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A lua na caixa d’água

A lua na caixa d’água

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  • EDITORA MALÊ
  • 2021
  • ISBN 6587746314
  • Capa Tipo BROCHURA
  • 160 Páginas

O berço da crônica brasileira é o Rio de Janeiro. Mas o gênero literário caiu no gosto popular e diversificou o sotaque. Contemporâneos, em plena atividade, como Luis Fernando Verissimo, Mario Prata, Antonio Prata, Socorro Acioli, Martha Medeiros e Tati Bernardi, estão aí para atestar que a crônica, definitivamente, não reconhece fronteiras.

O escritor Marcelo Moutinho transita à vontade nesse terreiro, entre tipos humanos, ruas, becos e o registro do instante. Ele já havia feito uma incursão bem-sucedida no gênero em Na dobra do dia (Rocco). Retorna ao texto breve, sedutor e, aparentemente, despretensioso com A lua na caixa d’água (Editora Malê), livro vencedor do Prêmio Jabuti 2022.

Com olhar lírico, o autor reconstrói histórias de pai e filha, evoca o bairro de Madureira, exalta o samba do Império Serrano e personagens como Dona Ivone Lara e Tia Maria do Jongo, além de homenagear Aldir Blanc no texto que abre o volume e dá título ao livro.

“Essa aqui, dentro da caixa d’água, é a lua da Zona Norte. Põe a mão nela… Tão distante na imensidão, a lua cheia, de repente, estava ali ao lado, passível de toque, trêmula e morna”, escreve Moutinho, ecoando Aldir em flerte com a poesia.

No texto de quarta capa, a jornalista Flávia Oliveira segue o baile: “É poesia em forma de crônica. É afago, conforto, amparo em tempos de brutalidade, desatenção, abandono”. Luiz Antonio Simas ressalta a fluência do flâneur: “Moutinho é um raro apanhador de resíduos que cruzam nossos caminhos de maneira imperceptível e cotidiana: (…) uma velha boneca de pano, um samba do Império Serrano, uma coleção de canecas de chope…”. Um bom cronista não tem tema pré-definido.

O livro é também uma homenagem aos grandes mestres: Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Antônio Maria, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, além de Otto Lara Resende, Fernando Sabino e tantos outros escritores que fizeram do gênero um ofício.

A obra está dividida em três partes. A primeira, “Turbilhão de estrelas pequeninas”, reúne textos introspectivos. O cronista quer apenas o café, os jornais e seus próprios sentimentos. Murmurando consigo, Moutinho relata em “Primeiras impressões sobre Lia” as emoções da paternidade: “Para o pai de primeira viagem, a sessão inaugural de ultrassonografia é um exótico amálgama de sentimentos”.

Na segunda parte, explicita a intimidade com o gênero e, como um voyuer dos autores que leu e lhe influenciaram, recorda histórias (as da sua cidade e as dos escritores), faz anedotas, opina diretamente e passeia como quem não quer nada por temas variados. “Antonio Prata, colega de ofício, certa vez evocou em sua coluna na Folha um precioso conselho do pai. Também cronista, Mario Prata recomendara que ele tivesse sempre um texto ‘de gaveta’. De fundo de gaveta, eu diria”, um bom conselho para a falta de assunto, de inspiração ou de tempo.

Destinada à sua filha Lia, hoje, com cinco anos, o texto que encerra o volume, “Uma carta para 2065”, é uma mensagem de esperança, sem desviar o olhar do momento presente. “Você tem cinquenta anos e eu muito possivelmente já cantei para subir, como dizem os do candomblé. Não posso imaginar que notícias trazem os jornais desse novo tempo.” Mas a crônica sabiamente não busca revelar o futuro.

Embora, em muitos casos, a despretensão dos cronistas acabe por se revelar premonitória.

“(…) Num de seus livros, Aldir Blanc lembra a noite de verão em que estava sozinho no quarto, às voltas com um pesadelo, quando o avô o chamou. Propôs que fossem ao quintal. Ao lado do tanque, Seu Antônio encostou a escada e escalou os degraus até a caixa d’água. Depois puxou o menino pelas mãos, para então afastar a tampa, apontando para dentro:— Olha…Ao flagrar a imagem da lua cheia refletida na água, o pequeno Aldir ergueu os olhos no sentido oposto. Virou-se para o céu.

— É a lua!

— Aquela, não. Aquela é gelada, feita de pedras, uma espécie de vulcão extinto — respondeu o avô — Essa aqui, dentro da caixa d’água, é a lua da Zona Norte. Põe a mão nela…

Tão distante na imensidão, a lua cheia de repente estava ali ao lado, passível de toque, trêmula e morna. Essa efígie ressoaria na obra do futuro escritor e compositor, na qual o sublime e o chinfrim conviveram sem estrondo. Mais que isso: estiveram amalgamados a ponto de não conseguirmos distingui-los.

