth Cardoso em 1958.E, nessa canção, especificamente nos versos que dizem: “as praias desertas continuam /esperando por nós dois”. A imagem de uma promessa. A história tem muito a ver com uma das epígrafes do livro, um verso do Vicente Huidobro que encontrei, anotado a caneta, num caderno do Iberê Camargo: “En todos los caminos se ha perdido una estrella”. No fundo, a protagonista, assim como vários outros personagens de “Ferrugem”, vive sob o espectro dessas estrelas que se perderam no caminho. No caso da protagonista-narradora, no hiato entre o pacto quanto ao encontro futuro e a expectativa de sua realização. Essa imagem “que arde pela memória”, e de todo modo arde,evocada em sua pergunta, é a imagem que tenta ser imune à corrosão. É o ferro que luta para inverter o processo natural e, assim, comer a ferrugem, como no poema de João Cabral de Melo Neto do qual tirei o título do livro.

A sensação de um passeio por crônicas sentimentais ganha toques estranhos, especiais em dois contos, “Caiu uma estrela na minha sala”, e “Domingo no Maracanã”.  São deslizamentos pelo fantástico feitos de forma suave. Quando o fantástico, o extraordinário tem lugar na vida cotidiana?

Quase sempre. Embora muitas vezes não seja percebido, ou tendamos a acondicioná-lo no escaninho da banalidade, como acontece em “Caiu uma estrela na minha sala”. Já o conto “Domingo no Maracanã” se vale do fantástico para esboçar uma crítica. Um “comentário”,ainda que no âmbito da ficção, sobre o que fizeram com o histórico estádio. Quando o escrevi, há cerca de dois anos, não poderia imaginar que o texto estaria agora ainda mais atual. A fresta onde a menina descobre uma espécie de “Aleph” do futebol brasileiro é o portal mágico que se contrapõe à lógica da modernização a qualquer preço (e sabemos, hoje, que esse preço foi altíssimo). A fenda da memória, que reveste de valor simbólico um local que não deveria ser visto como mera edificação de cimento, tijolos e grama. Que, mais que isso, é depositário de mitos, dramas, reminiscências. Não à toa evoco um jogo do Bangu nesse conto. O Bangu aqui, de certa forma, é a trocadora de ônibus, a caixa de supermercado, o cover do Roberto Carlos. No universo do futebol, é o “micro” solapado pelo “macro”,uma voz silenciada pelo processo de padronização que esfarela singularidades.

Música e futebol também são presenças constantes nos teus textos. Você pode falar um pouco sobre esses cruzamentos?

Ambos fazem parte do meu cotidiano de forma muito intensa. Em “Ferrugem”, o futebol aparece no já citado “Domingo no Maracanã” e em “Gandula”, a história de um menino que quer ser o camisa 10 de seu time do coração. No caso do futebol, é minha forma de contribuir, também, para que esteja mais presente na nossa literatura contemporânea. Felizmente, depois de muitos anos de relativa ausência, temos visto o tema ressurgir em ótimos livros de ficção. Lembro aqui, por exemplo, de “Páginas sem glória”, do Sergio Sant’Anna; “O drible”, do Sérgio Rodrigues; e “Maracanazzo”, do Arthur Dapieve. Quanto à música, sou ouvinte assíduo, sobretudo de artistas brasileiros, frequento rodas de samba e tenho igualmente ligação íntima com o carnaval. De modo que esse interesse vaza de forma para as histórias que escrevo. No novo livro, há alguns diálogos neste sentido. São os casos da já mencionada “Praias desertas”; de “Something”, que evoca o sucesso dos Beatles; “Dezembros”, cuja trama se desenrola à sombra da história da Rádio Nacional; e também de “Três apitos”, que ecoa, numa história contemporânea, a pungente canção de Noel Rosa.

“Três apitos” também toca na questão do HIV de uma forma ainda pouco discutida – a contaminação entre mulheres e heterossexuais. Segue forte o estigma do “câncer gay”, ainda que ele tenha sido desmontado cientificamente nas últimas décadas.  Assim como segue forte o estigma moral, que o conto igualmente aborda.O “não esquecer” que se repete ali parece apontar também pra essas questões.  Foi a tua intenção? Como surgiu essa personagem?

A personagem da caixa de supermercado é a gênese do conto. Foi quem surgiu primeiro, antes mesmo do enredo. Queria fazer uma ponte entre a época na qual Noel Rosa compôs a canção e a atualidade. Como no local onde funcionava a fábrica dos famosos “três apitos” há hoje um supermercado, procurei situar a trama ali, naquele espaço remodelado. A ideia de incluir a questão do HIV veio pela vontade de fazer um contraponto a esses estigmas que você menciona. De me valer do tema amoroso da música do Noel para tratar um tema contemporâneo.É incrível que depois de tantos anos ainda se ache que o HIV é um vírus restrito a guetos. E tão estarrecedor quanto isso é o estigma de ‘morte em vida’ que perdura com relação aos soropositivos, apesar dos enormes avanços no tratamento, que possibilitaram que a soropositividade seja agora uma condição controlada por remédios.O “não esquecer” ecoa intencionalmente, como um apito que insiste em tocar, seja para fazer ressoar o alarido do estigma, do renitente tabu, seja para lembrar que amanhã é outro dia, que há de se fazer planos, apostas. Enfim, que a vida segue.

