A palavra ausente

clique aqui para baixar a capa

  • ILUSTRAÇÕES DE RAUL LEAL. EDITORA MALÊ.
  • 2022
  • ISBN 978-65-87746-84-5
  • Capa Tipo Brochura
  • 112 Páginas

O escritor Marcelo Moutinho acaba de lançar uma nova edição do livro de contos “A palavra ausente” pela editora Malê. Os dez textos foram criados entre 2009 e 2010, após a morte do pai do autor, vítima de um câncer. A obra é dedicada a ele, mas fala de perdas em diferentes matizes, da morte à desilusão amorosa, passando pela solidão e o desemprego. Para Moutinho, agora atualizado, o livro ficou melhor.

“A ideia de reeditar se deu porque a obra já não era encontrada nas livrarias e pela questão da efeméride dos dez anos do primeiro lançamento. Quando comecei a conversar com a Malê sobre a reedição, uma coisa estava bem definida na minha cabeça: ela precisava ser, inclusive graficamente, distinta da anterior. Daí a proposta desse diálogo com as artes visuais”, diz o escritor.  O artista visual Raul Leal assina as ilustrações. Marcelo Moutinho conta que, ao ser convidado para participar do projeto, o artista leu o livro, se identificou com os textos e logo aceitou a parceria:

“Não queríamos desenhos que se limitassem a reproduzir, sob a matriz de imagem, a história ficcional. E sim uma leitura livre, na qual as duas formas artísticas se retroalimentassem, em efetiva interlocução. O Raul então propôs esse trabalho com traços feitos com pigmentos misturados a cinzas colhidas em queimadas florestais. Assim, desde seu substrato, de sua gênese, os desenhos se relacionam com os contos, que tratam da questão da perda.”  A relação familiar é tema do conto “Água”, que abre o livro e mostra um filho dando banho no pai. A figura paterna reaparece em “Jogo-contra”, com a paixão pelo futebol. Já “Dindinha” traz a relação afetiva entre sobrinha e tia, também com problemas de saúde. Na nova edição, todas histórias foram mantidas, com modificações pontuais no conteúdo.

“Há supressão de trechos que, olhando hoje, me pareciam redundantes ou reiterativos. A revisita é quase sempre um misto de alegria e espanto. Até porque, por mais que haja certa coerência quanto a temáticas e obsessões, um escritor vai depurando seu estilo ao longo do tempo. No meu caso, passei a tentar sugerir mais e afirmar menos”, ressalta o autor.

Nas orelhas assinadas pelo escritor João Carrascoza, o também contista destaca o valor literário da publicação: “Um conjunto de contos superlativos, que ganha agora nova edição, e não apenas pela sua inegável qualidade, mas pela alta voltagem com que retrata a experiência humana da perda e da falta.” Quando foi lançado pela Rocco, “A palavra ausente” foi indicado ao Prêmio Portugal Telecom, hoje Prêmio Oceanos.

+++

Alguns comentários sobre “A palavra ausente”: “A literatura surge aqui em sua potência utópica. Incapaz de preencher a falta, plena em provocar novos sentidos para a paisagem ordinária de nossas vidas.”

Giovanna Dealtry (O Globo)

+++

Moutinho consegue realizar algo raro:  dotar personagens do subúrbio carioca de uma densidade subjetiva que vai na contramão dos estereótipos sociológicos.”

Manuel da Costa Pinto (Folha de S. Paulo)

+++

“Tratando de questões comuns do cotidiano urbano e com um domínio poético da estrutura narrativa, Marcelo Moutinho reafirma a qualidade do conto brasileiro.”

Miguel Sanches Neto (Gazeta do Povo)

“As caixas amontoadas tomam todo o apartamento: nossas coisas. Após o fim de semana extenuante de separa, emba-la, fecha, não há quase mais nada nas estantes — que me olham, cabisbaixas, exprimindo o desamparo da súbita prescindibilidade. Retribuo o olhar.

Uma sala cheia de caixas de papelão só não é mais triste do que uma sala vazia. Se a perspectiva do novo vibra à frente, como uma pista de asfalto a fritar no calor, a gente adivinha uma saudade que ainda não chegou.

Ouço os breves estalos do piso de tábuas corridas que cede à quentura amena do sol vindo da varanda e boto uma ficha na máquina da lembrança. A primeira vez em que entrei nessa sala: amplitude de outro vazio, ainda grávido de promessas. A caixa, também outra, nas mãos dele.

Devolvo a ficha.”