Na ode ao poluído Rio Maracanã, composta com Paulo Emílio, Aldir pede que se injete em suas veias o soro de “pilha e folha morta”, de “aborto criminoso, de caco de garrafa, de prego enferrujado”. O lixo da cidade, cuja capa foi retirada, se deixa ver sem enfeites. A água turva se converte em sangue. Que circula, dentro do cronista, como o curso de um rio particular.

“Meu quintal é maior do que o mundo”, escreve Manoel de Barros a propósito da enormidade desses universos construídos dentro de nossas histórias miúdas. Como a da amoreira que a mãe plantou nos fundos de casa na época em que eu crescia dentro de sua barriga.

A gravidez lhe despertara o desejo por amoras. Quando nasci, logo notaram que havia um sinal escuro, e alto, na cabeça do bebê. A mãe adorava repetir que ali estava a amora tão ansiada. A mesma fruta de sabor agridoce na qual outro poeta, o português Herberto Helder, experimentou “o entusiasmo do mundo” (…)

O filósofo alemão Walter Benjamin dizia que precisamos escovar a História a contrapelo, conferindo às pessoas o protagonismo sobre as suas vidas. O Caboclo da Laje, entidade das umbandas e candomblés de angola, cantava a beleza da pedrinha miudinha de Aruanda, aquela que, sem o espalhafato das pedras grandes, ilumina a vida na experiência do comum. É do filósofo e do caboclo que me lembro ao mergulhar nas crônicas de Marcelo Moutinho reunidas neste A lua na caixa d´água.

Moutinho é um raro apanhador de resíduos que cruzam nossos caminhos de maneira, em geral, imperceptível e cotidiana: a lua na caixa d´água que enfeitiçou o moleque Aldir Blanc, as formas como a menina Lia percebe o mundo, o almoço esticado dos domingos, uma revista de antanho do Madureira Tênis Clube, as estantes dos ficcionistas, cachorros e gatos aos pulos, uma velha boneca de pano, um samba do Império Serrano, uma coleção de canecas de chope… Com a astúcia daqueles que inventaram o mais carioca dos gêneros literários, suas crônicas percorrem as ruas da cidade em uma rara mistura de amor, empatia e compaixão. É o Rio do velho Centro, dos pequenos comércios, dos corpos apressados e olhares vagos, das casas suburbanas com seus pisos de cacos coloridos, que atravessa cada linha como uma entidade da qual o cronista é devoto.

Desconfio que este livro é um inventário da infância. Foi assim que o li. Como um adulto que não se adulterou, Moutinho escreve na encruzilhada em que o escritor encontra o menino de Madureira para que um conte ao outro, nas assombradas horas em que já não há mais o tempo linear, sobre aquilo que, de tão grande, só pode ser exprimível na miudeza de seus desacontecimentos: avida.

Luiz Antonio Simas

Marcelo Moutinho lança nova coletânea de crônicas 

Leonardo Cazes

Marcelo Moutinho acredita que a principal característica do olhar do cronista é a sensibilidade para a miudeza. Para onde a maioria das pessoas não está olhando, é para onde ele olha. Prestes a lançar sua segunda coletânea de crônicas, “A lua na caixa d’água” (Malê), ele admite que pensou em adiar o lançamento do livro por causa da pandemia. Afinal, não anda fácil enxergar beleza em meio à tanta morte e brutalidade. Mas uma passagem da obra do autor italiano Italo Calvino o fez seguir em frente na empreitada

— No final de “Cidades invisíveis”, tem uma frase que diz que, quando a gente está no inferno, precisa procurar o que não é inferno dentro do inferno — diz o escritor carioca, um contista premiado. — Me lembrei também de uma frase do (escritor e historiador Luiz Antonio) Simas, que nosso maior ato revolucionário nesse momento é reiterar a potência da vida contra a morte. Por isso, decidi que deveria lançar o livro, fazer a live de lançamento.

A coletânea, dividida em três partes, faz uma celebração do gênero da crônica a partir do universo ficcional do próprio Moutinho, observado nos contos de “Rua de dentro” (2020) e “Ferrugem” (2017). Na primeira parte, estão presentes a infância, a casa, o subúrbio, a família. A segunda, coloca a luz sobre a cidade e seus personagens, conhecidos e desconhecidos. Por fim, a terceira parte é composta por apenas um texto, uma carta para 2065 para sua filha, Lia. A menina, de seis anos, é personagem onipresente das narrativas do cronista e atravessa todo o livro.

Moutinho reconhece Lia como quase um fio condutor da coletânea, desde a ultrassonografia que vai revelando a nova vida até a mulher de 50 anos a quem ele escreve na última crônica da obra. As pequenas grandes descobertas da filha também funcionam para o cronista como uma redescoberta do mundo. Por outro lado, sua presença opera também como uma espécie de elo entre o passado, o presente e o futuro do próprio autor, um movimento que acaba se refletindo nas crônicas do livro.