Você escreve sempre? Digo, a escrita, e antes dela, a atenção pra esse universo de personagens “fora da bolha” é algo permanente no teu próprio cotidiano?

Sim. A forma com a qual consigo me expressar melhor é a escrita. Quanto à atenção para esse universo, acho que a experiência de ter me dedicado a produzir uma crônica semanal por quase cinco anos acabou por abrir mais os meus olhos, por apurar a audição, fazer com que passasse a prestar mais atenção no entorno. E isso possivelmente influenciou a criação dos 13 contos que formamo novo livro.

Marcelo Moutinho põe em foco personagens ‘marginais’ em seus contos

Relação das pessoas com a lembrança liga ‘Ferrugem’

O escritor carioca Marcelo Moutinho volta a brindar o público em seu quarto livro, o recém-lançado “Ferrugem”, com uma coletânea de contos sobre a passagem do tempo. O tema predileto do autor, porém, retorna repaginado: agora estão no foco de seus contos de realismo fantástico personagens quase invisíveis na sociedade, como caixas de supermercado e um gandula de futebol.

“Gandula”, inclusive, é um dos melhores contos do livro, narrando a vida de um menino que tinha sonho de ser jogador de futebol, mas que nunca consegue entrar em campo. “Caiu uma estrela na minha sala”, cujo título resume a trama, também é um destaque por sua ousadia narrativa.

Com narrativas simples e bem-escritas, Moutinho não dá ponto sem nó no livro, sempre abordando a memória como ponto constituinte mais forte da personalidade.

Suíte carioca para o homem comum

ANTONIO TORRES

Tentando escrever um romance. O que significa deixar as leituras para mais adiante. Mas num intervalo pego o “Ferrugem”, novo livro de contos de Marcelo Moutinho, e aí lá se foi o tempo. Quando dei por mim já estava no ponto final. E o melhor: maravilhado. É tudo tão bem urdido, tão bem contado, que você vai se deixando levar, frase a frase, parágrafo a parágrafo, página a página. É impressionante como não há nada nele fora de lugar. Cada conto segue um encadeamento envolvente, com diálogos muito bem construídos e finais nada previsíveis. Outro ponto (alto) do autor: por trás de suas tramas, há um Rio de Janeiro refratário aos clichês. E sua galeria de tipos humanos é descrita de forma sensível, tocante. Em síntese: o que Marcelo Moutinho compôs foi uma suíte carioca para o homem comum, que me fez lembrar um título do novaiorquino James Baldwin (1924-1987), “No name in the street”, publicado aqui há tempos pela Brasiliense como “Rua sem nome”. Quem quiser saber mais (e melhor) sobre este “Ferrugem” que pergunte a Alberto Mussa, que o apresenta magnificamente.

Moutinho volta ao Rio

No recém-lançado “Ferrugem”, escritor retoma a capital fluminense, a partir de personagens marginais

A batalha diária contra a passagem do tempo, tendo ao fundo um Rio de Janeiro que se transforma mais rapidamente do que os cariocas são capazes de absorver. Esse é o fio condutor dos contos reunidos em “Ferrugem”, novo livro de contos de Marcelo Moutinho, que será lançado na terça-feira, às 19h, na Livraria da Travessa em Botafogo. Na sua primeira seleta em cinco anos e também sua estreia na editora Record, o escritor traz como protagonistas os personagens sem glamour que povoam o Rio de Janeiro, como o cover de Roberto Carlos que se apresenta num “inferninho” da Lapa entre dois shows de strip-tease, no conto “Rei”.

— A busca por esses personagens é consciente. A gente tem uma literatura muitas vezes ensimesmada, com protagonistas que são, muitas vezes, escritores em crise com sua própria criação, um jornalista, um publicitário. Eu queria falar da trocadora de ônibus, do menino cujo avô trabalhou na Rádio Nacional. Meu projeto é tirar um pouco do silêncio esses personagens da cidade que nos rodeiam o tempo todo — afirma Moutinho.

O escritor diz que faz questão de “dar uma cor local” aos seus textos. No conto “Domingo no Maracanã”, a menina Rita mora em Madureira — bairro onde Moutinho nasceu e cresceu — e pega o ônibus com o pai, Adolfo, no ponto da Rua Carvalho de Sousa. Durante a visita ao estádio, Rita descobre uma fenda que lhe permite rever a partida que foi o grande trauma futebolístico do pai, a derrota do Bangu na final do Campeonato Brasileiro de 1985 contra o Coritiba. Na primeira versão, conta Moutinho, o jogo seria a final da Copa de 1950, entre Brasil e Uruguai, mas depois ele optou pela tragédia do alvirrubro da Zona Oeste carioca.

— Times como o Bangu expressam uma singularidade da nossa cultura. Têm uma forma particular de se relacionar com a cidade, as pessoas. Têm essa pequeneza que a crônica trata muito bem e eu tentei trazer para o conto — aponta. — Esses clubes são, mal comparando, a lanchonete da esquina onde você compra um joelho e um café pingado e daqui a pouco vai virar um Starbucks. Quando tudo vira rede, não há mais singularidade. É como se vivêssemos em um grande aeroporto.

