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‘O assunto de Ferrugem é a vida que passa...

‘O assunto de Ferrugem é a vida que passa’

Quando li pela primeira vez os contos de Marcelo Moutinho, tive certo medo de que ele não conseguisse permanecer como escritor. Era um momento em que a cena literária estava dominada pela onda, pela febre, pela doença do “novo”. A cada ano os prelos cuspiam antologias e antologias de “novos” autores, carregadas de experimentalismos formais já quase seculares, da herança sentimental dos beatniks, da obsessão autopsicanalítica. E Moutinho remava vigorosamente contra toda aquela maré.

Tive, assim, uma alegria dupla ao receber os originais deste Ferrugem: a de ver renovada a tradição mais fértil do conto brasileiro, particularmente a da cena carioca e da linguagem lírica; e a de constatar que Moutinho se afima, com uma voz singular e inconfundível.

O assunto de Ferrugem é a paisagem humana, os grandes dramas corriqueiros, a vida que passa. Desfiam pelos contos personagens ímpares, insuspeitas, inesquecíveis, ainda que aparentemente comuns: a moça soropositiva, caixa de supermercado, que reencontra o antigo namorado; a cobradora de ônibus que dá conselhos amorosos a um passageiro; o cantor de boate que imita Roberto Carlos; o professor de contabilidade que se aventura numa sauna masculina.

O valor literário destes contos não está em tramas surpreendentes ou inusitadas, mas na alta-voltagem poética que a voz do narrador consegue extrair de situações vulgares. Marcelo Moutinho é um excelente contista e está aí para permanecer.

Alberto Mussa


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