— A Lia me leva para trás ao me trazer para frente. Eu vejo nela um traço do rosto da minha mãe, o jeito que meu pai falava. Isso me dá uma perspectiva de ascendência, o que ficou em mim da memória deles, que tipo de herança eu trouxe dali e estou deixando para ela. O livro também reproduz esse movimento de passado, presente e futuro. Começa na infância, na minha e dela, vai para a rua, que é quando saímos de casa, e depois para o futuro.

Além de Lia, “A lua na caixa d’água” é dedicado também a Aldir Blanc, morto há um ano vítima da Covid-19. O título, que batiza a crônica de abertura escrita especialmente para a coletânea, é uma síntese do próprio ofício do cronista, na visão do escritor carioca. A imagem foi tomada emprestada de uma crônica de Aldir, em que o compositor relembra a madrugada que o avô o levou para ver “a lua da Zona Norte”, refletida na caixa d’água da casa em Vila Isabel. Estão ali o sublime e o ordinário, o banal e o fantástico. Para Moutinho, a obra de Aldir representa uma educação estética e sentimental que ele quis homenagear no livro.

—Esse é o movimento da crônica, procurar o extraordinário no ordinário. Decidi chamar o livro assim e abrir como homenagem a ele, mas também porque é como se fosse uma carta de intenções e uma homenagem à própria crônica — explica..

A coletânea reúne textos publicados no site Vida Breve — depois da publicação da seleta de crônicas “Na dobra do dia” (Rocco) —, textos publicados em jornais e os mais recentes, na coluna quinzenal no jornal “Rascunho”. A pandemia e o isolamento social dificultam o trabalho do cronista, sem a cidade para servir de inspiração. Moutinho cita Walter Benjamin, para quem o cronista deve andar na cidade como se estivesse perdido numa floresta, com os sentidos aguçados.

Mais preocupada com as singelezas do cotidiano do que com as grandes questões, o escritor vê a crônica viva nos flancos, depois de ter perdido seu espaço no palco principal da imprensa. No mercado editorial, também enfrenta dificuldades para vencer a hegemonia da narrativa longa, apesar do sucesso de coleções como “Para gostar de ler”. Sinal dos nossos tempos.

—Vivemos tempos em que as pessoas estão cheias de certezas, perderam a capacidade de ficar em dúvida, de se colocar em questão. Os espaços estão mais voltados para a opinião, e não falo só da pandemia — aponta Moutinho. — Talvez seja emblemático que um gênero que não está no holofote procure o que é pequeno, o que está escanteado, e ocupe essa mesma posição no mercado.

A lua na caixa d’água

Em novo livro de crônicas, o escritor carioca Marcelo Moutinho joga luz sobre os microcosmos da paternidade, da escrita e do Rio de Janeiro

Valetine Herold

Um livro começa muito antes de seu primeiro capítulo. O título, a capa, a dedicatória e as epígrafes muitas vezes são pistas dos segredos dos personagens que serão desvelados nas próximas páginas, nos revelando, com sutileza e cumplicidade, a essência da narrativa contada a seguir. Para leitores atentos, nenhuma informação prévia à história em si passa despercebida e existem autores que adoram essa troca silenciosa com seu público. Assim parece ser Marcelo Moutinho, cronista e contista carioca que, tanto em seus livros de ficção quanto nos de não-ficção, preza pelos detalhes, acima de tudo. O autor acaba de lançar A lua na caixa d’água, novo título de crônicas que chega um ano após a ótima coletânea de contos Rua de Dentro. Este lançamento também marca a estreia de Moutinho na Malê, editora especializada em literatura afro-brasileira.

“Se alguém já não tem a terra, mas tem a memória da terra, então sempre pode fazer um mapa”, diz a epígrafe deste seu novo livro. A frase é da poeta canadense Anne Michaels e dialoga com o fio que costura todos os textos de A lua na caixa d’água: a memória familiar. Dividido em três partes, o volume começa com lembranças da infância e adolescência do autor em Madureira, bairro da zona norte carioca, o cotidiano de sua filha pequena e reflexões sobre o fazer literário (Turbilhão de estrelas pequeninas); segue para um desbravamento dos outros cantos da cidade e causos urbanos (Essa cidade pecaminosa e aflita); e se encerra com Uma carta para 2065, direcionada à sua filha, Lia, para quando ela tiver 50 anos.