O interesse de Moutinho pela cidade, suas instituições e seus personagens está presente desde o início do seu trabalho e passa pela organização das coletâneas “O meu lugar” (Mórula, 2015) e “Prosas cariocas” (Casa da Palavra, 2004), ambas com textos sobre bairros da cidade, e “Canções do Rio” (Casa da Palavra, 2010), sobre a presença do Rio na música brasileira. Para o escritor, toda cidade produz um discurso por meio de letreiros, bordões de camelôs, conversas no ônibus. É a partir dessa polifonia que ele recolhe matéria-prima para sua literatura.

Moutinho conta que não buscou retratar as mudanças pelas quais o Rio passou desde o lançamento de “A palavra ausente” (Rocco), há cinco anos, mas elas estão presentes, às vezes quase acidentalmente. O conto sobre o Maracanã, por exemplo, foi escrito no início das obras e, lido hoje, parece até uma premonição. Já o protagonista de “Dezembros” gosta de pescar no viaduto da Perimetral, que não existe mais. Para o escritor, a literatura tem a capacidade de driblar a morte e, no caso da cidade, a destruição.

— O livro é supercontemporâneo e já tem um quê de arqueológico, de falar de uma cidade que não existe mais. Ela muda mais rápido do que o nosso coração, e a gente costuma ter um sentimento de nostalgia — diz. — A contrapartida do escritor é dar a eternidade. A literatura consegue dar eternidade às coisas, consegue dar uma sacaneada na morte.

Esse sentimento nostálgico é típico da crônica, mas Moutinho procurou introduzi-los nos seus contos. O autor acredita que “Ferrugem” é o seu livro mais autoral e vê certa influência de sua própria experiência como cronista. Entre 2013 e 2016, ele escreveu semanalmente para o site Vida Breve, e parte dos textos foram reunidos em “Na dobra do dia” (Rocco), de 2015. A ferrugem do título está também no seu estilo, aponta:

— Com o compromisso de escrever uma crônica semanal, você deixa mais solto o texto. Eu tinha uma tendência a ficar trabalhando demais o texto em busca da perfeição, sem querer deixar passar nenhuma ranhura. Esse é um livro em que a ranhura aparece, e não é por não trabalhar, mas por acreditar que essas marcas fazem parte. A ferrugem está na vida da gente, inevitavelmente.

Outra matéria-prima dos seus contos é a música. “As praias desertas” leva o mesmo título da canção de Tom Jobim, gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso, em 1958. Já “Três apitos” recria a canção de Noel Rosa. Só que, no lugar da operária da fábrica de tecidos, entra a caixa do supermercado. Moutinho coloca sambistas ao lado de grandes escritores como suas principais influências.

— Uma vez me perguntaram quem me influenciou. Eu respondi: Paulo Mendes Campos, Kafka, Cony. E Roberto Ribeiro. Assim como João Nogueira, Cartola, Noel. Eles são fundamentais para a minha forma de ver o mundo, logo são fundamentais para o modo como escrevo. Não consigo achar a Clarice Lispector mais importante para o que eu escrevo do que o Roberto Ribeiro, de verdade.

‘Menos é mais’

Raul Arruda Filho

Escrever da maneira mais límpida possível. Sem truques de prestidigitação, sem dribles ou malabarismos desconcertantes, sem se estender desnecessariamente, sem sugerir que há alguma coisa escondida nas entrelinhas. O exercício da simplicidade. Menos é mais.

Oscilando entre o poético e o patético, entre as escolhas desafortunadas e as diversas cores que compõem as alegrias do existir, os 13 contos que integram Ferrugem, de Marcelo Moutinho, seguem esse proceder. Nos momentos em que ocorrem algumas variações temáticas (futebol, família, adolescência, amores frustrados), a ideia é – apenas! – contar uma boa história.

Cabe ao leitor abrir o livro e deixar que as narrativas contaminem os olhos e a mente. Por exemplo, em um dos melhores contos do livro, Domingo no Maracanã, Bia descobre uma espécie particular de Aleph (um portal onde ela consegue visualizar acontecimentos que não se concretizaram). Contrastando com a vertente contemporânea que prefere se concentrar na “vida como ela é”, a narrativa abre espaço para a fantasia e o sonho. Neste mesmo tom (uma perspectiva repleta de leveza e lirismo), Gandula apresenta um final verossímil e trivial. Mas, antes das últimas linhas, a vida de João – que parecia destinada às glórias futebolísticas – se consolida no ofício mais desvalorizado entre as quatro linhas do campo esportivo. Significativamente, esse não é um conto sobre o fracasso, é um relato sobre a redenção, sobre o caráter lúdico da vida.

O estranhamento também se faz presente em alguns contos. Jantar a Dois revela uma tessitura sutil. Em lugar de descrever o combate doméstico diário, onde imperam gritos e acusações sem substância, o leitor encontra uma imagem repleta de silêncios. A maneira com que o casal transformou suas vidas em rotina e falta de emoção é descrita com naturalidade. Eles estão unidos pela desunião. Ou pela ferrugem que corroeu o que havia de humano entre eles.

