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Escritores e seus labirintos

Escritores e seus labirintos


Em crônica recente sobre as mudanças na arrumação de sua biblioteca, o jornalista e escritor Fernando Molica revelou uma pequena travessura literária. Ao organizar as estantes conforme a nacionalidade e o idioma, costumava dispor, lado a lado, autores que passaram a vida trocando rusgas fora (e às vezes também dentro) dos livros. José Saramago e Lobo Antunes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. “Assim, eles poderiam continuar as brigas pelas madrugadas”, justifica.

Mas o texto tratava justamente de uma mudança de critério. Como conta, Molica se dobrou à tradicional ordem alfabética, a partir do sobrenome. Foi assim que terminei parando ao lado de Alberto Mussa (salve, compadre!), em uma das prateleiras do apartamento do autor de Notícias do Mirandão. Logo na sequência, vem o Raduan Nassar. É quase certo que em obsequioso silêncio.

Ao ler a crônica, corri para minha biblioteca. Lá em casa, quando os títulos pertencem a campos como a música ou o cinema, a classificação ignora os nomes dos autores. Os livros são arrumados conforme a amplitude de seu conteúdo. Exemplo: um tratado sobre a história da música brasileira vem antes da biografia do Cartola. Do geral para o particular.

No caso de prosa e poesia, contudo, vigora a ordenação por nome, ou sobrenome, dependendo do modo como chamo o escritor. Kafka mora na fileira do “K”, e não no “F” de Franz. Já a obra de Machado de Assis ocupa boa parte do “M”. Os poetas estão todos juntos, enquanto os prosadores – em maior número – mantenho separados entre ficção brasileira e estrangeira.

Nessa lógica particular, o catalão Enrique-Villa Matas e inglesa Virginia Woolf ficam coladinhos, assim como o americano Robert Creeley e a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Armando Freitas Filho decerto gostará de saber que se mantém a poucos centímetros da amiga Ana Cristina César. E o Sérgio Rodrigues não vai se chatear por ter Sérgio Sant’Anna como companheiro de prateleira. Maurício de Almeida é outro que dificilmente reclamará da vizinhança. Marques Rebelo de um lado, Michel Laub do outro.

Por falar em Laub, ele também separa em sua biblioteca os livros de ficção brasileira – armazenados no escritório – e estrangeira – na sala. A despensa foi reservada ao que chama de “variados”, como me confidenciou há poucos dias. Flávio Izhaki e Cintia Moscovich seguem o mesmo modelo, mas ela guarda um nicho especial para os autores que sempre busca reler: Clarice Lispector, Italo Calvino, Amos Oz, Isaac Bashevis Singer.

Vencedor do Prêmio São Paulo, Rafael Gallo separa uma prateleira para as leituras prioritárias. Na seguinte, entram as obras das quais, sim, pretende dar conta, porém sem a mesma urgência. O resto do espaço está ocupado pelos demais títulos. Sem regra de sequenciamento.

“E há como encontrar um livro assim?”, eu poderia perguntar igualmente ao cronista Antonio Prata. Em sua estante, ele divide os títulos segundo o assunto. Mas no setor das obras ficcionais a confusão impera, a ponto de já ter começado a cogitar a convocação de algum profissional que lhe dê um auxílio. Talvez a Micaela Góes, do programa Santa Ajuda, como sugere outro Antonio, o Torres.

“Não tem nada aqui em ordem alfabética. Ainda consigo me achar na estante dos livros sobre o Rio de Janeiro, os da ABL, os de autores brasileiros em geral e dos amigos em particular. O resto é caos”, diz o acadêmico.

Devido à pouca visão, Maria Valéria Rezende criou um código próprio para se orientar em meio aos livros que espalha por toda a casa. Marcou as lombadas, conforme o gênero, com pedaços de fita colante colorida. Poesia é amarelo, romance é vermelho, conto é verde.

Outro critério peculiar é o de Flavio Carneiro. Professor, ficcionista e camisa 7 do extinto Pindorama Futebol e Literatura, ele pega de empréstimo o preceito usado pelo historiador de arte alemão Aby Warburg: a “boa vizinhança”. Na mesma rua, portanto, estão as narrativas de Ficções, de Jorge Luis Borges, os contos policiais de Dashiell Hammett, a obra de Edgar Allan Poe.

Motivado pela leitura da crônica do Molica, o papo com os colegas escritores deixou claro que os sistemas variam muito. Sujeitam-se a afetos, idiossincrasias. Mesmo nos casos em que o princípio é quase rarefeito.

Borges dizia que a biblioteca é ilimitada. Assim como o universo. “Se um viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem”, escreveu. E essa desordem, reiterada, acabaria por configurar uma ordem.

A ordem paradoxal do labirinto, que na conversa da semana passada, curiosamente, só um dos autores evocou. Questionado sobre seu critério, Sérgio Sant’Anna foi breve: “Meus livros simplesmente não passam por nenhuma espécie de organização”.


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