Raros prosadores, como Marcelo Moutinho, encontram no conto, que exige narrar fatos de efeitos contundentes em reduzido espaço, o seu habitat literário. Ficções breves, capazes de nos afetarem visceralmente pelo que dizem e também pelo que não dizem, são o que encontramos em A palavra ausente. Um conjunto de contos superlativos, que ganha agora nova edição, e não apenas pela sua inegável qualidade, mas pela alta voltagem com que retrata a experiência humana da perda e da falta. Moutinho mobiliza seus personagens com a habilidade dos escritores sensíveis ao seu tempo e à nossa efêmera condição. As dez histórias que enfeixam este volume revelam a perícia e o estilo maduro de um autor que nos envolve, valendo-se da contenção, da justa medida, das margens quase sobrepostas da narrativa curta. Sob a sua aparente dicção singela, espraiam-se as raízes fortes de uma obra que flagra as dores de superfície (do cotidiano em tom menor) tanto quanto das profundezas (dos dilemas existenciais). O universo da cultura popular se mostra aqui eivado pelo futebol, pelo mar, pelo cinema, pela música. Uma sucessão de planaltos é a paisagem que emerge dos contos, todos na mesma altura de valor ficcional. Ainda assim, cumpre sublinhar como é comovente, em “Água”, a evocação de um filho que banha o pai; a máquina de lembrança em “Cavalo-marinho”; o corpo que se alegra com a sagração do samba em “Folia”. A vida nos tira de uma vez o que (ela mesma) nos dá aos poucos; os vazios se fazem, de repente, quando o mundo em nós ameaça transbordar. Mas um livro como A palavra ausente, de Marcelo Moutinho, acolhe-nos com seus braços largos de compaixão.

João Anzanello Carrascoza

Narração dolorida, beleza inexorável

Eric Nepomuceno*

Como bem diz João Anzanello Carrascoza, ele mesmo muito bom contista, na orelha de “A palavra ausente”, de Marcelo Moutinho, o conto é uma forma literária “que exige narrar os fatos de efeitos contundentes em reduzido espaço”.

Revistos e alterados para esta nova edição, os contos reunidos num volume breve – são 112 páginas com belas ilustrações de Raul Leal em preto e branco, feitas com cinzas de incêndios florestais Brasil afora – mostram que Moutinho domina a técnica com maestria exemplar.

Publicado inicialmente há 11 anos, logo depois da morte do pai, os contos escritos entre 2009 e 2012, quando o autor beirava os 40 anos, falam precisamente de desgarramentos. O livro foi finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2012 (hoje chamado de Prêmio Oceanos, de indiscutível prestígio).

Moutinho retrabalhou os contos, que ficaram bem diferentes da versão original. Ele explica que cortou trechos que, lidos hoje, pareceram “redundantes e reiterativos”. Não conheço a versão original, mas os que aparecem nessa nova edição de redundantes e reiterativos não têm absolutamente nada. Ao contrário: são próximos daquilo que o mexicano Juan Rulfo, mestre de mestres, definia como objetivo de qualquer escritor: chegar ao “puro osso da narração”. No caso, uma narração dolorida, suavemente dolorida.

Já na dedicatória Moutinho adverte: “Para o meu pai, que se foi, mas não é ausência”. E é precisamente de faltas – e, numa aparente contradição, de ausências – que falam os contos.

Já no primeiro deles, “Água”, o que temos é uma minuciosa e melancólica descrição de um filho dando banho de chuveiro num pai velho e doente.

Em “Cavalos marinhos” a separação de um casal é narrada de forma serena, o que não faz mais que ressaltar a profunda dor do que é contado.

Em “Jogo-contra”, um menino quer homenagear o pai num jogo de futebol. E embora previsível, o resultado final surpreende – de novo, pelo tom da narração.

Um dos aspectos que mais se destacam ao longo dos dez contos é justamente a precisão das palavras e sua serenidade.

Até mesmo as lembranças do velho mestre-sala de uma escola de samba, agora trabalhando como faxineiro no mesmo espaço onde antes brilhou, são narradas em tom sereno, e por isso mesmo devastador.

No país de Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles – para citar apenas três mestres indiscutíveis -, encontrar espaço próprio no cenário dos contos é um desafio e tanto.

Pois Marcelo Moutinho se lançou nessas águas procelosas e saiu-se muito bem. Mostrou fôlego e imensa capacidade de braçadas precisas e preciosas.

Há um conto que se destaca por ser quase uma crônica, uma quase reportagem, e tratar da ausência com uma suavidade que de tristeza não tem nada: “Dona Sophia”.

É a história de uma camareira de hotel em Manaus, onde a imensa poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, mãe do escritor Miguel Souza Tavares, se hospeda para receber um prêmio.

Sophia, que aliás também se destacou bastante como contista, partiu para sempre em 2004, ou seja, bem antes de Moutinho ter escrito esse conto.

Seu convívio com a camareira que nunca tinha lido um livro na vida durou quase nada, pouquíssimos dias. Mas a maneira minuciosa – e delicada – com que Moutinho conta essa relação tênue quase-quase me convence de que a história realmente aconteceu.

Não sei se Sophia esteve alguma vez em Manaus. Talvez seja exatamente essa a grande ausência do conto. Ou talvez seja a maneira como ela se despede, sem palavras, do hotel e da camareira que nunca tinha lido um livro na vida, e de nós, leitores.

Resumindo: como contista que sou, imagino – apenas imagino – o que custou a Marcelo Moutinho rearmar este belo livro.