Todas as histórias de amor são ridículas, como comprovam 362 e As Praias Desertas. No primeiro, porque unilateral. Somente Custódio está apaixonado. Camila sequer sabe da existência dele. São encontros espaçados pelas idas e vindas do trabalho e comentados com o ceticismo da cobradora do ônibus – que narra a história. Aliás, em alguns momentos, parece que o desencontro está inserido no conto apenas para emoldurar a voz da cobradora – que é a personagem forte da narrativa. No segundo, o que está em jogo são as lembranças de um relacionamento que se perdeu no tempo. Enquanto espera por alguém que nunca vai chegar, a mulher vai espalhando fragmentos e ilusões na planície textual.

Assim como o motorista que perde a direção e causa um desastre de proporções inimagináveis, a vida estruturada do professor de contabilidade é tragada pelo inimaginável. Como relato, Sauna está mais próximo do mundo concreto do que da ficção.

A violência (real, imaginária, simbólica) que acompanha a passagem da infância para a vida adulta está descrita em Xodó. Trata-se de um primeiro contato com a sexualidade e suas perversões. Também destaca as sutilezas que envolvem a cumplicidade entre irmãos – e que rompem a isonomia que deveria existir dentro do relacionamento fraterno.

Salvo engano, dois dos contos (e que gravitam em torno da música) foram publicados em outros livros. Something está em O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bônus track (organização de Henrique Rodrigues) e Três Apitos faz parte de Conversas de Botequim – 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa (coletânea organizada por Henrique Rodriguez e Marcelo Moutinho).

Something estabelece a imprecisão dos sentimentos. Três Apitos reafirma esses equívocos. Enquanto em um há a procura pelos significados escondidos atrás da letra da canção dos Beatles, no outro há a desconstrução da lírica de Noel Rosa. Enquanto o primeiro estabelece a separação como complemento das relações amorosas, o segundo confirma que a felicidade de um casal está muito distante da vida cotidiana. De tudo, fica um pouco, comenta um dos personagens de SomethingCompreendi que pouco importa de onde veio, por onde veio, se o preservativo furou. O HIV está dentro do meu corpo, constata a narradora de Três Apitos.

Outros três contos completam o livro: Caiu Uma Estrela na Minha Sala, Rei e Dezembros.

O tanto que sonhamos

Claudia Nina

Ainda me estarreço diante de certas coincidências literárias, isto é, quando um texto de repente surge nas mãos e parece ilustrar o pensamento da hora – acho que existe um ímã entre o que a sente e o que escolhemos para ler.

O pensamento da hora: quando duas pessoas se separam por um longo tempo – o que as espera depois da longa espera? Com que emoção, rosto, desejo, palpitação encontrar o (in)esperado? Quantos sonhos cabem em 30 anos de vida? Estas ideias me rondavam até que dei de cara com um conto chamado “As praias desertas”, em Ferrugem, de Marcelo Moutinho. O conto é de uma simplicidade enganosa. O texto flui, no mesmo ritmo do cenário diante do qual está a personagem que narra: o mar calmo. Quase nada acontece, até porque ninguém mais pesca os siris, onde está o rapaz que trabalhava no trailer? Onde está o quiosque do Seu Mário? Mas não era ali o ponto de encontro? E se o ponto onde, no passado, os dois desenharam a linha imaginária na direção do futuro, e se este ponto desaparecer? Não mais?

Tudo se transforma, mas a substância da espera permanece: os sonhos, o que a vida fez da vida – é uma das questões que a narrativa (e o mar) trazem para a praia.  O moço do quiosque não era o mesmo, o siri também não. O outro lado da espera ainda não chegou. Será que virá? “Melhor ficar aqui. Se nós dois nos movermos procurando um ao outro, aí é que a gente não se encontra”.

Não se sabe o final da espera. O conto termina sem que a gente descubra, mas o mais certo é que não. O atraso talvez indique o desaparecimento total do tal ponto imaginário ligando o passado ao futuro. Quantas reflexões em uma história quase sem personagem, fiapo de enredo. Muito bom mergulhar em uma simplicidade aparente, como aquele mar que parece calmo, mas esconde funduras inesperadas.

Fica um convite para reflexões maiores. Será que dentro da vida de hoje cabem os sonhos de antes? Ou não? O que nos tornamos é muito maior do que nosso projeto de futuro?  Desconfio de que as minhas leituras sejam mesmo escolhas inconscientes; os pensamentos da hora buscam os textos de leitura para que, em seguida, os textos da escrita ganhem corpo. Em outras palavras: já comecei a escrever mais um romance, e tudo de bom que se lê é alimento para o trabalho. Esta praia deserta que o diga.

Imersão na realidade

Ferrugem, de Marcelo Moutinho, reúne 13 contos de narrativas ágeis e enxutas sobre pessoas comuns, imersas no trágico cotidiano urbano

TADEU SARMENTO*

Segundo o dicionário corrente, a “ferrugem” é um hidróxido de ferro de cor vermelho-alaranjada, produto da corrosão do ferro em presença do oxigênio atmosférico e em meio úmido. Por extensão, é o ato ou o efeito da corrosão sobre qualquer metal. Em Ferrugem, Marcelo Moutinho utiliza a imagem como uma metáfora para a passagem do tempo e para o fato de que ele, o tempo, ao final, corrói tudo aquilo sobre o que avança. Trata-se de uma lei da natureza, que o autor faz refletir no espaço de embate dos sentimentos mais comuns.

