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Bravo! Especial Literatura e Futebol

Bravo! Especial Literatura e Futebol

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  • Editora Abril
  • 2011
  • Português
  • Capa Tipo Brochura
  • 145 Páginas
Na noite de 2 de julho de 2008, 78.918 pessoas estiveram no Maracanã para assistir à final da Taça Libertadores da América, entre o Fluminense e a LDU, do Equador. Após uma campanha até então irrepreensível, na qual eliminou equipes como Boca Juniors e São Paulo e se manteve o tempo todo como líder geral do torneiro, o tricolor carioca chegou à decisão com ares de favorito. O resultado da primeira partida, porém, foi desastroso. Embalados pela altitude de Quito, os equatorianos venceram por 4 x 2. Ao Fluminense restava, portanto, derrotá-los por três gols de diferença no jogo de volta, no Rio — se a vitória fosse por dois tentos, haveria prorrogação e, persistindo o resultado, pênaltis.
Eu era uma daquelas 78.918 pessoas que testemunharam o que se desenrolou no histórico estádio carioca. Logo no início, o Flu levou um gol, o que o obrigava a marcar três, se quisesse ao menos chegar ao tempo extra. E, graças a uma atuação espetacular do camisa dez Thiago Neves, o time conseguiu, levando o público das arquibancadas e milhares de torcedores em todo o país a alimentar uma certeza: diante da realização de tarefa tão improvável, não haveria como o título escapar.
Mas escapou. Faltou um gol — o gol solitário que definiria a contenda em favor do Fluminense — e, na disputa de pênaltis, a LDU foi campeã.
Nunca consegui, embora ganhe meu pão com o ofício da escrita, formar uma seqüência de palavras capaz de expor com precisão o que aconteceu naquele 2 de julho. As lembranças são embaçadas. O enredo soa inverossímil, de tão dramático. A narrativa simplesmente não dá conta.
Porém tal circunstância ajudou a lançar uma luz, ainda que precária, numa antiga perplexidade que me dominava: compreender por que um esporte tão impregnado no imaginário brasileiro, como o futebol, tem, à exceção da crônica, uma presença relativamente tímida em nossa literatura.
Mais do que a questão, sempre levantada, de um suposto elitismo dos escritores, talvez essa dificuldade de reproduzir em texto a algaravia de fatos, situações, sentimentos que animam um jogo, de recriar com tintas ficcionais o que se passa dentro das quatro linhas, seja o principal fator de limitação. Como afirmou Flávio Moreira da Costa, organizador da antologia “22 Contistas em Campo”, a exemplo da arte no sentido tradicional o futebol é “uma expressão em si mesma”. De modo que toda outra expressão sobre o futebol tenderia ao “discurso sobre o discurso”, à diluição. No entanto, embora pequena, nossa produção literária tem refletido — e com alta qualidade — os diferentes capítulos da história do chamado esporte bretão no Brasil desde que Charles Miller o trouxe da Inglaterra, no fim do século 19. Tanto na crônica — cuja fortuna é significativamente mais extensa que a dos demais gêneros — quanto no conto e na poesia.
Já nos primórdios, a nova modalidade foi pauta no meio literário. Escritores como Afrânio Peixoto e Coelho Neto saudavam o futebol — na época, restrito à aristocracia nacional — como elemento capaz de ajudar a ensinar a disciplina e a desenvolver o espírito de grupo. Graciliano Ramos, em oposição, revoltava-se contra a “invasão” de um esporte britânico e apostava no fracasso da modalidade por causa do biotipo do brasileiro. “Os verdadeiros esportes regionais estão aí abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, a cavalhada, e o melhor de tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Esse sim é o esporte nacional por excelência!”, protestou Graciliano, sob o pseudônimo de J. Calisto, em artigo publicado em 1921.
O maior opositor, porém, foi Lima Barreto. Indignado contra o caráter elitista dos clubes, ele chegou a fundar, em 1919, uma “Liga Contra o Foot-Ball”. O objetivo era alertar contra os malefícios da prática do jogo de bola, como brigas e contusões, e lutar pela proibição do esporte.
Com a popularização, que acabaria por mudar radicalmente o perfil aristocrático dos primeiros anos, as polêmicas diminuíram de intensidade, mas não se extinguiram. Na década de 1940, Oswald de Andrade e José Lins do Rego reeditaram o debate, temperando-o com as vaidades do mundo da literatura. Para Oswald, que via o esporte como um “ardil imperialista”, José Lins do Rego se servia do futebol como “lenitivo” para a própria “escassez literária”. A resposta foi dada, embora de forma implícita, na crônica “Fôlego e Classe”, na qual José Lins do Rego observava: “Na verdade uma partida de futebol é alguma coisa a mais que bater uma bola, que uma disputa de pontapés. […] Há uma grandeza no futebol que escapa aos requintados”.