É sobretudo para ela que o cronista escreve do começo ao fim. Para que Lia possa sempre ter a memória da terra que corre em seu DNA, através deste legado literário, e assim poder desenhar o mapa desta vida familiar de seu pai e avós. Com a leveza que é tão característica de sua escrita, Moutinho nos convida a acompanhar Lia nessa viagem no tempo. Para os leitores de fora do Rio de Janeiro, este é um passeio duplo em que se é apresentada uma Cidade Maravilhosa vista por quem viveu a maior parte da vida no subúrbio. Esse olhar “outsider” do grande centro da cidade permeia toda a obra de Moutinho, que costuma jogar luz sobre as figuras comumente invizibilizadas do Rio das novelas do horário nobre.

“Minha relação é de quem vê a cidade como a coisa mais interessante que o ser humano já inventou. No candomblé, fala-se muito da encruzilhada como um lugar mágico e eu gosto muito dessa interpretação, pois assim também é com o cruzamento de histórias dentro de uma cidade”, conta Moutinho, em entrevista à Continente. “A rua nos proporciona um senso de alteridade. E acredito que esse Rio de Janeiro que eu apresento nos meus livros faz sentido para quem é de fora, pois é um Rio interpretado a partir de quem quase sempre esteve na sua periferia.”

A lua na caixa d’água é, portanto, um livro geolocalizado, cuja trilha sonora também não escapa de carioquismos: samba no pé do começo ao fim, com referências múltiplas a canções e artistas que marcaram a vida cultural da cidade. O compositor Aldir Blanc – uma das nossas primeiras perdas artísticas pela Covid-19 – é um deles. Além de estar presente na dedicatória do livro, também inspirou o título a partir de uma anedota de sua infância, contada na primeira crônica.

Neste texto inicial, Marcelo Moutinho também cita o verso “meu quintal é maior que o mundo”, do poeta Manoel de Barros, que dialoga tão bem com a proposta do livro de colocar uma lupa de aumento nas “pequenezas” do cotidiano e falar sobre as “enormidades de universos construídos dentro de nossas histórias miúdas”. Para o autor, “a crônica tem esse papel de buscar iluminar o que está na sombra, exercer um olhar etnográfico dos paradoxos da cidade”.

Outros dois temas que ecoam alto é a descoberta da paternidade e a paixão pela profissão de escritor. A primeira ultrassom (“o futuro que reescreve a vida toda”), o desenvolvimento dos bebês, as diferentes formas de se arrumar uma biblioteca pessoal, as gírias cariocas que caíram em desuso, a tradição não oficial de grandes cronistas se emprestarem textos. Tudo contado com bom-humor, como se estivéssemos em uma mesa de bar. “O bar, dizia o mesmo Mendes Campos, é onde o espinho da solidão dói mais ou menos. E assim sucede porque quando uma solidão encontra a outra, e há afeição, a morte começa a parecer algo distante. Entre conversas, copos americanos, saideiras, um vislumbre de utopia. Nossa pequena ilusão de eternidade”, como diz no texto em que reflete sobre a importâncias dos encontros de bares impossíveis no contexto atual.

A rua, inclusive, está o tempo todo presente em A lua na caixa d’água. Logo ela que nos faz imensa falta desde o início da pandemia. Passear pelas crônicas do livro nos gera uma sensação dupla de nostalgia por um passado não tão distante, em que a efervescência urbana predominava, e de uma esperança de um futuro tão perto/tão longe de quando for seguro novamente viver as ruas em sua plenitude. “Outros dias virão”, analisa Moutinho, “mas para que a gente sobreviva até lá, precisamos afirmar a vida”.

Um escritor das ruas

Mateus Baldi

Me perguntem como fiquei amigo de Marcelo Moutinho e a resposta é: não sei. Lembro da primeira vez que o vi, do lado de fora do sebo Baratos da Ribeiro, quando ainda ficava na rua de Copacabana, durante o lançamento de uma coletânea. Dias depois, fui assistir a uma mesa de Edney Silvestre na biblioteca da rua Farani e lá estava Marcelo – mais tarde ele me diria que tinha sido o organizador daquele evento. Mas isso tudo são fragmentos. Quando vi, já nos falávamos todo dia.

As coisas que nos unem – o Fluminense, o amor pelas ruas, o fato de torcermos para escolas de samba irmãs [ele, Império Serrano, eu, Portela] –contribuíram para desenvolvemos uma forma de comunicação muito particular e amável, como acontece nas melhores amizades. Dito isso, era meio óbvio que acabaríamos trocando figurinhas literárias e rapidamente virássemos leitores um do outro. Basta completar um texto para imediatamente nos remetermos, aguardarmos a opinião, fazermos as mudanças necessárias.