Em Jantar a dois, por exemplo, é o tempo que corrói o casamento e as relações humanas. Em Nome de Deus, corrói tanto quanto a loucura. No conto Rei, corrói a moda e os gostos. Em As praias desertas, corrói as promessas de amor da juventude. E segue corroendo tudo: desde as expectativas vocacionais, em Gandula, até os desejos reprimidos, em Sauna. Esse avanço que nada deixa escapar contradiz os versos messiânicos e esperançosos de João Cabral de Melo Neto, designados como epígrafe do livro: “E possa enfim o ferro / comer a ferrugem”.

A verdade é que essa inversão é impossível, já que nada escapa à corrosão do tempo, retratada nessa coletânea de 13 contos, que comportam pequenos flashes do dia a dia da cidade grande, algumas vezes identificada como sendo o Rio de Janeiro. Atento à vibração da vida, Moutinho utiliza o espaço urbano como cenário recorrente de suas narrativas, e recolhe suas histórias na agitação de um cotidiano tão complexo quanto verdadeiro, por vezes aliando a capacidade de reflexão ensimesmada à mais completa imersão na realidade.

 

 

Mas não se trata apenas de uma mimetização da realidade. A narrativa ágil, natural e enxuta de Moutinho percorre também acontecimentos inusitados. Em Xodó (conto que abre o livro), um garoto se masturba em cima da boneca da irmã. Em 362, um homem se apaixona pior uma desconhecida dentro do ônibus. É interessante notar a maneira como o autor, aos poucos, aponta uma dimensão trágica em uma atmosfera em que a vida comum se desenvolve.

Ao longo de todo o livro, os contos mantêm um tom de voz semelhante. Apesar de variar entre a primeira e a terceira pessoa, dão a impressão de que o narrador é um só: alguém que viveu ou ouviu aquelas histórias. Além disso, o poder de síntese de Moutinho se reflete nessas narrativas de pessoas comuns da cidade, que, na imaginação do autor, ganham um protagonismo sem concessões utópicas; tão comuns, por exemplo, a certo tipo de realismo socialista.

Lendo as narrativas de Moutinho o leitor percebe recursos literários que rompem com essa evidência demarcada entre o que se está representando e o que se está narrando: a velocidade do desenvolvimento do texto, a descrição sintética das personagens (ou a supressão de informações auxiliares à compreensão do enredo), a condensação da atenção do leitor nas ações e nos conflitos, a agilidade dos desdobramentos das histórias que quase sempre desaguam em finais sem grandes clímaces, que fazem com que a leitura dos contos deixe a impressão de que o leitor esteja assistindo a alguma cena da vida real. Mas se, com Marcelo Moutinho, não existem grandes guinadas, nem segredos que não sejam revelados, curiosamente um dos pontos altos do livro é um conto que foge por completo da ideia geral proposta.

Em Caiu uma estrela na minha sala, o leitor assiste, a princípio, a um súbito flerte do autor com o realismo mágico. Nessa narrativa, um homem solitário vê o tédio do seu final de domingo televisivo ser quebrado de forma inesperada, depois que um estranho objeto cai bem no meio de sua sala, causando uma explosão: “Mas as chamas foram se acalmando e consegui enxergar com mais nitidez. Era amarela, puxando para o dourado. Tinha em torno de um quarto de metro entre as pontas. Uma estrela”.

Só que essa “estrela”, logo se saberá, não veio do céu, mas de um passado que, enterrado, trouxe, de uma hora para outra, o inusitado de sua lembrança. A maestria de Moutinho nesse conto é demonstrar que o surreal pode vir dos aspectos mais banais do cotidiano e que a vida, mesmo que enferrujada pelo tempo, pode um dia voltar a ser mágica. Ainda que só por alguns instantes.

 

* Tadeu Sarmento é escritor, autor de E se Deus for um de nós?

O espetáculo do escritor-repentista e o trabalho de contar histórias do escritor-de-bancada

CARLOS CASTELO

Na literatura de cordel existem dois atores: o poeta-repentista e o poeta-de-bancada. O primeiro, bem conhecido de todos, é aquele que improvisa, experimenta ao extremo, enfia o momento na algibeira e o transforma em versos ao vento. Já o seu correspondente, o de bancada, não aparece tanto. Escreve, em quase anonimato, o cordel que depois vai aparecer em pequenos livretos vendidos nas feiras do sertão. Ambos têm qualidades artísticas semelhantes, contudo, o repentista foi sempre mais festejado.

Acontece um fenômeno análogo na literatura. Temos o escritor-repentista, o que se expõe mais, fala numa linguagem mais rente à cotidiana ou a subverte a seu bel-prazer. E temos o escritor-de-bancada: o que conta igualmente uma boa história, só que não correndo tantos riscos. Naturalmente, a versão repentista literária é mais aquinhoada pela mídia, pelas premiações e fortuna crítica. Porque, além de uma obra, oferece um espetáculo. E o que é mais agradável aos olhos de uma sociedade tão afeita ao assombramento do que um show?