Ele merece, e rapidinho, um reconhecimento muito maior do que o que teve até hoje. Sua trajetória já havia tido momentos de brilho, como a conquista, com os belos contos de “Ferrugem”, do prestigioso prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional. E agora se reforça com estes contos refeitos.

“A palavra ausente” é de uma beleza inoxidável. E de uma grandeza sem fim.
+++
* Eric Nepomuceno é autor, entre outros títulos, de “O massacre”, “Antologia pessoal” e “A memória de todos nós”, editora Record.

A melancolia revisitada

Olga de Mello

Entre 2009 e 2011, o jornalista Marcelo Moutinho viveu o luto pela morte de seu pai escrevendo contos que tratam da solidão pela ausência. São textos marcados pela profunda melancolia, que são retomados neste relançamento, dez anos depois.

Com ilustrações de Raul Leal, que fabricou tintas usadas nas – belas – imagens com cinzas recolhidas em queimadas, os dez contos “A Palavra Ausente” (Malê) têm apoio pictórico sempre remetendo à perda, reconhece Marcelo Moutinho.

Dedicado ao pai, o livro traz sua figura no primeiro conto, Água. A situação constrangedora de um adulto ajudar um idoso/doente a tomar banho é descrita com mais emoção do que crueza. O pai, irritado, mas sabendo que necessita de ajuda, o filho triste com a inversão dos papéis, sente que jamais terá o comando da situação.

Se é clara a relação entre o tema da perda e a morte do pai, existe uma diferença entre o narrador e o autor, afirma Moutinho. “Mesmo o primeiro conto, inspirado numa situação que experimentei na pele, traz elementos ficcionais. Tenho observado, no debate público, certa confusão quanto a essa relação. Leitores exigindo que ficcionistas tenham lugar de fala, o que seria uma negação da própria gênese da ficção. Ficção não é testemunho pessoal, é fabulação. É a experiência da alteridade levada ao paroxismo. Como dizia Rimbaud, “eu é um outro”, diz Moutinho.

Depois do primeiro lançamento do livro, Moutinho viveu momentos pessoais de grande impacto, como o nascimento de sua filha Lia, em 2015. A paternidade, diz ele, “é um verdadeiro cavalo-de-pau na vida da gente: mudam perspectivas, o modo de agir, de uma hora para outra nos vemos impedidos de morrer”. Mal havia se passado um ano da chegada de Lia, a mãe de Marcelo é morta, num atropelamento: “As duas pontas da existência se trombaram”, conclui o escritor. As mudanças significativas não levaram a alterações nos contos, mas a algumas supressões de trechos que lhe pareciam redundantes, num olhar mais maduro.

Um traço comum aos contos é a falta de comunicação. Segundo Marcelo Moutinho, as personagens refletem um problema contemporâneo e que só piorou nesses últimos dez anos. “É curioso: hoje temos nossas redes sociais, uma ampla gama de “amigos” e “fãs”, opinamos sobre tudo, e no entanto a cada dia parecemos mais perdidos no labirinto da incomunicabilidade. A lógica da bolha, segundo a qual o que importa é a concordância e a subscrição, se impôs de forma quase autoritária. Temos dificuldade em lidar com a diferença e mesmo com os processos de conflito que fazem parte da vida. O botão de “delete”, assim como o de “bloqueio”, sugere a aniquilação imediata daquilo que soa incômodo. Mas é apenas ilusão. E uma ilusão que só traz sofrimento. A dor não vai embora com um clique”.

Uma das personagens de que Moutinho se apropriou foi a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner, por quem confessa a admiração apaixonada devido a seu uso do universo do mar como tema. Por muito tempo, ele morou perto da praia, o que pode ter levado a perceber o mar como referência. “Em Manaus e na Floresta Amazônica, me deparei com pessoas que tinham uma intimidade semelhante, só que com o rio. Daí veio a ideia de criar uma história na qual a Sophia encontrasse uma mulher amazonense em quase tudo diferente dela, e, a partir das discrepâncias entre as duas, fazer ecoar proximidades que, à primeira vista, soariam insuspeitas. Foi um conto que demandou pesquisa. Até porque, na construção da personagem, incluí hábitos que a poeta manteve ao longo da vida, como o de tomar vinho branco”.

Ao imaginar a nova edição de A palavra ausente Moutinho queria montar um livro bastante distinto do anterior, inclusive graficamente. “Daí a proposta desse diálogo com as artes visuais. Sou admirador do trabalho do Raul Leal que teve uma forte identificação com os textos. Não queríamos desenhos que se limitassem a reproduzir, sob a matriz de imagem, a história ficcional. E sim uma leitura livre, na qual as duas formas artísticas se retroalimentassem, em efetiva interlocução. O Raul então propôs o trabalho com base nas cinzas colhidas em queimadas ao longo do país. Assim, desde seu substrato, os desenhos se relacionam com os contos do livro. Que, afinal, tratam da questão da perda, nas mais diferentes matizes”.

Seu nome (obrigatório)

Seu e-mail (obrigatório)

Título do Livro

Título da Resenha

Sua mensagem


COMMENTS ARE OFF THIS POST