Foi com uma dose extra de carinho, portanto, que vi nascer A lua na caixa d’água, seu novo livro de crônicas. Sem as armas da ficção – como atestam os ótimos Ferrugem e Rua de dentro, seus livros de contos –, Marcelo exerce aqui a melhor faculdade que os mestres desse gênero brasileiríssimo nos forneceram: o olhar. Gosto muito de como ele vai do particular ao geral, da rua à casa, do coração ao boteco. Porque está tudo interligado – fazem parte do Marcelo tanto quanto de cada um que se dispõe à contaminação pela (des)ordem urbana.
A entrevista a seguir é uma tentativa de jogar luz sobre certos aspectos de A lua na caixa d’água – e a produção de Moutinho de forma geral. Enquanto não podemos ir às ruas, sugiro que vocês procurem sua obra. Porque o país é este e a hora é agora.

Mateus Baldi –Você é um escritor das ruas. Sua matéria-prima reside na observação das frestas do cotidiano, uma tradição brasileira que tem em Machado de Assis, João do Rio, João Antônio e Rubem Fonseca alguns de seus maiores expoentes. Como teve início a sua relação com as ruas e em que momento você decidiu que seu projeto literário seria calcado nessa chave de interpretação do mundo?
Marcelo Moutinho – Não sei se houve propriamente um momento de decisão nesse sentido. À medida que fui escrevendo e publicando meus livros, os temas, o olhar, as obsessões, se consolidaram. Isso se deu no esteio de um processo, não como um norte pré-definido. Agora, o interesse pelos vínculos entre a arte e a cidade sempre existiu. Já no curso de pós-graduação que fiz ao terminar a formação em Jornalismo, meu trabalho monográfico apontava para essa questão. Pesquisei a relação dos filmes do cineasta alemão Wim Wenders com o espaço urbano, a partir de três localidades: Berlim, Lisboa e Paris – não a capital francesa, mas a cidadezinha situada no Condado de Lamar, no Texas, com seus 25 mil habitantes. Tenho fascínio pelo que as ruas têm de legível, pelos discursos que as cidades engendram ao conjugar a lógica geométrica, espacial, com a presença humana, que explode a rigidez dessa aparente racionalidade. João do Rio, que foi um grande flâneur carioca, já dizia que “as ruas pensam”. Sobretudo no campo da crônica, há uma perspectiva que é quase etnográfica. Ao caminhar pela cidade com os sentidos aguçados, como defendia Walter Benjamin, o cronista busca a estranheza no que parece familiar, e familiaridade no que lhe soa insólito. Assim, consegue iluminar aspectos que costumam passar despercebidos pela lente da rotina. Para evocar a expressão que você usou na pergunta, é uma interpretação do mundo que parte das miudezas, das desimportâncias, do que aparentemente é banal.

Mateus Baldi –A lua na caixa d’água é seu segundo livro de crônicas. Como se iniciou a sua relação com o gênero? Qual é o prazer de escrever, nos anos 2020, um estilo que cada vez mais parece minguar das páginas de jornais e revistas?
Marcelo Moutinho – A relação se iniciou com a coleção “Para gostar de ler”, que foi um tremendo sucesso no fim dos anos 1970. Lançada pela editora Ática, a série trazia antologias com textos de grandes cronistas, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos… Venho de uma família pouco letrada, em cujo núcleo a literatura era algo estranho, e a leitura daquelas crônicas me abriu os horizontes para um universo completamente novo. Quanto ao prazer de escrever, acho que é muito mais o prazer de ter escrito. Porque volta e meia o prazo de entrega do texto chega antes da ideia — sobretudo nesses tempos de pandemia, que restringiram drasticamente nossas escapadas ao meu campo de observação por excelência, que é a rua. Quando o tema surge logo, aí é bastante prazeroso. A crônica tem uma pegada mais solta, mais leve, do que o conto. E de fato, como você diz, majoritariamente migrou dos jornais para a internet. São raras as exceções, que só confirmam a regra. Mas não chega a surpreender que, numa época tão cheias de opiniões e certezas berradas, ela tenha perdido o valor. A crônica é a antítese dessa estridência.

Mateus Baldi– Você transita muito bem entre o conto e a crônica. Seus primeiros livros de contos lembravam bastante crônicas mais elaboradas. Muitas crônicas de A lua na caixa d’água, por sua vez, poderiam se transformar em contos. Como é o jogo intelectual de escrever uma crônica ou um conto? Como pensar a linguagem e os procedimentos estéticos de cada uma? Já houve casos em que algo iniciado como conto virou crônica, e vice-versa?
Marcelo Moutinho – Para mim, são dois canais bem diferentes. Só aconteceu uma vez de um texto que nasceu como crônica virar conto algum tempo depois. Acho que essa proximidade que você aponta, pelo menos no caso dos meus livros, tem muito mais a ver com a ambiência das histórias, o tipo de personagem, o recorte geográfico, do que propriamente com o registro formal. Sob esses aspectos me parece haver, de fato, pontos de contato. O próprio processo criativo é bastante distinto, inclusive quanto à demanda de tempo. Na maioria das vezes, o conto demora muito mais para ficar pronto, prescinde de uma elaboração maior, que vai da ossatura da trama aos diálogos, passando por questões como a definição física e psicológica dos personagens, o fio da história (linear? não linear?) e a escolha do narrador. Então diria que quase sempre a ideia já sinaliza o gênero no qual será desenvolvida.