Para mim, Marcelo Moutinho é um escritor-de-bancada. Lendo seu novo livro cheguei a esta conclusão. Você não verá nos contos desse carioca de Madureira quase nenhuma transgressão do ponto de vista estético-narrativo. Ao mesmo tempo, Moutinho também não redige como um narrador do século 19 ou 20, tem as suas contemporaneidades evidenciadas por entre frases, períodos e não usa pince-nez.

Marcelo é essencialmente um contador de histórias. E dos bons. Talvez a sua forma de contá-las não agrade aos arautos da semiótica ou aos defensores do último grito das vanguardas pós-pós-modernas nova-iorquinas. No entanto, com que elegância, ritmo e engenho ele vai nos exibindo os pequenos dramas dos viventes de um certo Rio de Janeiro. Aquele Rio da baixa classe média, dos cobradores de ônibus, dos alunos de faculdades suburbanas, das manicures, dos moradores de Honório que trabalham escaneando documentos e por aí afora.

Sim, o escritor-repentista vai ser sempre mais glorificado. Mas vá tentar, usando apenas as regras da arte, escrever o conto Gandula, do livro Ferrugem (Record). Arrisque e depois me diga se o escritor-de-bancada Marcelo Moutinho não merece ser tratado como um Patativa do Assaré.

“[…] embora diferentes, algumas coisas continuam.”

VALNIKSON VIANA

O carioca Marcelo Moutinho, para além da já extensa carreira como escritor, também foi colaborador em diversos suplementos culturais do país e curador de importantes eventos em prol da leitura. Autor principalmente dedicado às formas literárias breves, ele traz como marca de sua produção o enfoque no cenário urbano, sempre explorado de maneira não convencional. Seguindo tal perspectiva, sua coletânea Ferrugem reúne treze contos que dão luz a figuras ordinárias da cidade do Rio de Janeiro em conflito com a passagem do tempo, unindo humor, encantamento e melancolia.

Ao tirar potência e beleza do cotidiano comum, as narrativas presentes no livro muito têm em comum com o gênero crônica, oferecendo um olhar agudo ao aparentemente trivial. Ademais, o autor ultrapassa a inusitada descrição de flagrantes da cidade maravilhosa ao propiciar densidade emocional e certo aprofundamento psicológico a alguns personagens, ainda que suas tramas sejam bem definidas em concisão. O exercício ficcional resulta em leveza de enredo e simplicidade de linguagem, sem excluir o requinte estrutural e a lapidação de diálogos. A sobriedade no trato da profusão de vozes narrativas e o jogo com as expectativas se fazem memoráveis ao leitor, que vai construindo aos poucos os sentidos guardados nas entrelinhas do texto.

A feição local é traçada principalmente através da menção a lugares específicos ao Rio, retratados em tom quase nostálgico. A espacialização contemporânea oportuna o registro das modificações ocorridas na cidade, como o Elevado da Perimetral, célebre viaduto que não existe mais, servindo de cenário em uma passagem de “Dezembros”, conto que é chave para a essência do compêndio ao valer-se das transformações na relação de um jovem com seu avô, que se orgulhava de trabalhar na Rádio Nacional. As referências musicais, inclusive, completam o interessante caldeirão de Moutinho, que não esconde aqui a influência que recebeu do nosso cancioneiro popular: o triste “As praias desertas”, que acompanha uma mulher presa à ilusão de um amor do passado, recebe o título da canção de Tom Jobim regravada por algumas das maiores vozes brasileiras, entre elas Maysa, Elizeth Cardoso e Maria Bethânia, assim como o divertido “Rei” retoma os sucessos da carreira de Roberto Carlos ao centrar-se em um velho cover do cantor que decide bancar um show próprio para provar seu talento ao público da boate de strip-tease em que trabalha há anos, enfrentando a concorrência com o moderno repertório oferecido pela nova gerência do inferninho, e o conto-coração da obra, “Três apitos”, recria o samba homônimo de Noel Rosa (mais conhecido pela marcante interpretação de Aracy de Almeida), substituindo o ambiente da fábrica de tecidos por um supermercado, com os sinais sonoros tomando outra dimensão: a de avisar a protagonista diagnosticada com HIV os horários de sua medicação. Correndo por fora, “Something” alude à famosa balada dos Beatles para embalar as fases de um relacionamento amoroso.

As conexões humanas tomam destaque em algumas narrativas, como em “Jantar a dois”, que retrata a decadência de um casal de meia idade através de não ditos à mesa de um restaurante, e “362”, que mostra uma cobradora de ônibus tentando ajudar um amigo a se aproximar de outra passageira por quem ele nutre um amor platônico. Outros temas ainda se fazem caros ao livro, como o fanatismo religioso, a descoberta sexual (tratada sem firulas) e a ebulição do futebol, mas a essência criativa dos contos parece estar mesmo em consonância com a corrosão temporal que dá nome à coletânea. Até mesmo a incidência do fantástico em “Caiu uma estrela na minha sala” projeta uma possível alegoria à fugacidade ligada a celebridades televisivas. O tempo aqui é apresentado não só como aquele que apodrece, que leva à queda, mas também o que remodela e fortifica, que traz superação.

