Maluco fundamental


Conheci Raphael Vidal quando ele editava, ao lado alguns amigos, o fanzine Bagatelas. Isso foi pouco antes de a internet dominar o mundo. Naquela época, ainda havia gente por aí gastando as horas em gráficas vagabundas para imprimir contos, poemas e artigos em papel jornal.

De recordação precisa, vem a imagem do dia em que o Vidal organizou uma cervejada em homenagem ao João Antônio. Ele mesmo, o autor de Malagueta, Perus e Bacanaço. Eu ainda não havia, então, ligado os pontos que conectam os dois: assim como João Antônio, Vidal é fascinado pelas ruas, pelos encontros que só as esquinas são capazes de proporcionar. E também pelos “merdunchos”, aqueles que correm à margem, tocando em frente, fazendo mais do que reclamando.

No dia do tributo, enchemos os cornos e, comovidos por estarmos a pouco metros do prédio onde João Antônio morreu, decidimos rebatizar a Praça Serzedelo Correa, em Copacabana, com o nome do escritor. Chegamos a combinar a produção de uma placa com a nova designação: Praça João Antônio. A ideia acabou diluída na água que afoga a ressaca.

De lá para cá, Vidal não sossegou. Trabalhou em editoras, buscando publicar textos que em geral não conseguem lugar sob o sol do mercado. Foi morar e organizou um festival de literatura na região portuária, muito antes de a cidade redescobrir aquela fração tão bonita. Criou a Casa Porto, misto de bar e centro cultural que mantém as portas sempre abertas a manifestações estéticas de toda sorte. Sem cerimônia. Sem preconceito.

Na Casa Porto, localizada no coração do Largo da Prainha, tem samba, tem jongo, tem funk. Tem conversa, no papo reto que dispensa formalidade. Tem cerveja gelada e quitutes preparados por moradores da vizinhança – eles, aliás, são parte essencial do espaço. Para usar a expressão da velha guarda, o Vidal chegou na área pisando miúdo. O que só reforça uma de suas marcas: a consciência de que saber não se impõe, não vem de fora para dentro. É construção conjunta, nasce da interseção, dos cruzamentos que o mantém sempre fresco, ácido à língua qual cajá, como no poema do João Cabral.

Eduardo Goldenberg, nosso amigo em comum, costuma dizer que o Vidal é um maluco fundamental para o Rio de Janeiro. Definição precisa. Ou não é maluco o camarada que resolve alugar um ônibus tipo lotação e carregar os convidados de seu aniversário pelos vários bairros nos quais morou ao longo dos pouco mais de 30 anos? A cada parada, um botequim para brindar a vida. A que passou, a que virá. E sobretudo a do presente, aquela que estava sendo escrita ali, em setembro de 2014.

Na semana passada, estive no Morro da Conceição para festejar mais um aniversário do maluco fundamental. A rua, lotada, era toda coração. Com o copo permanentemente atado à mão direita, ele abraçava cada qual e agradecia, e cantava, e sorria, e batia no tantã, e chorava. No antebraço, a tatuagem referia o passado áspero: “Não esquecer”. Mas o que Vidal nos lembrava é que a jornada prossegue e a felicidade pode ser simples como panelas nas calçadas, amigos sentados no meio-fio, um banho de mangueira.


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