Nessa época, o esporte começava a aparecer também fora do âmbito da crônica. José Lins do Rego dedicara um romance ao futebol (Água-mãe), e Alcântara Machado, curiosamente um amigo de Oswald, fazia sucesso com Brás, Bexiga e Barra Funda, seleta de contos na qual o jogo aparecia com destaque. Mais tarde, contistas como Edilberto Coutinho, Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca também abordariam o futebol em suas obras, pavimentando uma estrada na qual, hoje, caminham autores da chamada Geração 90, como Marcelino Freire e Flávio Carneiro.
O time da poesia poderia escalar Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho e Glauco Mattoso. Todos dedicaram versos ao esporte. Na contenção, jogaria João Cabral de Melo Neto, que chegou a atuar de center-half (ou, como se diz hoje, volante) no América, de Recife — time para o qual torcia. Tido com um talento promissor, João Cabral integrou também a equipe do Santa Cruz, sagrando-se campeão estadual juvenil de 1935, antes de abandonar os gramados.
Já a tradição da crônica futebolística, menos “ficcional” porquanto mais centrada na análise dos jogos ou na descrição de episódios da vida dos envolvidos com o esporte, se sedimentou por intermédio de nomes como João Saldanha, Sandro Moreyra, Armando Nogueira, Mario Filho e Nelson Rodrigues. Os dois últimos, irmãos, foram pioneiros — cada qual a seu modo.
Mario tirou o fraque e a cartola da crônica, abdicando do formalismo em favor de um registro mais coloquial, próximo do linguajar do torcedor. Além disso, foi peça fundamental na popularização do futebol, promovendo eventos como o Torneio Rio-São Paulo e criando designações hoje clássicas, como o termo “Fla x Flu”. Apaixonado torcedor do Fluminense e dono de um estilo singular, Nelson via o futebol como síntese da “alma brasileira” e o campo, como um microcosmo das tensões sociais e estéticas que animam o país. Em suas crônicas, inventava personagens como o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida, que se imiscuíam no relato e não raro interferiam nos jogos, esfumaçando de vez as fronteiras entre realidade e imaginação.
Outros autores-cronistas, embora não tenham se notabilizado pelo registro esportivo, trataram do futebol em seus textos. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, que comentou sobretudo as Copas do Mundo, de 1958 a 1986. E também Clarice Lispector, que, naquela que talvez seja sua única incursão no tema, realiza o desejo de Armando Nogueira, então seu colega no Jornal do Brasil. Armando disse que trocaria uma vitória do seu Botafogo por uma crônica de Clarice sobre futebol. Hoje, cronistas como Luis Fernando Verissimo, Cristovão Tezza e Marcos Caetano mantêm a bola em jogo com suas colunas em diferentes jornais.
Ao fazer a seleção dos 18 textos desta edição especial — referência ao número de jogadores inscritos numa partida oficial —, procuramos contemplar todos os gêneros, as distintas épocas e os mais relevantes personagens do futebol. Nos contos, crônicas e poemas que se seguem, o artilheiro, o goleiro, o ex-jogador, o técnico, o juiz, o torcedor e, claro, a bola são protagonistas ou coadjuvantes de histórias contadas por alguns dos principais au-tores que escreveram sobre o esporte, quase todos já mencionados nesta apresentação.
“Quase” porque incluímos outros dois. José Soares, representando aqui o cordel, que tanto espaço reservou (e reserva) ao esporte em seus livretos, e Paulo Perdigão. Mais conhecido como crítico de cinema, Perdigão tinha três obsessões na vida: o filme “Os Brutos também Amam”, o filósofo Jean-Paul Sartre e a Copa de 50. Sobre ela, escreveu um livro seminal: “Anatomia de uma Derrota”, de onde retiramos o conto “O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa”. A história, que virou curta-metragem de relativo sucesso nas mãos de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, não era publicada há dez anos.
“O Dia em que o Brasil Perdeu a Copa” gira em torno do papel do “se” no futebol — e na vida. É uma alegoria sobre a inevitabilidade de certas coisas, e permite estendermos uma ponte imaginária com a crônica de Marcos Caetano, que especula sobre a existência de um lugar para o qual iria tudo o que “quase” aconteceu. Lugar onde, entre bolas na trave, chutes para fora e defesas impossíveis, está o gol que Thiago Neves marcou, no finalzinho da prorrogação do jogo contra a LDU no Maracanã, dando o título da Taça Libertadores ao Fluminense.
Boa leitura.