Com histórias que, de tão poéticas e impactantes, se tornam inesquecíveis, Ferrugem discute a permanência ante a inevitável velocidade do tempo e a importância das ranhuras na trajetória de qualquer pessoa. Marcelo Moutinho surpreende ao extrair do seu desembaraço ficcional grande carga de sofisticação e lirismo, sabendo deixar claro que, embora sofram diversas mudanças, algumas coisas irão inevitavelmente se conservar ou se repetir de outras maneiras.

“Ferrugem”, um livro de Marcelo Moutinho

KRISHNAMURTI GÓES DOS ANJOS

Jornalista e escritor de olhar aguçado para o espaço urbano e sua vasta galeria de personagens, Marcelo Moutinho escreveu e a Editora Record publicou o livro “Ferrugem”, reunião de 13 contos. É inclusive obra vencedora do prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional.

Já nos primeiros contos do livro percebe-se a linguagem de expressão trabalhada, tensa, e profundamente criativa a descerrar a ardorosa vida interior das personagens. O jornalista sabe que o espaço do conto é curto, introduz-lhe elementos de lirismo, dramaticidade e sugestão que fazem a história adensar-se, transbordar significados, e o escritor condimenta o texto reinventando a realidade, criando-a na ficção. O resultado é uma prosa lírica de movimentação de ideias. Mas é preciso que se diga também e, a bem da verdade, que o livro temaltos e baixos, com alguns contos mais densos do que outros, aí já entramos no terreno da subjetividade da percepção de cada leitor que acrescenta seu gosto pessoal, e não há “crítica”, ou resenha – sobretudo ‘certas’ resenhas ou ainda crítico, que a esse fato irrevogável anteponha juízos. Elementar, todo contista sabe disso, sobretudo quando se fala de textos curtos. O que “conta” é a média de qualidade dos contos reunidos dentro do conjunto da obra. Essa média em Marcelo é alta. Vejamos por que.

            Duas ou três resenhas a respeito da obra, publicadas em páginas da internet, instigam a curiosidade a respeito. Em uma delas se disse que o conto “Xodó” é: a história de uma “garotinha que flagrou o irmão mais velho fazendo `coisas estranhas` com sua boneca favorita”, em outra, ou na mesma resenha, afirma-se que o conto “362” narra o episódio de um “homem apaixonado por uma desconhecida dentro do ônibus”, outra ainda, refere-se ao conto “Três apitos” como sendo o depoimento de uma “mulher soropositiva abandonada pelo namorado” Vejam só! A leitura da obra e sobretudo, dos contos acima elencados nos diz coisa bem diversa, e que poderia ter sido escrita. “Xodó” muito além da história de uma “garotinha que flagrou o irmão mais velho fazendo `coisas estranhas` com sua boneca favorita”, é um achado no que diz respeito ao desabrochar avassalador da sexualidade humana e que, justamente por ser tão pouco ensinada, ou não ensinada às nossas crianças dá ensejo aos desvios relatados no texto. Segundo a perspectiva da garotinha-narradora: “Mamãe realmente comentou desse sangue (menstruação), mas não havia dito nada sobre líquidos que saem dos garotos quando crescem”. Fantástico o texto e mais ainda o desfecho.

“362”. Esse é o supra-sumo. Poderia bem ter um sub-titulo. “As artimanhas do desejo”. Uma cobradora de ônibus, convive diariamente com um passageiro, o Custódio. “O Custódio me respeita”, afima ela, depois pensa sobre o tal: “Sempre limpo, cheiroso, perfume bom. E aquele bigode perfeitamente aparado, tenho um fraco por homem de bigode. Se eu fosse mais nova, não escapava. É meu tipo”. Ocorre todavia que o Custódio vem a se interessar por uma passageira que, assim como ele, toma o coletivo diariamente. Pronto; está armada a trama. O desejo dele pela garota jovem e bonita, a ajuda que imagina (coitado), ter da cobradora, o jogo que se estabelece de sedução, e dissimulação, uma trama interessantíssima. Mais um ponto para o autor.

“Três apitos” não é o depoimento de uma “mulher soropositiva abandonada pelo namorado”. É o testemunho vivo de relações de “amor” nas quais vigora o interesse meramente sexual, que termina por revelar nessa condição de usufruto de corpos, a extrema fragilidade dos laços que unem certos casais. Pungente a realidade abordada, sobretudo quando toca a condição dos enfermos de AIDS.

Outra pedrada que escreveram sobre o conto “Caiu uma estrela  na minha sala”: ainda que acertassem quanto ao gênero “realismo fantástico” do texto, afirmar que o conto  é “uma alegoria para as celebridades miúdas e insossas que povoam a televisão brasileira”, é o fim da picada! A metáfora envolta aí é sim a violência nossa de cada dia – e no caso do Rio de Janeiro já a níveis insuportáveis – , a estrela que entra pelas casas adentro da população carioca diariamente são as balas perdidas! Que incendeiam televisões e o que estiver pela frente e faz os moradores se esconderem temerosos atrás das poltronas. Balas perdidas com os “estrelismos” da bandidagem cujos holofotes televisivos engrandecem. E todo mundo sabe do que estamos falando. Outro conto muito bom este! Falemos de dois  que merecem registro.