Mateus Baldi –A lua na caixa d’água parte de uma homenagem a Aldir Blanc, mas o compositor carioca não é o único fio que conduz o livro: o jogo entre interior versus exterior, sem falar na sua filha, Lia, são recorrentes, chegando a pautar a divisão das crônicas. Como você chegou a esse esquema e como foi a tarefa de dividir os blocos de texto?
Marcelo Moutinho – Como faço em todos os livros, arquitetei uma estrutura. Gosto quando os livros de narrativas curtas, sejam contos ou crônicas, têm essa espécie de costura temática. No caso de A lua na caixa d’água, há três partes. Na primeira, estão os textos que tratam da infância — a minha e a da Lia, muitas vezes espelhadas —, do universo familiar num bairro do subúrbio, sob o olhar da criança. A segunda representa o movimento da casa para a rua. Traz as crônicas que falam da cidade e de seus personagens, sejam conhecidos do grande público ou não. Estão lá, por exemplo, o cantora e compositora Dona Ivone Lara, o jornalista Jota Efegê, o jogador Zico, mas também Agnaldo, o garçom que, após uma amalucada campanha de frequentadores do bar onde trabalhava, acabou por carregar a tocha olímpica nos Jogos do Rio de Janeiro. A unidade final funciona como uma síntese das duas primeiras. É composta por um só texto, uma carta que escrevi para Lia em 2015, quando ela nasceu. O Rio completava então 450 anos e fiz o exercício de imaginar que cidade minha filha encontraria cinco décadas depois. Quando os 500 anos do Rio coincidirão com os 50 dela. Digo, entre outras coisas, que gostaria que as livrarias ainda existissem e que as pipas continuassem a desenhar suas linhas coloridas pelo céu da Zona Norte. É como um epílogo que conjuga a experiência individual e a aventura da coletividade. E, claro, uma declaração de amor à cidade e à própria Lia.

Mateus Baldi – O futebol, o samba, o carnaval, o subúrbio. Seja na ficção ou nas crônicas, seus temas aparecem de forma bastante explícita. Você calcula o quanto de cada um vai entrar em cada livro ou é uma produção que surge a partir de certa demanda da realidade?
Marcelo Moutinho – Se por um lado gosto de planejar a estrutura do livro, pensar sua força-motriz, não faço cálculo algum com relação a quanto de cada tema vai entrar. Esses assuntos aparecem de forma muito espontânea, porque compõem o meu rol de afetos mais intensos, o recorte do mundo com o qual gosto de trabalhar. Mas não instituo como obrigação. Aliás, acho muito ruim quando a literatura – seja por autoimposição do autor, seja por modismos – fica refém de pautas.

Mateus Baldi –A lua na caixa d’água se encerra com uma espécie de pós-escrito, uma carta para sua filha. Esse final coroa todo um percurso que Lia faz nas mais de 150 páginas anteriores. Como você decidiu escrever o crescimento dela e que cuidados tomou para não cair nas enormes armadilhas que esse gesto implica?
Marcelo Moutinho – A presença da Lia nas crônicas escritas para revistas como a extinta Vida Breve e o jornal Rascunho acabou sendo levada para o livro porque a experiência da paternidade – ou da maternidade – nos coloca diante de um espelho com duas faces. Uma delas aponta para o futuro, para a perspectiva de acompanhar o crescimento da minha filha, de pensar como ela vai ser, o que vai fazer, no amanhã. A outra face mira o passado, já que a vivência com uma criança nos recoloca no espaço da infância, carreia a lembrança da casa de nossos pais, do cotidiano ao lado deles. A rigor, o livro faz esse mesmo movimento. Ao tratar da minha vida em Madureira, estabelece uma espécie de linha histórica. Meus pais, eu, Lia. É incrível observar as interseções – um jeito de sentar, uma expressão recorrente, a forma de posicionar o corpo na hora de dormir. Lia tem me possibilitado, também, uma redescoberta do mundo. É muito bonito isso. Como observa o Luiz Antonio Simas na orelha do livro, muitas vezes, ao crescer, o adulto se adultera. Perde a capacidade de espanto. E ela, a cada dia, vem restaurando em mim essa capacidade. Já ouvi que A lua na caixa d’água é um livro sobre perdas. Diria que sim, mas que é igualmente um livro sobre o triunfo da memória diante da morte.