 

Marcelo Moutinho

Sobre o football

Lima Barreto

Nunca foi do meu gosto o que chamam sport,esporte ou desporto; mas quando passo longos dias em casa, dá-me na cisma, devido, certamente à reclusão a que me imponho volun­tariamente, ler as notícias esportivas, pois leio os jornais de cabo a rabo.

Nestes últimos dias, todas as notícias sobre um encontro entre jogadores de football daqui e de São Paulo, não me escaparam. Em começo, quando toparam meus olhos com os títulos espalhafatosos, sorri de mim para mim, pensando: estes meninos fazem tanto barulho por tão pouca coisa? Much ado about nothing. .. Mas, logo ao começo da leitura tive o espanto de dar com este solene período:

“As acusações levantadas, então, por certa parte da imprensa paulista – manifestações que estamos já agora dispostos a esquecer, mas que não podemos deixar de rememorar – contra a competência e a honestidade do árbitro que ser­viu naquela partida, atribuindo à obra sua a vitória alcançada por nós, preparou o espírito popular na ânsia de uma prova provada de que, com este ou aquele juiz, os jogadores cariocas estão à altura dos seus valorosos êmulos paulistas e são capazes de vencê-los.”

Diabo! A coisa é assim tão séria? Pois um puro divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apai­xonado a um escritor?

Eu sabia, entretanto, pela leitura de Jules Huret, que o famoso match anual entre as universidades de Harvard e Yale, nos Estados Unidos, é uma verdadeira batalha, em que não faltam, no séquito das duas equipes,médicos e ambulâncias, tendo havido, por vezes, mortos, e, sempre, feridos. Sabia, porém, por sua vez, o que é o ginásio da primeira, verdadeiro sanatório de torturas físicas; que o jogo de lá é dife­rente do usado aqui, mais brutal, por exigir o temperamento já de si brutal do americano em divertimentos ainda mais brutais do que eles são. Mas nós?…

Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e, sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não senhor! A coisa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas. Purofront! Vejam só este período:

“As nossas armas, neste momento, são, pois, as da defesa, e da defesa mais legítima, respeitável, mais nobre possível porque ela assenta numa demonstração pública, esperada com cerca de trinta dias de paciência.”

Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhece-lo; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligên­cias entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo de football. Acabei a leitura da cabeça e fiquei mais satisfeito. Tinha ela um tom menos apaixonado; tinha o ar dos finais das clássicas discussões jornalísticas sobre arrendamentos ou concessões de estradas de ferro e outras medidas da mais pura honestidade administrativa. Falava na “dura e bem merecida lição para certos jornalistas que não compreendem o espírito que deve mover as suas penas que malbaratam a honra alheia”, etc., etc.