“As praias desertas” e “Dezembros” nos fazem lembrar de alguma forma, daquele flâneur de Walter Benjamim porque margeiam aspectos da percepção humana com o avanço da técnica e da urbanização. Vemos personagens que embora carreguem conflitos próprios, vivem no limiar entre o passado – tempo da tradição, da transmissão de experiências coletivas duradouras e compartilháveis -, e o presente da imediatez, da repetição, da reprodução incessante e do consumo que transforma todas as coisas em mercadorias.

A esse propósito veja-se e reflita-se, sobre o que representa para além da ligação afetiva e familiar, a figura do avô Domingos Santana da Silva” no conto “Dezembros”. Esta figura acaba por se configurar numa metáfora alargada, como aquele que ainda dispõe de fragmentos da experiência histórica. O narrador que pesquisa o passado do avô não buscaria também a consciência histórica atual? Veja-se o fecho deste memorável conto.  No início de uma caminhada “rumo à Cinelândia, devagar, bem devagar”…

Marcelo Moutinho com sua prosa de compaixão pelos humildes, clarifica significados além dos grosseiros sentidos e da rotina do tempo e o faz muito a contento na arte de desnudar consciências e descerrar corações. Conhece bem a unidade básica de modulação e desenvolvimento do gênero e se aprimora na medida em que aprimora também a revelação – a impressão inicial se revigora nas palavras do fecho -, pois ilumina o instante crítico das narrativas.

A palavra ‘Ferrugem’ é substantivo que significa a corrosão de metais ferrosos. É também a doença  de vegetais que se traduz por manchas vermelhas ou negras nos frutos, que logo apodrecem. “Ferrugem”, é o título desse livro. Um título que, se nos induz a refletir sobre a deterioração das relações, sentimentos, e  afetos, também expressa e propõe, – aí o fio que une os contos –  a inversão do processo de deterioração, degradação e destruição de nossos vínculos, sobretudo os afetivos: “E que possa enfim o ferro comer a ferrugem”, como fica a nos ressoar o verso de João Cabral de Melo Neto usado como epígrafe ao livro. Resta-nos afirmar com todas as letras, que os contos vistos no conjunto da obra trazem uma perspectiva de aguda observação e rara sensibilidade sobre a vida. Certamente aqueles que se aventurarem a lê-lo ganharão em experiência humana que em literatura afinal, é o que conta.

 

“E possa enfim o ferro comer a ferrugem”

LUIGI RICCIARDI

Marcelo Moutinho é um contista de convicção. Faz com tamanha mestria que parece ser uma coisa natural, presente em todas as pessoas que se arriscam em produzir literatura. É agradabilíssimo saber de seu posicionamento em relação à escrita de romances. Contista entende contista.

Ferrugem foi uma das primeiras leituras de 2017 e a releitura agora em 2018 só corroborou a opinião que tenho em relação ao livro. Outras vozes já disseram o mesmo. Não é à toa que venceu o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, no ano passado. Pena que a crítica especializada praticamente, salvo raras exceções, ignorou o resultado e, sobretudo, o autor), não dando muito espaço em seus meios para falar desse belo livro de contos, merecidamente premiado.

Os personagens vêm das mais variadas origens. Se em um conto o foco se dá em um casal que quase não se comunica durante uma refeição em restaurante chique, no outro o espaço é o interior de um ônibus cuja linha tem sempre a mesma cobradora, que faz amigos e tenta ajudar um deles a conquistar uma mulher.

Dois dos contos presentes em Ferrugem são pérolas que falam sobre futebol, elemento cultural brasileiro ainda pouco presente na literatura “séria”. Um time, dono de um passado longínquo de glórias e um passado recente de tragédias, chega à final de um campeonato. O protagonista: um menino rejeitado na peneira e que se destaca na final sendo gandula. A bela romantização aqui lembra bastante aquela feita por José Trajano com seu América em Tijucamérica. O Vila Rica coloca o leitor em campo também.

Mas o conto Domingo no Maracanã talvez seja a coisa mais bonita já escrita sobre futebol nas letras brasileiras. O que torna o conto mais interessante é que tudo acontece pela perspectiva de uma menina, mostrando que futebol também é coisa de mulher. Um encontro inesperado, em uma visita ao famoso estádio, com uma fenda temporal, dá um ar de Maracanã borgiano.

Outros temas importantes são muito bem abordados por Moutinho em Ferrugem. A ótima e chocante alegoria sobre o estupro em Xodó é de revirar o estômago. O decadente que sonha em ser famoso, em Rei, tem uma pitada de tragicômico trazendo um cover de Roberto Carlos que faz um show com casa lotada em lugar chamado Pussy House. A loucura de um homem, em Nomes de Deus,  que usa uma capa e que revira os lixos da cidade para salvar páginas escritas, sobretudo bíblicas, tem menos de loucura do que poeticidade.

Há, em muitos contos, a sensação do cotidiano. O choque e a surpresa, presentes em tantos outros, não teriam também esse tom cotidiano, visto que a surpresa, a loucura, a incerteza, a tragédia, mesmo que raras, acontecem todos os minutos em algum lugar do mundo? O conto de Moutinho é ao mesmo tempo clássico e contemporâneo. Clássico no recorte da vida do personagem, contemporâneo na maneira de escolher o tema, o foco narrativo e como constrói esses personagens.

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