Mateus Baldi –Você vem cada vez mais se aproximando da não-ficção – A lua na caixa d’água e sua pesquisa sobre a atriz Zaquia Jorge são bons exemplos. A ficção perdeu a graça? Como escrever ficção, como ainda criar histórias num país que deseja cotidianamente a morte do bom delírio?
Marcelo Moutinho – Não perdeu a graça, não. Continuo sendo um leitor ávido de ficção. Como escritor, é que tenho dado um tempo. Falta ânimo mesmo. Agora em julho publico, pela Malê, uma antologia de contos inspirados nos arquétipos dos orixás, com 18 autores de diferentes cantos do país. Mas no papel de organizador, não de autor. Pretendo terminar a pesquisa sobre a Zaquia Jorge e publicar sua biografia. Ela brilhou no teatro de revista, nas chanchadas, foi pioneira ao abrir um teatro fora das áreas de elite da cidade, virou tema de uma canção de imenso sucesso e enredo de escola de samba. É absurdo que uma artista com trajetória tão admirável seja praticamente desconhecida no Brasil. Pretendo também continuar a escrever crônicas e livros infantis. Há um com lançamento programado para outubro e outro já contratado para o ano que vem, ambos pela editora Oficina Raquel. Talvez um dia volte aos contos, não sei. Marques Rebelo já dizia em 1959 que, no Brasil, uma história precisa ter no mínimo 300 páginas para ser considerada profunda. Isso só piorou. Aqui, se você não escreve romance, em geral é visto como um eterno jogador do time de aspirantes.

A Lua na Caixa d’Água

Em livro de crônicas, o escritor carioca Marcelo Moutinho homenageia o Rio, os grandes autores do gênero, o compositor Aldir Blanc, o samba e também sua filha de cinco anos

Leonardo Neiva

“Essa aqui, dentro da caixa d’água, é a lua da Zona Norte. Põe a mão nela… Tão distante na imensidão, a lua cheia, de repente, estava ali ao lado, passível de toque, trêmula e morna.” Assim o escritor e jornalista carioca Marcelo Moutinho ecoa as palavras de Aldir Blanc, compositor e cronista também carioca, morto em maio de 2020 por complicações de saúde devido à Covid-19.

A homenagem integra seu novo livro “A Lua na Caixa d’Água” e aparece na crônica de mesmo nome, que trata dos minúsculos detalhes que integram os pequenos momentos das nossas vidas — aqueles que parecem insignificantes em contexto, mas que acabam se mostrando inesquecíveis. Na mesma toada de uma prosa poética envolvente, Moutinho vai tecendo homenagens em forma de crônicas. E fala do bairro de Madureira, de grandes nomes da literatura e da crônica, como Rubem Braga e Carlos Drummond, do samba do Império Serrano e também de Lia, sua filha de cinco anos.

Vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional e finalista em premiações literárias de prestígio como o Oceanos e o Portugal Telecom, Moutinho é autor dos livros “Rua de Dentro” (Record, 2020), “Ferrugem” (Record, 2017), “Na Dobra do Dia” (Rocco, 2015), também de crônicas, e “A Palavra Ausente” (Rocco, 2011), entre outros. Em meio aos pequenos relatos do cotidiano que recheiam essa nova obra, Gama selecionou uma crônica sobre aqueles dias em que nada parece dar certo e outra centrada no luto pelos bares, referências da boemia e da convivência entre estranhos, que a pandemia nos tirou tão cedo e sem aviso.

“Tem dias”

“Tem dias em que o copo de café cai da mão. Você coloca a quantidade de sempre, pinga o adoçante, pega o jornal, senta-se na cadeira pronto para mergulhar nas notícias de ontem e… tá lá o líquido derramado por toda a mesa, encharcando os papéis, pingando no chão.

Logo ao acordar o troço se anuncia. A pasta de dente no fim, uma espremida na ponta do tubo, para ver se ainda sai alguma coisa. Girada a torneira, a água do chuveiro não esquenta. É preciso mexer no aquecedor, que fica depois da cozinha, e a toalha fcou esquecida sobre a cama. Pegadas molhadas ao longo do chão do banheiro, do quarto, da sala. O pano para secar.

Falta um botão na camisa, a única passada. O cachorro não vem fazer festa. Vai melhorar, você diz a si mesmo. E repete: vai melhorar.

Mas o vagão está lotado.

Tem dias em que a etiqueta da camisa pinica, o melhor prato acaba, a azia manda lembranças. O salto quebra na falha da calçada e não há loja de sapatos por perto.

Nem sinal de internet. Com a rede intermitente, o trabalho vira uma queda de braço. Conecta, desconecta, conecta de novo, já foi.

Então a ideia de dar uma volta. O sol lá fora fabrica promessas.

Reunião. Sim, você havia esquecido. Pegar o táxi, depressa, telefonar.

Desculpe, atrasado, muito atrasado, mas a caminho. Não deu.

Tem dias em que as desculpas são para você mesmo, não para os outros.