Continuei a ler a descrição do jogo, mas não entendi nada. Parecia-me todo aquilo escrito em inglês e não estava disposto a ir à estante, tirar o Valdez e voltar aos meus doces tempos dos “significados”. Eram só backs, forwards, kicks, corners; mas havia um “chutada”, que eu achei engraçado. Está aí uma palavra anglo-lusa. Não é de admirar, pois, desde muito, Portugal anda amarrado à sorte da Inglaterra; e até já lhe deu muitas palavras, sobretudo termos de marinha: revolver vem de “revolver”, português, e commodoro de “comandante”.

Passei o dia, pensando que a coisa ficasse nisso; mas, no dia seguinte, ao abrir o mesmo jornal e ler as notícias esportivas, vi que não. A disputa continuava, não no ground; mas nas colunas jornalísticas.

O órgão de São Paulo, se bem me lembro, dizia que os cariocas não eram “cariocas”, eram hebreus, curdos, anamitas; enquanto os paulistas eram “paulistas”. Deus do céu! exclamei eu. Posso ser rebolo (minha bisavó era), cabinda, congo, moçambique, mas judeu – nunca! Nem com dois milhões de contos!

Esta minha mania de seguir coisas de football estava a fornecer-me tão estranhas sensações que resolvi abandoná-la. Deixei de ler as seções esportivas e passei para as mundanas e para as notícias de aniversário. Mas, parece, que havia algum gênio mau que queria, com as histórias de football,dar-me tenebrosas apreensões.

Há dias, graças à obsequiosidade de Benedito de Andrade, o valente redator do Parafuso e não menos valente diretor da A Rolha,mandou-me uma coleção deste último semanário, pelo que já lhe agradeci do fundo d’alma.

Todos os dois magazines são de São Paulo, como sabem. Uma noite destas, relendo o número de 14 de julho, da Rolha,fui dar com a sua seção “esportiva”.

Tinha jurado não ler mais nada que tratasse de tais assuntos; mas a isso fui obrigado naquele número da Rolha porque vi o título da crônica – “Rio versus São Paulo”. Admirei-me! Pois se o encontro de que já tratei, foi nos pri­meiros dias deste mês, como é que o Baby já o noticia quase um mês antes? Li e vi tratar-se de outro de que nem ti­vera notícias, e isso é tanto assim de notar que o autor da crônica deixa entender que todos nós tínhamos os olhos vol­tados para ele. Leiam isto:

“Rio versus São Paulo – A Capital Federal está em festas. De vinte em vinte e quatro horas as fortalezas salvam, as bandas de música executam hinos festivos e nas diferentes sedes esportivas o champagne corre a rodo como se estivésse­mos festejando o último dia de guerra. Nas avenidas, praças, ruas e becos, homens já na casa dos cinquenta, matronas escondendo a primavera dos sessenta e crianças ainda mal de­sabituadas dos cueiros, só falam no grande acontecimento que encheu de júbilo um milhão e pouco de almas nascidas e domiciliadas na encantadora Sebastianópolis: a vitória do scratch carioca… Nas redações, os cronistas esportivos já não dormem há uma semana: são os cumprimentos, as telefonadas, os telegramas, os convites, para almoços e para jantares. Tudo isso… porque depois de dezoito anos de lutas o famoso scratch da Metropolitana conseguiu a sua terceira vitória.”

Meu caro Baby: isto deve ser Bizâncio, no tempo de Justiniano, em que uma partida de circo, com os seus azuis e verdes”, punha em perigo o império; mas não o Rio de Janeiro. Se assim fosse, se as partidas de football entre vocês de lá e nós daqui, apaixonassem tanto um lado como o outro, o que podia haver era uma guerra civil; mas, se vier, felizmente, será só nos jornais e, nos jornais, nas seções esportivas, que só são lidas pelos próprios jogadores de bola adeptos de outros divertimentos brutais, mas quase infantis e sem al­cance, graças a Deus; dessa maneira, estamos livres de uma formidável guerra de secessão, por causa do football!

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