Palmito


Juliana, minha companheira, ganhou o Palmito há cerca de quinze anos. O esmirrado filhote que saltava pelos cantos da sala, investigando o mundo com a curiosidade de habitante recém-chegado, logo se transformou num enorme cachorro. Impossível mantê-lo no acanhado apartamento. E assim Palmito foi morar na casa de dona Tânia, a mãe da Ju.

No quintal da casa de Cascadura, entre plantas e enfeites de louça, fez buracos na terra, deu saltos, ganhou festa. A distância não permitia o convívio diário, mas a cada vez que Juliana e Palmito se encontravam a saudade represada se desmanchava em carinho. Mútuo.

Domingo passado, estivemos por lá. Ele não foi nos receber, como de costume. Estava deitado, à sombra, a expressão de cansaço pesando nos olhos. Juliana ficou algum tempo a seu lado. Em silêncio, passava as mãos sobre os pelos, enquanto Lia, nossa bebê, gritava ao longe “Au au, au au”.

Três dias depois da nossa visita, o telefonema de dona Tânia: Palmito morreu.

Lia ainda não sabe da morte. Atravessa as horas tentando nomear as coisas, chorando quando tem fome ou quer dormir, sorrindo quase o tempo todo. Não pôde vislumbrar, naquela cena, a despedida que se desenrolava à nossa frente. Sem palavras, sem lágrimas.

Quando eu morava no antigo apartamento da Lapa, minha única companhia diária era a Mila, a gata preta que recolhi na rua, recém-nascida. Ao ouvir seus miados ante o mero girar das chaves na porta, ou flagrar a corrida pelos cômodos, em implacável perseguição a um pedaço de arame colorido, muitas vezes me peguei pensando: como saber sobre a felicidade dos bichos que vivem conosco?

Hoje, com mais dois membros na família-gato, a pergunta continua a ecoar. E nem mesmo os cientistas são unânimes quanto a essa questão. Grosso modo, costumam separar “emoções”, que seriam instintivas, e “sentimentos”, fruto da reflexão autoconsciente. Há estudos demonstrando que, assim como o ser humano, outros mamíferos têm no neurotransmissor dopamina um dispositivo para o processamento do desejo, ou da alegria.

Talvez seja o caso de se falar em afetos. Um ronronar, uma abanada de rabo. O nariz úmido que se aproxima para reconhecer, e reiterar, o cheiro da casa gravado na pele. É possível que, com todas as pesquisas, todo o avanço científico, não alcancemos mais que isso. Impressões. Um vislumbre escasso, quase intuitivo.

Nunca estive muito próximo do Palmito, a quem conheci já velhinho. Mas acho que ele foi feliz.


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