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Matéria de memória

Matéria de memória


Um romance sobre clones e clonagem. O tema, a princípio, não me animou. Mas a referência ao anterior Resíduos do dia, que conquistou o Booker Prize em 1989 e foi posteriormente adaptado ao cinema por James Ivory, trazia a promessa de que Kazuo Ishiguro acertaria novamente. Bingo. Desde a primeira leitura, Não me abandone jamais tornou-se um dos livros da minha vida.

A obra também ganhou versão cinematográfica (pelas mãos de Mark Romanek) e foi a reprise do filme, pescada num desses nossos zappings noturnos, que me reconectou com o texto de Ishisuro. Assim como em Resíduos do dia, ele trata da efeméride de uma nova ordem social. Lá, a decadência vitoriana ante a incipiente modernidade; cá, as pioneiras experiências da engenharia genética. Transformações mais recentes – e oblíquas.

O enredo se desenrola no final da década de 1990. Kathy, protagonista e narradora, tem 31 anos. Seu trabalho como “cuidadora” se resume a vagar por hospitais prestando assistência aos “doadores”, muitos deles seus ex-colegas em Hailsham, o internato de excelência onde se formou. No futuro, e Kathy sabe disso, ela também será uma “doadora”. A finalidade de sua concepção e os rumos de seu destino foram previamente traçados: Kathy nasceu para ceder seus órgãos e, depois, morrer.

Ainda que tal consciência só tenha chegado na fase adulta. Durante a juventude em Hailsham, povoada de algumas dúvidas e muita inocência, ela e seus amigos estudaram, brincaram, sorriram, choraram, fizeram sexo, sentiram medo e se apaixonaram, como qualquer pessoa.

Quando ciente sobre o amanhã que a aguarda, ela se resigna e tenta agarrar-se às próprias reminiscências, como revela a passagem na qual consola o amigo Tommy: “Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem em sua lembrança. A intenção dele, talvez, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi quanta sorte tivéramos”.

Em outro momento, Kathy vislumbra, de longe, um palhaço com balões de gás presos à mão. Os balões estampam desenhos de rostos sorridentes, e ela escolta o palhaço, aflita com a eventualidade de se soltarem. A imagem de fora dói dentro: “Pensei em Hailsham e fiz uma relação de seu fechamento com alguém munido de tesouras que se aproximasse e cortasse o barbante dos balões, bem onde todos eles se entrelaçavam no punho do homem. Assim que isso acontecesse, não restaria mais nenhuma evidência de que algum dia eles estiveram ligados uns aos outros”.

As perdas se impõem de forma sucessiva. A esvaziam. Tendo ou não complacência diante do que veem, Kathy, Tommy, cuidadores, doadores e também os beneficiários de seu padecimento estão apenas à espera da morte, líquida e certa. São matéria de memória. Um espelho onde, abruptamente, nos vemos refletidos. A face perde a cor, os contornos, desintegra-se.

Em cena já no fim do romance, Kathy estaciona o carro em frente a um campo rodeado de arame e repara que a cerca, única coisa capaz de barrar o vento por quilômetros, travou um amontoado de lixo. Ela fantasia: “De olhos semicerrados, pensei na franja de objetos vários ao pé da cerca, e imaginei que esse era o lugar onde tudo o que eu havia perdido desde os tempos de infância tinha ido parar, e que se eu ali, imóvel, esperasse o suficiente, uma minúscula figura apareceria no horizonte, lá bem ao longe, e iria aumentando aos poucos, até que eu visse que essa figura era Tommy, e ele me acenaria”.

O desenho de Tommy, contudo, rapidamente se desfaz. Kathy então liga o motor e parte, deixando a quimera e carregando a solidão. A dela, a nossa. Eis que a vida, mesmo efêmera, segue.


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