Aquele dinheiro não entra, aquela frase não sai, aquela música não toca no rádio.

Vai melhorar, você diz, agora sem tanta certeza. E resolve ir para casa mais cedo, no conforto do Uber Black.

Um filme à noite, talvez, uma bobagem qualquer na TV. Mexer com fogão nem pensar. Delivery. Sushi ou pizza, uma lata de cerveja, duas, não mais. E cama.

O trânsito assim, a essa hora. Não é costume, não, senhor. Acho que foi o temporal. Também, com o calor que tá fazendo. Satisfeito com a temperatura do ar? Aceita uma bala?

Na hora e meia de banco traseiro, a leitura enjoa. Dá ânsia de vômito.

Obrigado, senhor. Vou encerrar a corrida.

Tem dias em que você encontra a janela aberta, a sala alagada, a chuva pesa é dentro do peito.

E, no entanto, tem outros dias.”

Marcelo Moutinho indica livros de narrativas breves que influenciaram a sua escrita

“Machado de Assis dizia desconfiar que a crônica nasceu de um papo trivial entre duas vizinhas. “Entre o jantar e a merenda”, elas teriam se sentado à porta para debater os assuntos do dia. O primeiro foi o calor que castigava o bairro. Do mormaço passaram à qualidade das verduras, e daí ao comportamento dos moradores das redondezas. Conversa fiada, que o próprio Machado ajudou a transformar em gênero literário.

À margem das grandes narrativas, a crônica escreve a história de uma cidade a partir de suas miudezas. Da vida ao rés-do-chão, como bem definiu o crítico Antonio Candido. Sem solenidade, descreve personagens, gírias, modas, costumes. Uma literatura de chinelo e bermudas.

Difícil conceber um rol fundamental de livros de crônicas que deixe de fora nomes como Nelson Rodrigues, Antônio Maria, Elsie Lessa, Lima Barreto, Luis Fernando Verissimo, Cecília Meireles, Marques Rebelo, Carlinhos de Oliveira, Hilda Hilst, além do próprio Machado. Mas essa é uma lista pessoal e, com cinco títulos, reúne os autores que mais influenciaram o cronista que vos escreve. Pois vamos a ela.

A alma encantadora das ruas
João do Rio (Martin Claret, 2013)
O livro traz crônicas publicadas na imprensa carioca entre 1904 e 1907. O Rio de Janeiro vivia um acelerado processo de modernização, que o autor observa e registra a partir da experiência do flâneur, o indivíduo que percorre espaços urbanos com a curiosidade de um explorador. O texto intitulado “A rua” é uma aula sobre a arte de flanar.

A borboleta amarela
Rubem Braga (Global, 2019)
Autor que se dedicou quase exclusivamente à crônica ao longo da carreira, Rubem Braga foi um dos maiores mestres do gênero. Escrevia, muitas vezes, sobre coisas que pareciam não justificar um texto – inclusive a falta de assunto. Este livro traz crônicas veiculadas nos jornais entre 1950 e 1952. A que lhe dá título é uma síntese do lirismo ao mesmo tempo potente e singelo de Rubem, ao narrar a caminhada no rastro de uma borboleta que atravessa o centro da cidade.

A descoberta do mundo
Clarice Lispector (Rocco, 1999)
“Isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério”, escreve Clarice num dos textos que compõem esta obra. São, ao todo, 466 escritos, que de fato embaralham a noção de gênero ao conjugar conversas, reflexões, anotações, esboços de contos e confidências com jeito de diário. As crônicas – perdão, Clarice – foram publicadas originalmente entre 1967 e 1973, e ajudam a iluminar um dos aspectos mais fascinantes da obra da autora: a busca pelo instante incapturável.

O amor acaba: crônicas líricas e existenciais
Paulo Mendes Campos (Civilização Brasileira, 1999)
A antologia organizada pelo jornalista Flávio Pinheiro, publicada em 1999, é uma fundamental introdução à obra de Paulo Mendes Campos. Nela estão, por exemplo, “Receita de domingo”, “Pequenas ternuras”, “Dentro da noite” e “Rondo de mulher só”, textos que desvendam o inspirado frasista cuja prosa não raro resvala na poesia. Como se não bastasse, traz “O amor acaba”, talvez a mais bela crônica já escrita.

Rua dos Artistas e arredores
Aldir Blanc (Mórula, 2016)
A obra, que reúne textos veiculados no jornal O Pasquim entre 1975 e 1978, traz duas características inconfundíveis do autor: o humor e a acidez. Suas credenciais são apresentadas já na hilária crônica “Fimose de Natal”, que abre o volume. Familiares, amigos e figuras fáceis do bairro povoam as histórias passadas em Vila Isabel, que carregam o tom abrasivo e hiperbólico das lembranças da infância. Poucos escritores conseguiram juntar tão bem o sublime e o chinfrim.

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